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"Procuro estilos diferentes. Ficar em uma coisa só enjoa", diz Mau Mau

19 dez 2012
07h10
atualizado em 20/12/2012 às 11h15
Felipe Tringoni

Por telefone, pergunto para Mau Mau como ele tem passado as últimas semanas. "E aí, tudo tranquilo?", ao que ele prontamente responde: "tranquilo nada, correria como sempre", e ri, satisfeito. A rotina não lhe dá folgas, e em meio a viagens, produções e gigs, o paulistano Mauricio Bischain recebeu a equipe do Terra para mostrar um pouco de sua vida.

O Vida de DJ esteve com Mau Mau em um sábado de set em São Paulo, na festa Spirit Fantasy. Após a noite, ele contou que "foi melhor do que eu imaginava. É um tipo de evento em que eu não estou acostumado a tocar, bem popular. Tinha expectativa em saber o que ia acontecer. Mas deu tudo certo".

Depois tantos anos de carreira musical, parece difícil surpreender Mau Mau. Pioneiro, começou despretensiosamente como DJ no clube alternativo Madame Satã, em São Paulo, no final de 1986. Tudo porque era conhecido como "o cara que tinha os discos". "Fiquei amigo dos DJs da casa, o Magal e o Marquinhos MS, e eles me apresentaram lojas de discos que tinham as principais novidades do repertório do Madame". Desde aquela época, ele conta que sempre teve "curiosidade por músicas diferentes", o que mostrava quando inseria o hip hop de Beastie Boys e Run DMC ou as então nascentes house e acid house em suas discotecagens - e nem sempre era bem recebido pelo público roqueiro da casa.

"Para mim o verdadeiro DJ continua sendo aquele que traz algo novo, que educa, que faz a pesquisa e mostra algo diferente. Isso era muito mais presente no passado. Hoje em dia a maioria dos DJs fazem um set com coisas que as pessoas conhecem, são poucos os que mostram um estilo próprio. É muito mais difícil você tocar coisas diferentes e conseguir fazer as pessoas dançarem do que montar um repertório com hits. Mas tudo bem, acho que tem gosto e espaço pra tudo", reflete.

Como um dos DJs brasileiros de mais renome no exterior, Mau Mau já viajou o mundo tocando, mas tem carinho particular pelo começo de sua carreira internacional. "Quando cheguei a Londres, em 1994, e encontrei com meu amigo Camilo Rocha (jornalista e também DJ), ele me disse: 'você tem que ir ao Final Frontier'. De cara, na minha primeira noite, vi Dave Angel, CJ Bolland, Miss DJax e um show do Hardfloor. Foi uma coisa surreal!", lembra. Um ano depois veio sua primeira gig em terras estrangeiras, na França, a convite de Laurent Garnier. "Era o festival Trans Musicales, e eu fui recebido como se já fizesse parte dos top DJs da Europa. Fiquei muito emocionado, chorei, foi uma comoção generalizada (risos). Depois desse evento várias portas se abriram".

De volta ao Brasil, Mau começou a segmentar seu estilo no after hours do paulistano Hells Club. "Até então, quase todos os DJs misturavam muitos estilos de música. E o Hells foi o primeiro lugar especificamente de música eletrônica em que toquei". Nessa época, ele lembra que era chamado de "DJ de techno". "Sofri um pouco com isso de ser rotulado. Na verdade meu negócio é a música. Eu sempre procuro diversificar meus estudos, ouvir estilos diferentes. Ficar em uma coisa só enjoa", conta o DJ, que já tocou em trio elétrico com Daniela Mercury, participou de uma remontagem da ópera O Guarani e mostrou influências da música brasileira em seu projeto M4J.

Ao som do duo escocês Boards of Canada, enquanto o DJ colocava em seu case a seleção de discos para o set na Spirit Fantasy daquele sábado, perguntei se tocar com vinil era a sua preferência. "Acho que tanto faz. Cada um tem que se adaptar ao que gosta e conhecer bem o que usa. Não sou radical de dizer que tal coisa é melhor que outra, acho que todas dão ferramentas para você construir um set bacana", opina. "Tocar com vinil é difícil porque tem que carregar peso, e ter uma seleção atualizada sai caro. O digital, além de ser mais barato, é prático". E complementa: "a única coisa que eu sou contra é gente preguiçosa, que leva set pronto e não faz nada. Mesmo com programas e aplicativos, você pode desenvolver um trabalho bacana e ser criativo".

Apesar da longa carreira fora do Brasil, Mau Mau agora dá preferência a mais tempo no país. "Diminuí bastante minhas viagens internacionais. Hoje em dia marco só duas por ano, uma em cada semestre, faço alguns clubes e volto". Além disso, ele enxerga a consolidação da cena eletrônica nacional como preponderante na quantidade de gigs que tem feito no exterior. "Acho que o Brasil não fica para trás em relação a qualquer lugar do mundo. Por ser um país que adotou mais recentemente o universo da música eletrônica, ainda tem aquele frescor da novidade que, junto da empolgação natural dos brasileiros, deixa bacana qualquer pista".

Ainda que com menos viagens e sets no estrangeiro, o ritmo de Mau Mau não diminui, com residências nos principais clubes paulistanos - D-Edge, Clash, Lab, Lions - e diversos trabalhos na produção. Um deles, um remix da faixa É Proibido Fumar, do Roberto Carlos, foi finalizado no dia das gravações do Vida de DJ, junto do amigo e antigo parceiro no M4J Franco Júnior. "Acabamos de terminar", contou Mau Mau, ouvindo o resultado final junto de Júnior. Seu próximo lançamento será um EP em conjunto com a DJ Paula Chalup, a ser lançado pelo selo High Definition. Além disso, ele ainda trabalha em músicas para um novo álbum solo, que vai suceder Art, Plugs and Soul, de 2007. "Muita gente acha que DJ é uma profissão glamourosa, que é só festa, mas tem que ter muita dedicação". E ele sabe disso como poucos.

Fonte: Terra

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