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"A gente não pode ter medo da música", diz Marcelo Jeneci

Músico paulistano fala sobre seu novo disco 'De Graça', o acordeão na música indie e sua história com o instrumento

23 out 2013
13h28
atualizado às 13h29
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Convidado do Terra Live Music Especial Natura Musical , na última terça-feira (22), Marcelo Jeneci disse que deixou de ter medo da música quando começou a explorar outros instrumentos para transpor o que está em seu pensamento. Conhecido por seu trabalho com o acordeão, o artista também tocou piano ao apresentar as músicas de seu segundo disco, o recém finalizado De Graça .

“Eu sou músico e acho que em algum momento eu percebi que a gente não pode ter medo da música”, disse Jeneci. “Para mim, vale mais a pena dar conta da música tocando o que estiver por perto. É mais ou menos nesse sentido, sem forma, que a música passeia no meu pensamento.”

Em conversa momentos antes de sua apresentação no estúdio do Terra , o paulistano de 31 anos contou que o processo gravação de De Graça foi muito mais árduo que em Feito Para Acabar, de 2010.

“Para mim foi bem pesado fazer esse disco. Eu tenho dito que ele me fez um bem horrível”, contou, rindo. “O primeiro eu tinha um pouco mais convicção do que ia ser no final e esse eu tinha só uma intuição, de que eu deveria seguir por um caminho, uma mata fechada sem entender direito onde ele ia dar.”

Jeneci também comentou sobre o papel do acordeão na música – não só brasileira – e apontou que o instrumento vive atualmente uma fase indie. “Parece que, o que tem sanfona e remete um pouco a sonoridade indie, acaba chamando um pouco a atenção de novo”.

Confira a entrevista completa.

De Graça, por Marcelo Jeneci
Terra - Seu novo álbum se chama De Graça . Qual foi a ideia por trás disso?
Marcelo Jeneci -
Eu escolhi esse nome porque, de algum modo, ele diz várias coisas. A palavra ‘graça’ tem vários sentidos. Ao mesmo tempo que é nome - “qual a sua graça?”, né, “qual é o seu nome?” -, ela também, como figura de linguagem, tem essa coisa “ah, estou de graça”, “estou de bricadeira, tirando onda”. E também tem o 'de graça', o monetário, de não ter que pagar nada para ouvir. Tem a graça de viver, a graça que é o dom. Então o nome é meio que pensando nessa somatória de todas as coisas. Mas o mais importante que acho é que, quando a gente tem o impulso verdadeiro de fazer algo, é de graça isso que a gente sente. E a arte também tem graça quando ela é de graça, quando ela consegue ir até o final com esse intuito de compartilhar.

Terra - E você disponibilizou todo o disco de graça. Você defende que a música deva ser gratuita?
Marcelo Jeneci - Eu coloquei para as pessoas escutarem, mas acredito na indústria.  O que não acho legal é esse tipo de preço que está rolando hoje, do “se colar, colou”. Qualquer show R$ 200/300, qualquer pizza R$ 100, qualquer apartamento R$ 1 milhão. Não curto essa se colar, colou. Mas disponibilizei na internet para ouvir o álbum inteiro e quem quiser comprar, para ter o disco e a arte gráfica, que é cheia de surpresas táteis, aí você pode ir à loja e comprá-lo.

Terra - De Graça é seu segundo trabalho. Houve essa pressão “do segundo disco tem que ser tão bom quanto o primeiro”?
Marcelo Jeneci - Houve bastante. Para mim foi bem pesado fazer esse disco. Eu tenho dito que esse disco me fez um bem horrível [risos], porque foi difícil.

O melhor da vida, por Marcelo Jeneci
Terra - Como foi a produção?
Marcelo Jeneci - A produção foi muito.... [pensa] intensa. Mas ao mesmo tempo, com a colaboração genuína de todo mundo que participou - o Edu Costa, engenheiro de som, o Alexandre Kassim e o Adriano Cintra produzindo, Laura Lavieri cantando e o Samuca e o Régis tocando -, foi muito agregador. E eu acabei trazendo muito para o meu universo, de ficar criando aquelas melodias - que o Eumir Deodato, inclusive, somou com a orquestra -, da minha imaginação sonora.

Terra - Você sentiu alguma grande diferença em você como artista em relação ao disco anterior, Feito para Acabar ?
Marcelo Jeneci -
Bastante. O primeiro eu tinha um pouco mais convicção do que ia ser no final e esse eu tinha só uma intuição, de que eu deveria seguir por um caminho, uma mata fechada sem entender direito onde ele ia dar. Mas todas as vezes que a música do qual a banda levantava não tinha a ver com o que eu achava que tinha que ser, aquilo me incomodava e eu insistia um ou dois dias até chegar à intuição certa que me emocionava. Não sabia direito como ia ficar no final, mas fiz tudo o que podia para ficar assim. Então, o primeiro foi um pouco mais leve.

Terra - E respondeu às suas expectati...
Marcelo Jeneci - Sim! [risos]

Temporal, por Marcelo Jeneci
Terra - Sobre o acordão, instrumento que te destacou, você se sente mais sanfoneiro ou cantor?
Marcelo Jeneci - Eu sou músico e acho que em algum momento eu percebi que a gente não pode ter medo da música. E as vezes, quando o cara é focado muito em um instrumento, ou ele vira um virtuoso difícil de comunicar ou as vezes não, fica um excelente músico, super comunicativo e dominando o instrumento. Mas em um determinado momento eu percebi que valia mais a pena dar conta da música onde quer que eu esteja. Então é tocando o que estiver por perto, mais ou menos nesse sentido, sem forma, que a música passeia no meu pensamento.

Terra - E com o destaque da sua carreia na música nacional você acha que o acordeão está sendo mais valorizado?
Marcelo Jeneci -
É muito “nichado”. Eu acho que na história da música brasileira o acordeão se manifestou em décadas diferentes: no começo do século passado, onde era um instrumento muito usado por mulheres no sudeste, e no nordeste, quando apareceu o Gonzagão criando aquela sonoridade e trazendo a música da sanfona para o Brasil. E como o Brasil foi muito construído pelos nordestinos, acho que a sanfona carrega um lance que tem “som de saudade”. Saudade do cara que teve que sair de lá para trabalhar de pedreiro na construção de Brasília, para trabalhar em São Paulo e tal. Então ela tem um pouco da saudade impregnada no próprio som dela.

Só eu sou eu, por Marcelo Jeneci

Depois teve o forró universitário, onde apareceram Falamansa, Peixe Elétrico - do qual toquei -, Forróçacana, Rastapé, e de novo a sanfona deu uma despontada. E de lá para cá, eu acho que tem aparecido um pouco nessa vontade de um grupo de fazer música indie, e fica trazendo um pouco desta “Gestalt” da música indie, das que aparecem no Pitchfork, como o Arcade Fire, que usa sanfona. Aí parece que, o que tem sanfona e remete um pouco essa sonoridade indie - que é um pouco uma armadilha esse negócio -, acaba chamando um pouco a atenção de novo. Então, talvez, a gente esteja nessa agora.

Terra - E você acha que é seu papel manter esse legado do acordeão na música brasileira?
Marcelo Jeneci - Não, não tenho nada a ver com isso! [risos] Eu toco porque..... quer dizer, tenho, né. Eu fico dizendo isso brincando. A minha família é pernambucana e meu pai trabalha eletrificando sanfona, então isso atravessa um pouco a história da minha família. Eu acho legal quando as pessoas veem nisso, que é uma opção natural para mim, algum valor a mais, como esse de carregar um legado. Eu gosto. Tomara que, pelo menos para uma pessoa, a minha aparição sirva para dar um empurrão para começar no instrumento.

Terra

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