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Tim Festival 2004
Sábado, 6 de novembro de 2004, 13h44 
Pianista Mehldau desestrutura Radiohead
 
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Não foi exatamente como todos imaginavam. Logo depois da cativante apresentação do trio do pianista Brad Mehldau, na noite de sexta-feira, em São Paulo, no palco Tim Club - espaço reservado para os jazzistas do Tim Festival -, a cantora Nancy Wilson entrou em cena para encerrar a noite e desapontou boa parte do público.

O norte-americano Brad Mehldau tinha acabado de executar um show extremamente intimista, hipnotizando a platéia com seus arranjos desestruturados de standards da música popular norte-americana e do rock de grupos como Radiohead e Beatles, quando Nancy Wilson subiu ao palco sem muita disposição, acompanhada por instrumentistas pouco inspirados.

A apresentação de Wilson, que durou quase duas horas, ficou devendo até mesmo para o mini-espetáculo do violonista brasileiro Chico Pinheiro, que abriu a noite como convidado especial em um resumido e bem realizado show de apenas 50 minutos e sete músicas.

Desconstruindo Radiohead
Mehldau, o baixista Larry Grenadier e o baterista Jorge Rossy conquistaram o público com dois clássicos em sequência: You Do Something to Me, composta por Cole Porter no final dos anos 1920, e Alfie, balada de Burt Bacharach, outro compositor norte-americano profícuo durante os anos 1960 e 1970 e um dos símbolos de modernidade para os arranjadores da nova geração.

O pianista abraçou definitivamente a platéia com Everything its Right Place, canção depressiva do grupo inglês Radiohead, dotada de uma melodia simples, mas harmonicamente fértil para Mehldau transfigurá-la em pequenos concertos, um mais belo que o outro.

Durante o bis, o trio arriscou com She´s Leaving Home, um dos hinos do álbum Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band, de 1967, composto por John Lennon e Paul McCartney. Foi o suficiente para o público deixar as cadeiras e aplaudir de pé com muito entusiasmo um tímido Mehldau, que conseguia apenas sussurrar o "obrigado."

Entre o pop e o jazz
Nancy Wilson, 67 anos, entrou em cena sem muita inspiração. Logo no início, enquanto cantava o clássico My Foolish Heart, composta na década de 1930 por Ned Washington e Victor Young, interrompeu o espetáculo para exigir uma equalização mais pertinente entre o piano e a bateria.

Ela tentou agradar novamente, desta vez com Never Will I Marry, música de Frank Loesser, uma boa recordação dos tempos que cantava para o saxofonista Cannonball Adderley, durante o início dos anos 1960.

Logo depois, Wilson apelou para o vocabulário pop descartável, apoiado sobre um teclado e um contrabaixo eletrônico, entediando o público. Várias pessoas começaram a deixar a tenda do Tim Club.

No final, sob os olhares de pouco mais de 100 pessoas, a cantora sentiu-se mais confortável para recuperar o caminho do jazz que a transformou em "diva" durante os anos 1950 e 1960, encerrando o show à 1h50 de domingo após cinco bis.

Jazz, erudito e bossa nova
O artista convidado para abrir a noite do palco Tim Club foi o violonista Chico Pinheiro, 29 anos, um dos maiores responsáveis pelo sucesso fulminante da cantora Maria Rita, filha de Elis Regina.

Seu show foi a maior surpresa da noite. Quem esperava por uma apresentação mais contida, presa às regras da MPB, animou-se com a versatilidade do grupo do violonista, composto pelo saxofonista e flautista Teco Cardoso, o baterista Edu Ribeiro, o baixista Marcelo Mariano e o pianista André Mehmari.

Alguns números apresentados por Pinheiro, como Tema em Cinco, Samba Malandro e Tema em Três, escapam das armadilhas mais comuns da música brasileira e recriam a fusão inteligente e dinâmica entre o jazz, o erudito e a bossa nova, raramente explorada pelos instrumentistas da nova geração. A cantora Luciana Alves, convidada especial do violonista, participou em duas canções - Burilizais e Mandarim.

O Tim Club recebe neste sábado o saxofonista porto-riquenho David Sánchez, o grupo de quatro arranjadores-violonistas cariocas Maogani e o saxofonista norte-americano Branford Marsalis.
 

Reuters

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