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Tim Festival 2004
Domingo, 7 de novembro de 2004, 13h22 
David Sánchez e Branford Marsalis recuperam jazz
 
Marie Hippenmeyer/Divulgação
O cubano David Sanchez
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Existem momentos em que um fã de jazz quer simplesmente reencontrar os instrumentistas que obedecem as regras mais simples do estilo, que evitam o experimentalismo obsessivo e a parafernália dos instrumentos eletrônicos.

Quem torceu o nariz para os arranjos complexos do pianista Brad Mehldau, principal atração do primeiro dia do Tim Club - espaço reservado para os jazzistas do Tim Festival - certamente vibrou com as duas atrações internacionais de sábado, segundo dia do evento: os saxofonistas David Sánchez e Branford Marsalis.

Sánchez, nascido em Porto Rico há 38 anos, defende a legítima escola do jazz latino, mas encantou o público quando abriu seu concerto com "Coral," segundo movimento das Bachianas n 4, composta pelo erudito brasileiro Heitor Villa-Lobos.

"É um prazer estar no Brasil, em São Paulo. Respeito muito a cultura e a música desse país. E considero Villa-Lobos um dos maiores compositores da história da América," disse Sánchez, durante sua apresentação.

Branford, 44 anos, saxofonista norte-americano, faz parte de uma das famílias mais nobres da história do jazz - irmão do trompetista Wynton e filho do pianista Ellis. Sem cerimônia, ele esquentou a noite com uma autêntica jam session, convidando os músicos da banda de David Sánchez para retornar ao palco e participar do longo improviso sobre os acordes de Sonny Moon For Two, obra-de-arte composta pelo tenor Sonny Rollins no final dos anos 1950.

Decepcionante mesmo só a apresentação do dedicado quarteto brasileiro de violões Maogani, que abriu a noite, às 21h. Os arranjos quadrados e bem organizados do grupo podem funcionar com perfeição em um CD, mas não empolgaram em um festival para mil pessoas.

O repertório foi perfeito, composto por músicas de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes (Lamento no Morro e O Morro não tem vez), de Chico Buarque e Francis Hime (Passaredo) e de João Donato e Gilberto Gil (Bananeira), mas faltou inspiração e ousadia aos músicos durante as execuções.

A força latina
David Sanchéz foi a primeira atração do Tim Club a revitalizar o jazz mais tradicional, esquecido durante a primeira noite do festival (com shows do violonista Chico Pinheiro, do pianista Brad Mehldau e da cantora Nancy Wilson).

Depois da sonolenta apresentação do quarteto Maogani, Sanchéz subiu ao palco às 22h30 acompanhado pelo pianista Edsel Gómez, pelo baixista Hans Glawischnig e pelo baterista Adam Cruz e despejou potência utilizando simplesmente a força de seu sopro.

Tão ágil quanto um de seus ídolos, o cubano e saxofonista alto Paquito D'Rivera, Sánchez obrigou a todos seus músicos a tocar em volume altíssimo, embaralhando ritmos, fundindo salsa com bossa nova e jazz com música clássica.

Sua homenagem à música brasileira não se limitou à execução de uma peça de Heitor Villa-Lobos. Sánchez também tocou Eu sei que Vou te Amar, de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes, e Pra Dizer Adeus, de Edu Lobo e Torquato Neto, música que também faz parte de seu disco Travesía, lançado em 2001.

Relembrando Coltrane
Branford Marsalis nunca negou que o saxofonista tenor John Coltrane foi seu maior exemplo. Seguindo os mandamentos de seu mestre, Branford abusa do jazz modal, improvisando sobre escalas e não somente sobre os acordes da música.

Ao lado do pianista Joey Calderazzo, do baixista Eric Revis e do baterista Jeff "Tain" Watts, Branford incendiou o público com suas versões para Jack Baker, Vodville e Sonny Moon For Two, dobrando os tempos e arremessando uma coleção de semínimas em alta velocidade.

Em The Ruby and the Pearl e Reika´s Loss, músicas que estão em seu disco Eternal, de 2004, Branford tocou sax soprano. Para o bis, novamente com o sax tenor nas mãos, deixou reservada sua composição de 2000 In The Crease.

O público pediu mais, mas Branford, esbaforido, deixou o palco sem fôlego para retornar depois de mais de uma hora de show. Sua apresentação pode não ter sido tão cerebral quanto à exposição do pianista Brad Mehldau, mas serviu muito bem para chacoalhar o público do Tim Club.

Neste domingo, última noite do Tim Festival, sobem ao palco do Tim Club Dave Holland Big Band, Biréli Lagrène Gipsy Project e Art Van Damme Quintet.
 

Reuters

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