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Skank lança álbum de 91 e critica nova geração: "infantilóides"

5 set 2012
14h16
atualizado em 10/11/2014 às 17h51
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Eles formavam um grupo fissurado pelas batidas do dancehall e do raggamuffin. Com instrumentos musicais na mão, os amigos quiseram resgatar esses ritmos de um modo mais abrasileirado, até que, em 1991, um produtor musical os chamou para se apresentarem em uma badalada casa da capital paulista. Sem muito equipamento, pegaram um ônibus na rodoviária de Belo Horizonte, sua cidade natal, e desembarcaram em São Paulo para tocar para um público de 37 pessoas. Entre versões descontruídas da MPB e canções próprias, fizeram o primeiro show, que marcaria a longa carreira da banda. Essa é a história de Skank 91, álbum recém-lançado que resgata o primeiro capítulo da história do quarteto mineiro, formado por Samuel Rosa, Henrique Portugal, Lelo Zaneti e Haroldo Ferretti.

O quarteto mineiro acaba de lançar 'Skank 91', álbum que resgata trechos de shows e canções de estúdio da década de 1990
O quarteto mineiro acaba de lançar 'Skank 91', álbum que resgata trechos de shows e canções de estúdio da década de 1990
Foto: Getty Images

Além de trechos da apresentação, o disco traz dez canções que foram gravadas na época, em um estúdio na casa dos pais de Haroldo - sete delas entrariam no registro de estreia da banda, Skank, de 1992. Sem tratamento de mixagem, Skank 91 passou pelo especialista em masterização Chris Gehringer, que se manteve fiel às versões originais. "Trata-se de um 'disco pirata oficial', de um Skank inacabado, uma banda que estava no esboço ainda, no rascunho. Não tínhamos produtor e nem gravadora na época, era tudo laboratório, experimentações", comentou Samuel em entrevista ao Terra.

O vocalista ainda falou sobre o cenário atual da música brasileira, ao apontar que o rock deixou de atingir a grande massa. Segundo ele, os produtores passaram a investir em targets, fazendo rock "como se faz campanha publicitária", com uma grande fatia de músicos destinados ao público adolescente: "querem conversar com o público de 14 a 17 anos, por exemplo. Aí vêm essas bandas 'infantilóides', quase um Menudos do terceiro milênio. Os caras que produzem essas bandas pensam de um jeito que as torna meio 'debilóides', como se música pra criança tem que ser Xuxa. Não necessariamente. É legal deixar a criança escutar Xuxa, mas apresenta outras coisas também. Eles (produtores) meio que menosprezam a capacidade deles (jovens)".

Terra - Por que decidiram relançar esse registro de 1991?
Samuel Rosa - Tínhamos bastante coisa de 91 registrada, com uma qualidade razoável, que nos permitiu transformar em disco. Tem um trecho do primeiro show que o Skank fez na vida, em São Paulo, no projeto chamado Disco Reggae Night. A intenção, então, é mostrar um pouco os bastidores dessa estreia da banda, que tipo de interesse havia ali, musical e estético, como o grupo pensava, como eram os arranjos.

Terra - Por que fazer esse resgate agora?
Samuel - Eu não sei por que agora... Acho que a gente tem uma facilidade muito grande pra lançar um disco, que não existia há pouco tempo atrás. Não é uma coisa tão burocrática quanto foi em outros tempos. E também por achar que existe gente que vá se interessar por esse disco, caso contrário não lançaríamos.

Terra - Qual o público-alvo?
Samuel - Com a internet, a gente começou a perceber que o nível de interesse das pessoas por uma banda varia muito. Você tem uma pessoa que tem um interesse mais superficial, tem os fãs que gostam de ter diferentes registros e tem também o cara mais xiita, que gosta dos primeiros álbuns e de versões diferentes, então isso aqui é um prato cheio. Sem contar que não deixa de ser um lado de bastidor, que para um cara que acompanha a banda é interessante.

Terra - Com a quantidade de material publicado em sites como Youtube, vocês quiseram lançar esses registros antes que vazassem?
Samuel - Não dá pra controlar tudo que foi feito pelo Skank , que tudo vai passar pelo nosso crivo até chegar ao público. Acabou isso. Todo mundo documenta as coisas o tempo todo. Então a gente tenta correr na frente, pegar esse material e já lançar.

Terra - É um ato de coragem lançar um álbum cru, de uma banda que ainda estava no esboço?
Samuel - Tem músicas que ganharam versões bem distintas depois, no álbum de estreia, músicas que foram alteradas, músicas que a gente compôs e que não entraram no disco. Então não deixa de ter um pouco de coragem nisso aí, em lançar uma intimidade da banda, pois não estava ainda no seu produto final.

Terra - A canção Tanto também faz parte do disco de estreia do Skank, mas é a única que não entrou nesse registro. Por quê?
Samuel - Eu não sei exatamente por que ela não entrou aqui. Talvez pela questão da qualidade do som, pois aí está apenas um pedaço do show. São seis músicas, mas a gente deve ter feito um show de, pelo menos, 16 músicas. Tem muita coisa que não tinha a qualidade mínima pra figurar no álbum.

Terra - Esse disco resgata algumas versões que fizeram de canções consagradas, como Raça, do Milton Nascimento, e Cadê o Penalty, do Jorge Ben. Na época em que decidiram gravar, qual foi o critério para a escolha?
Samuel - No início da carreira, a gente costumava tocar muito em bares e era muito comum a exigência de que tocássemos músicas conhecidas. Então fazíamos versões meio que dentro da estética Skank, até como forma de atrevimento, de pegar uns clássicos da MPB e deformar mesmo, fazer uma versão totalmente diferente, pra causar até uma certa estranheza. Sem contar também que não éramos uma banda que compunha tanto, pois estávamos bem no começo.

Terra - Como chegaram ao contato para esse show em São Paulo, no Aeroanta, que era uma casa conhecida da época?
Samuel - Antes do Skank, eu tinha uma outra banda com o Henrique Portugal, a Pouso Alto. A gente começou a pesquisar um pouco mais sobre bateria eletrônica, dancehall, essa onda do reggae que estava rolando na Jamaica daquela época. Então mandamos material para o Otávio Rodrigues, que é um expert nesse assunto. Ele falou que iria marcar uma data pra tocarmos. Acontece que essa minha banda acabou, mas queríamos dar continuidade a esse projeto, então chamamos o Haroldo e o Lelo, sendo fundado o Skank, no início de 91. Aí retomamos o contato com o Otávio e marcamos o show.

Terra - Como foi o show?
Samuel - Tinha pouca gente, porque ao mesmo tempo estava acontecendo uma final no Morumbi (estádio). Nós não tínhamos a menor perspectiva de um público grande, porque éramos uma banda anônima. Sem muito equipamento, pegamos um ônibus na rodoviária de Belo Horizonte e baixamos em São Paulo, felizes da vida. Era um feito pra uma banda anônima da nossa cidade fazer um show em São Paulo em uma casa que era vitrine. Foi uma estreia de gala, se não fossem as 37 pessoas presentes. Tivemos direito até a matéria na MTV e chamadas em alguns jornais de São Paulo. A nossa expectativa era impressionar o público formador de opinião, caso tivesse, e o dono da casa, que poderia chamar a banda pra outra temporada em um momento melhor.

Terra - A apresentação ajudou a abrir portas?
Samuel - Não foi um divisor de águas. Voltamos para Bela Horizonte e ficamos um pouco sem saber o que fazer.

Terra - E quanto à influência do ska?
Samuel - O ska não era nosso prato predileto. A gente tinha algumas coisas do gênero, principalmente na hora de fazer a parte mais instrumental nos shows. Mas estávamos muito interessados nas bandas mais envenenadas, nos artistas de dancehall daquela época, como o Shabba Ranks, e também em uma dupla que mudou a concepção do reggae, dessa coisa de baixo e bateria, que era o Robbie Shakespeare e o Sly Dunbar. Eles eram os rockers do reggae. A gente era aficcionado nesses caras, mas era uma coisa pouco divulgada no Brasil. A prova disso é que o Skank foi uma das primeiras bandas a fazer algo similar ao dub, em que algumas faixas deixávamos um "rabicho" só instrumental e muito ligado nessas influências.

Terra - Então, no começo, vocês queriam seguir pelos caminhos do dancehall?
Samuel - A gente começou a achar que poderia ter uma banda de dancehall brasileira de brancos, o que foi um engano. Mas também começamos a gostar dessa ideia de fazer uma coisa que ninguém estava fazendo. A nossa assinatura era um híbrido de uma tentativa frustrada de ser dancehall. Até que começamos a pensar em dar uma abrasileirada nas levadas, colocar um pouco mais de guitarra. Esse foi o ponto inicial do Skank.

Terra - Você acha que ajudaram a trazer ao Brasil esses ritmos jamaicanos?
Samuel - Esse disco (o primeiro) dá sinais de coisas que iriam acontecer com o Skank naquela década e, talvez, sem querer ser muito pretensioso, não só com Skank, mas com outras bandas. O flerte com as baterias eletrônicas programadas iria ser o mote de muitos grupos daquela época. Então a gente abriu essa porteira e muitas bandas nacionais começaram a usar os metais em sua formação.

Terra - Por que vocês abandonaram essa pegada e começaram a caminhar mais pelo pop?
Samuel - Eu acho que o pop está em tudo, ele é interpretado como algo acessível. O Skank consegue um equilíbrio entre o acessível e algo com conteúdo. Acho engraçado quando vejo alguns comentários, principalmente na Internet, de que o Skank começou mais reggae e depois ficou mais pop... Eu não acho isso. As coisas começaram a ficar mais tortas depois, do Maquinarama (2000) pra frente. Mas não acho que uma canção que a gente tenha feito do Maquinarama ou do Cosmotron (2003) pra agora possa ser taxada de mais ou menos pop do que Te Ver ou Jackie Tequila (ambas do Calango, de 1994).

Terra - Então essa transição não foi premeditada?
Samuel - Acho que toda banda se planeja um pouco, é até bom que se faça planos. Mas eles vão mudando ao longo do caminho, pois a história vai se mostrando e você vai se apropriando. Várias vezes entramos no estúdio pensando em fazer uma coisa, mas sai outra. Você não pode estar engessado, porque essa rigidez não faz bem.

Terra - O que você acha da atual cena musical brasileira?
Samuel - Bem caipira, né? (risos)

Terra - Existe algum músico que você goste?
Samuel - Falando do meu cenário, do pop rock, há uma divisão em dois flancos que eu vejo claramente. Um dos planos é onde estão as boas ideias, a inquietação, o conteúdo, a inteligência, mas também um desapego muito grande a ser grande, popular... Talvez por medo ou por desinteresse. Essas são as bandas legais que estão no underground e que frequentam o circuito de rock independente.

Terra - E o outro flanco, qual é?
Samuel - O outro vai numa postura meio defensiva, desviscerada, que acredita que o rock perdeu a capacidade de abrangência, de popularidade. Eles, então, resolveram falar com um público target, fazendo rock como se faz campanha publicitária.

Terra - Com essa onda do sertanejo, o rock ficou para escanteio?
Samuel - Totalmente. A gente perdeu muito da preferência da juventude brasileira.

Terra - Por que você acha que isso aconteceu?
Samuel - O rock não tem que, necessariamente, ser feito pra quem gosta de rock. Não foi assim em outros tempos, não é assim lá fora. É muito bacana quando um grupo de rock, mesmo debutante, faz uma música e transcende os poucos seguidores pra tocar em vários lugares. Eu acho isso um fenômeno fantástico, o rock tem essa característica, mas perdeu um pouco disso no Brasil. Se não, como explicar a quanto tempo não sai uma música desse segmento pra fazer o País cantar, como fizeram o Skank, os Paralamas, os Titãs, os Raimundos, etc. Era o Brasil inteiro que cantava, não só o público de rock. Por que a gente perdeu essa capacidade? A questão é saber por que o rock renunciou ao seu lugar, que conquistou a duras penas nos anos 1980.

Terra - O que você acha do fenômeno que se tornou o Michel Teló?
Samuel - Ele está aí porque tem gente pra ouvir, a culpa não é dele. Explicar sucesso é a coisa mais difícil do mundo, porque é explicar comportamento, é complicado. Mas o Michel Teló não é vilão, eu não tenho nada contra ele. Acho que essas coisas popularescas acontecem, esses fenômenos acontecem, e eu conheço isso desde que eu tinha 7 anos, quando estourou Farofa-fá (de Mauro Celso). A molecada toda cantava isso, mas cantava também Secos e Molhados, então tinha alternativa. O problema é a alternativa ao Michel Teló, que não tem mais. Acho que o Skank, no momento que surgiu, era uma alternativa entre o "axé rebolativo" e o mais alternativo, que era o Chico Science, o Mundo Livre S/A.

Terra - O rock, então, teria ficado apagado por falta de interesse de quem?
Samuel - Sinceramente? Ou é por falta de vontade ou é por falta de inteligência, da parte de todo mundo, de produtores, diretores de TV e rádio, gravadoras... Mas, assim, também não quero inventar de quem é a responsabilidade. Pra mim, é difícil acreditar que tantos grupos estejam dispostos a renunciar à possibilidade de fazer música para uma massa.

Terra - Há dois anos, vocês relançaram o álbum Calango, com oito faixas extras de material inédito. A banda tem intenção de resgatar outros materiais futuramente?
Samuel - Não temos tanta coisa assim... O que mais temos guardado, e que tenho vontade de lançar, são vídeos. Tem bastante coisa, shows fora do Brasil, etc. Tenho vontade de fazer uma compilação.

Terra - E um novo álbum de inéditas, vocês têm algum projeto?
Samuel - Ainda não.

Terra - E quanto a abrir uma turnê só para tocar o Skank 91?
Samuel - Não queremos parar a turnê atual, que é do Mineirão Ao Vivo, pra fazer show só desse disco. Talvez a gente abra espaço na apresentação para tocar três ou quatro músicas.

Terra - Recentemente, algumas bandas fizeram shows de discos dos anos 1980, como o Titãs, que apresentou o Cabeça Dinossauro (1986). O que você acha desse resgate?
Samuel - Eu acho legal, isso é um sinal de que o rock brasileiro ainda tem o seu espaço, é respeitado e merece reverência. Acho que o brasileiro é desmemoriado, desrespeitoso com a história, então quando eu vejo coisas como essa fico animado, porque acho que isso é um sintoma de evolução.

Fonte: Terra

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