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"Renovadíssima", Pitty mostra confiança para viver nova fase

Em entrevista ao Terra, cantora fala sobre "exorcismo" de problemas pessoais com ‘Setevidas’ e retorno ao rock de garagem

3 jun 2014
11h23
atualizado às 12h02
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Passaram-se 11 anos desde que Priscilla Novaes Leone, aos 26 anos, apareceu desenrolando um rolo de lã em um clipe na Avenida Paulista. Ali, com Teto de Vidro, surgia uma banda/cantora que parecia deslocada de seu tempo. Com uma dúzia de pensamentos filosóficos e um nome de guerra, Pitty chegou trazendo para os anos 2000 o som mais simplificado, franco e "pé sujo" que popularizou Raimundos, Angra e companhia na década passada.

A cantora Pitty
A cantora Pitty
Foto: Divulgação

Sua vontade de ser diferente era notada desde a maneira de segurar o microfone até a missão de não ser vista como musa. Queria ser notada por sua voz e, mais ainda, por suas letras, não tão somente por suas curvas. Genuinamente baiana, carregava o espírito underground do Cascadura com a complexidade literária de Chico Science.

Hoje, casada, mais tatuada, experiente, experimental e, como ela mesma diz, “renovadíssima”, Pitty volta ao rock tradicional e “lava a alma” com Setevidas, primeiro álbum inédito de rock genuíno desde Chiaroscuro, lançado em 2009.

O disco, um retrato bastante fiel da cantora e de seu charme existencialista, mostra uma Pitty que se garante mais, com mais brilho, sensualidade e poder. “Me sinto (mais poderosa), sim. E acho que a ideia é essa, né?”, diz ela.

Da esquerda para direita: Martin, Guilherme Almeida, Pitty e Duda Machado
Da esquerda para direita: Martin, Guilherme Almeida, Pitty e Duda Machado
Foto: Daryan Dornelles / Divulgação

Neste meio tempo, diversos problemas, na maioria pessoais, abalaram a roqueira. Joe Gomes, baixista e companheiro desde o começo da banda, deixou o grupo de maneira pouco amistosa. Como se não bastasse, Pitty perdeu Peu, grande amigo dos tempos de Bahia e guitarrista dela em Admirável Chip Novo, que morreu ano passado em uma situação, até hoje, difícil de entender. Teve, ainda, a morte de Lou Reed, um de seus maiores ídolos e gigante inspiração, no mesmo ano. Quase que ao mesmo tempo, Pitty perdia duas grandes referências, pessoais e profissionais, e se aproximava de uma posição emocional um tanto quanto perigosa.

Mas Pitty tem sete vidas. Venceu as inúmeras dificuldades de conseguir ser “alguém” na vida fazendo rock and roll nos anos 2000, superou um aborto e todas as crises que vieram depois. Fez folk-rock psicodélico com o Agridoce e até rap com Emicida. Gastou grande parte de suas vidas. Para ser exato, quatro delas. Ainda faltam três, o bastante para que Pitty sinta a confiança necessária para barbarizar o rock nacional com o que pode ser considerado um dos melhores álbuns de sua carreira. 

Confira a entrevista completa

Terra - Em primeiro lugar, qual a sensação de estar voltando ao rock and roll e a fazer música com sua banda depois de passar um tempo em outros projetos? Se sente renovada, diferente do que era antes?
Pitty - Renovadíssima. A sensação é maravilhosa, de voltar pra uma coisa que se ama, porém com mais bagagem, depois de ter experimentado e aprendido. 

Terra - Sobre Setevidas, o nome do disco (e da canção) é uma provocação a quem achava que você não voltaria mais? Se sim, teve um gosto especial "calar" as pessoas que diziam que você havia "abandonado" o rock?
Pitty - Na verdade não. É sobre uma experiência pessoal de superar problemas de saúde, de perceber como isso é importante e de dar mais valor a tudo ao redor e às coisas simples. O "agora que eu voltei" é pra vida mesmo, não necessariamente para o rock porque dele nunca saí de fato. 

Terra - Sobre Lado de Lá, foi feita para o Peu, certo? Como foi escrever uma canção sobre um assunto tão delicado? Você chegou a se emocionar enquanto escrevia a letra ou gravava os vocais/melodia?
Pitty - Foi muito por causa dele, mas não tão somente. Teve Lou Reed logo depois que me fez continuar pensando nesse tema e as duas coisas se somaram na vontade de expressar esse sentimento. Essa música mexe comigo demais, me emocionei escrevendo, gravando, ouvindo depois de pronta... Se um dia for tocá-la ao vivo, vou ter que descobrir um jeito de manter o controle para conseguir cantar direito.

Terra - No final da música, você faz uma sequência de gritos que soam de maneira bastante angustiante, seria uma espécie de "desabafo" para a morte do amigo por ela ter chegado tão cedo e repentinamente? 
Pitty - Acho que de certa forma, sim. Não pensei nisso quando estava fazendo, foi algo instintivo... mas agora que você falou acho que pode ser interpretado dessa forma sim.

Terra - Ao ouvir o disco, senti que ele possui um clima um pouco mais carregado que seus outros trabalhos. O álbum serviu como uma espécie de "terapia" por conta dos problemas que a banda enfrentou, como a morte de Peu e a saída de Joe, nos últimos tempos?
Pitty - A arte ocupa muito esse papel na minha vida, de exorcismo, de botar pra fora, é terapêutico de muitas maneiras. É a válvula de escape, e eu entendo quando as pessoas sentem esse clima pesado no disco porque realmente não foi um período fácil e isso transparece nas canções. É reflexo desse período esquisito, porém extremamente rico em termos de aprendizado.

Terra - Sobre esse caso, a canção Olho Calmo parece ser uma espécie de relato sobre os sentimentos que envolvem uma briga. Seria essa música um recado ou desabafo seu sobre todo o problema envolvendo a saída de Joe da banda?
Pitty - Não. Olho Calmo é sobre quando a gente vai ficando mais velho e aprendendo a hora de gritar e de calar, é a história de "combater o bom combate". E me veio essa imagem, do cão sábio que já se garante tanto que não perde tempo ladrando, quando ele age vai direto à mordida. E virou expressão por aqui, rs. Particularmente fico muito mais intrigada por gente de "olho calmo", observadora, do que por aqueles que falam e se gastam sem parar.

Terra - Em relação à nova formação, como tem sido o processo de adaptação de Guilherme Almeida ao grupo e o que ele tem acrescentado, além de qualidade sonora, ao dia-a-dia de vocês?
Pitty - Foi tudo super tranquilo. Na primeira semana que ensaiamos juntos já fizemos todas as demos do disco e muitas outras sobras. É muito rápido e fácil de trabalhar com ele. Ele saca muito de música, harmonia, melodia, e sempre tem sugestões bacanas.

Terra - Existe uma clara evolução no som da banda desde Admirável Chip Novo. Em A Massa, por exemplo, é possível enxergar certa influência de Rita Lee nos vocais e melodia. Assim como existem canções que carregam levemente algumas características sonoras do Agridoce. Você se sente melhor, mais poderosa como musicista hoje do que 11 anos atrás?
Pitty - Me sinto, sim. E acho que a ideia é essa, né? A gente, ao longo da vida, ir sentindo que está caminhando, dando passos adiante. Cada disco que faço busco que seja melhor que o anterior. Óbvio que ainda tenho muito que aprender e sempre terei (teremos), porque a vida é isso: não tem fim essa busca. Mas numa fase bem feliz em relação a isso.

Terra - Quais são os planos para a turnê de divulgação de Setevidas? Considerando que Anacrônico e Chiaroscuro renderam DVDs, dá para esperar o mesmo desse novo trabalho?
Pitty - Ainda não sei, uma coisa de cada vez. Sempre vou fazendo as coisas na medida em que elas acontecem. Meu plano agora é trabalhar esse disco e focar nessa turnê, levar esse show pra estrada.

Terra - Mais uma vez, a produção do disco ficou por conta de Rafael Ramos. Qual a importância de ter um relacionamento tão próximo e tão longo com a pessoa que irá direcionar toda a sonoridade do seu trabalho?
Pitty - Gosto muito de trabalhar com Rafa, a identificação é total. Gostamos dos mesmos sons e temos as mesmas referências, aí fica fácil e prazeroso. E o tempo vai passando, a amizade vai crescendo, e as ideias continuam caminhando juntas e apontando pra mesma direção. Acho que é isso que importa.

Terra - O documentário que traz os bastidores de Anacrônico mostra que o ambiente de gravação era bastante simples e as gravações corriam de maneira bem despojada. O mesmo pode ser notado em Chiaroscuro. Em Setevidas, a sonoridade de "rock garagem" é um dos charmes do disco e dá a impressão de também ter sido feito nesse esquema menos glamoroso. O quanto o ambiente de gravação influencia no resultado final?
Pitty - Fui descobrindo isso ao longo do tempo. Sinto que influencia bastante. A gente curte gravar assim, no nosso estúdio, sem horário pré-determinado, sem burocracia, sem cronograma muito rígido. É legal porque fomenta um clima caseiro e propicia a criatividade.

Terra - Finalizando, você finalmente pôde descansar no último ano, depois de mais de uma década de atividades diretas. Considerando que você já é uma cantora bastante experiente, dá para dizer que a banda chegou naquela fase em que precisa de um tempo maior para descansar e se preparar mais para novos projetos?
Pitty - Não sei como vai ser daqui pra frente, só sei que até agora foi assim. E percebo que esse tempo foi muito bom e importante pra mim, o saldo foi totalmente positivo. Mas acho que tem que ir sentindo as necessidades, a demanda tem que ser sempre interna. A gente sente quando é hora de gravar um disco. 

Fonte: Terra

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