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"Toco em todos os shows como se fosse o último", diz baixista do Blur

Entre vida de rockstar e produtor de queijo, Alex James conversou com o Terra sobre show do Blur em novembro no Planeta Terra Festival

15 out 2013
11h25
atualizado às 11h25
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O telefone toca cinco vezes. Do outro lado da linha, um sonoro “olá” em português enrolado. Quem atende é Alex James. Longe das mansões que surgem no nosso imaginário ao pensar em um rockstar britânico, o baixista fala de sua fazenda em Kingham, Oxfordshire, uma cidadezinha a 130 km de Londres. Antes mesmo da reportagem se apresentar propriamente, a felicidade do prolixo músico do Blur, principal atração do Planeta Terra Festival 2013, a interrompe com o boletim do tempo: “Tudo ótimo. Bem, é sexta-feira. Está chovendo um pouco aqui no interior inglês, é verdade. Mas está tudo muito bem”.

<p>Damon Albarn e Alex James durante show do Blur em Glastonbury, em 2009</p>
Damon Albarn e Alex James durante show do Blur em Glastonbury, em 2009
Foto: Getty Images

Ao lado de Damon Albarn, Graham Coxon e Dave Rowntree, Alex James montou uma das bandas de maior sucesso do Reino Unido na década de 90. O hiato do quarteto durante o meio dos anos 2000 só fez aumentar a busca por ingressos para ver a reunião que estaria por vir em 2008 e que se apresenta no Brasil no dia 9 de novembro, no Campo de Marte, em São Paulo: “eu acho que o Blur precisava de um tempo separado”. Liderando um novo fôlego noventista do britpop - ao lado do Oasis -, o grupo londrino emplacou seguidos sucessos como Song 2, Girls & Boys, Coffee & TV  e Tender.

Esta não é a primeira passagem do quarteto no País. Em 1999, o Blur aterrissou por aqui para um show no Rio e outro em São Paulo, que ficaram um pouco aquém do esperado. Se por um lado as apresentações não foram memoráveis, James conta em sua autobiografia – Bit of a Blur – que sua festa de aniversário na capital paulista foi inesquecível com “cinco groupies, muito champagne e cocaína”. “Lembro de uma grande, grande festa. Foi uma boa noite”, contou.

Alex James posa com queijo em sua fazenda, uma produtora artesanal
Alex James posa com queijo em sua fazenda, uma produtora artesanal
Foto: Facebook / Reprodução

Música e...queijo
Na faixa Country House, primeiro single lançado do álbum The Great Escape (1995), Damon canta no refrão: “Ele mora em uma casa/Uma casa bem grande/No interior”.  Impossível dizer se a música teve algum efeito em Alex, mas de certa forma a vida no interior virou sua realidade. Em 2003, enquanto Blur desintegrava de vez, James comprou uma fazenda de 80 hectares em Kingham, Oxfordshire. Lá, renovou o terreno, instalou equipamentos e fundou a “Alex James Presents”, uma elogiada linha de queijos artesanais. "Sabe os monges? Que ficam nos mosteiros? Eles meditam com sua música durante a manhã e fazem seu queijo durante a tarde. Os monges fazem os dois também. Eu creio que possa ficar tão perto de Deus ou sei lá, ficar em um nível tão espiritual fazendo minha música ou comida".

Confira a entrevista completa:

Terra - Alô?
Alex James - Olá!

Terra - Olá, por favor, gostaria de falar com Alex James. É do Brasil, para uma entrevista.
Alex James - Não.

Terra - Não?
Alex James -

 Brincadeira. É o Alex aqui. Tudo bem?

Terra - Olá. Está tudo bem, e aí?
Alex James - Tudo ótimo. Bem, é sexta-feira. Está chovendo um pouco aqui no interior inglês, é verdade. Mas está tudo muito bem.

Terra - Como reclamar da chuva? Você mora na Inglaterra.
Alex James -
 (risos) Aqui na fazenda temos um verão bem seco até. Não chove tanto nessa época.

Terra - Está ansioso para vir ao Brasil?
Alex James – C***. Estou muito empolgado para voltar ao Brasil. Eu não acredito que demoramos 14 anos para voltar. Nos divertimos tanto da última vez. Eu acho que o Blur precisava de um tempo separado. Isso nos deu um ritmo novo. Estamos curtindo a banda como nunca antes. Parece muito o nosso começo. Amamos a banda e é isso. Tudo isso foi engatilhado quando nos pediram para fazer o show de encerramento da Olimpíada em Londres. Estivemos muito perto de nos separar de novo, mas sentimos que foi uma honra tão grande que aceitamos. Definitivamente. Isso nos fez movimentar tudo. Não podíamos só tocar músicas velhas, escrevemos algumas novas. Voltamos para o estúdio e acabamos remasterizando toda nossa discografia. Foi um ano muito bom de 2012. Foi uma grande noite e um grande show em Londres. Foi uma atmosfera incrível. Ficamos pensando: “O que aconteceu? Isso é ótimo”. Nós só podíamos agradecer a todos por serem tão pacientes.

Terra - Como foi para a banda se reencontrar e tocar junto? Foi um novo começo?
Alex James -
 Uma coisa interessante aconteceu no ano passado enquanto preparávamos nossa caixa com todos os álbuns remasterizados. Nós mexemos em absolutamente todos os nossos arquivos, literalmente mexendo em caixas no porão. Uma das coisas que apareceu foi uma fita cassete que o Graham (Coxon) tinha. Era a gravação do nosso primeiro ensaio de dezembro de 1988. Ninguém a tinha ouvido desde então. Ele a levou para casa. Nós fizemos nosso primeiro single She’s So High durante esse ensaio. Nessa fita você consegue ouvir a canção nascendo. É uma jam de 10 ou 15 minutos até a música nascer. O que acontece com a música é o seguinte: não poderia ser nenhuma outra banda, é o Blur. No momento em que nós quatro entramos no quarto, é o Blur. Nada mudou. Nunca mudou. É o Graham na guitarra, eu no baixo, Dave (Rowntree) na bateria e o Damon (Albarn) sendo Damon. É assim que funciona e ainda funciona. Para todas as bandas, ainda são quatro caras juntos. Musicalmente, nós evoluímos, aprendemos e tocamos com outras pessoas. Damon fez outros grupos, Grahan fez álbuns solo e todos nós mudamos, mas temos uma química juntos. É algo especial e de muito sorte para nós termos nos encontrado.

Dave Rowntree, Damon Albarn, Graham Coxon e Alex James em 1991
Dave Rowntree, Damon Albarn, Graham Coxon e Alex James em 1991
Foto: Getty Images

Terra - Vocês fizeram dois shows no Brasil em 1999. O que lembra deles?
Alex James - Lembro de uma grande, grande festa de aniversário...(pausa). Sim, foi uma boa noite. Lembro do queijo que nos serviram na praia que era derretido como se fosse em um churrasco. Preciso dar um jeito de encontrar isso novamente. As frutas. E o café? Meu Deus, o café. Que coisa maravilhosa. Eu estou muito ansioso para voltar. Ouvi muito falar sobre o Jardim Botânico também, quero visitar.

Terra - Já que você falou sobre queijo, conte um pouco sobre esse outro lado da sua vida.
Alex James - 
As pessoas acham que é estranho. Sabe os monges? Que ficam nos mosteiros? Eles meditam com sua música durante a manhã e fazem seu queijo durante a tarde. Os monges fazem os dois também. Eu creio que possa ficar tão perto de Deus ou sei lá, ficar em um nível tão espiritual fazendo minha música ou comida. Sempre amei queijo. As pessoas jogam queijo em mim no palco! Os fãs de George Harrison jogavam jujubas quando ele tocava. Eu amo isso tudo. Enquanto o Blur caminhava em outra direção e depois do lançamento de Think Tank (2003), eu conheci uma garota (Claire Nates) e me apaixonei completamente. Nós nos casamos eu comprei a fazenda durante minha lua-de-mel. Achei uma coisa romântica a se fazer. Me dei conta de que muitos músicos moram em fazendas. É o habitat natural dos “cavalheiros da música”. Como amo queijo, comecei a fazer e fiquei tão fascinado com o processo que não pensei muito sobre isso. Amo a fazenda. Precisava fazer outras coisas longe da música, mas nunca pensei como isso se misturaria com minha carreira com a banda. Claro que ficava triste ao pensar que talvez o Blur não voltasse. Eu realmente pensei isso. Somente quando tocamos novamente junto que pensei o quão brilhante que era a banda. Eu amo muito mais o momento de hoje do que qualquer outro. Estávamos na escola ainda quando assinamos o nosso primeiro contrato. Começamos a fazer shows para 30 pessoas, depois 300 pessoas, 3 mil e um dia para 300 mil pessoas. Nunca chegou em um ponto onde as coisas estavam estranhas. Você passa dez anos em uma fazenda produzindo queijo e de repente está no México tocando para 70 mil pessoas. Puta merda! Isso é brilhante. Sinto que tudo está maravilhoso. Nunca sei quais serão nossos últimos shows. Toco em todos os shows como se fosse o último.

Terra - Durante a passagem pelo Brasil, você teve contato com os queijos daqui?
Alex James -
 Com toda certeza. Hum. Quieso?

Terra - Queijo...
Alex James - 
Isso! Comemos na praia. Uma mulher vendia ele em um espeto. Derretendo.

Alex James e uma de suas paixões, o queijo
Alex James e uma de suas paixões, o queijo
Foto: Facebook / Reprodução
Terra - Queijo coalho.
Alex James - Exato! Também tinha outra variedade. Minas, queijo minas. Você não consegue achar esses queijos aqui. Não os como desde então. Quero voltar. Também conheci o Alex Atala.

Terra - Ele se tornou um chef famoso mundialmente. Onde o conheceu?
Alex James -
 Estava na Austrália, foi no ano passado. Ele é brilhante. Ele tem um restaurante em São Paulo, não é?

Terra - Sim. Chama-se D.O.M.
Alex James -
 Preciso jantar lá. Vou dar um jeito nisso.

Terra - Você deveria trazer seu queijo ao Brasil.
Alex James - Definitivamente!

Terra - E como estão os negócios?
Alex James - 
É uma época muito boa para comida na Grã-Bretanha. Durante muito tempo nossa comida foi alvo de piadas. O resto da Europa achava que nós cozinhávamos mal. Franceses falavam que nossa comida era horrível, italianos nos achavam nojentos e os espanhóis nos odiavam. Em um curto período, nos últimos dez anos, os chefs britânicos ficaram famosos mundialmente. Conhece o Jamie Oliver? Ele é famoso aí?

O baixista durante show na Finlândia, em junho deste ano
O baixista durante show na Finlândia, em junho deste ano
Foto: Getty Images
Terra - Sim. Ele tem programas na TV a cabo e vende livros, facas, etc...
Alex James -
Brilhante! Também temos o Gordon Ramsay. Esse é um dos motivos que fico tão feliz por fazer queijo. Comida é a bola da vez no Reino Unido. Temos muitos programas de TV, chefs, restaurantes. É uma época muito empolgante. Chefs britânicos são mais famosos que os rockstars. O Alex, por exemplo, é brilhante. E é um cara muito legal.

Terra - Voltando aos negócios. Enquanto comida está em alta, a indústria musical não vai muito bem.
Alex James - 
Sabe o que mudou? Por exemplo, peguemos Lady Gaga e Florence and the Machine. Lady Gaga consegue juntar mais dinheiro que a Madonna. O que não temos mais são pequenas bandas e grupos independentes. Não há mais bandas como Gaye Bykers on Acid, Half Man Half Biscuit ou Crispy Ambulance. É uma cultura da qual o Blur saiu e demoramos muito para evoluir. Foi só no terceiro álbum que começamos a ficar realmente conhecidos. As bandas de hoje não têm essa oportunidade de amadurecer. Música é uma dessas coisas. Ela não fica melhor ou pior. Ela só reflete a época em que vivemos. Creio que a literatura e a matemática sejam campos parecidos. Os egípcios eram matemáticos sofisticados, Shakespeare estava escrevendo livros incríveis. Ninguém escreve melhor hoje só porque estamos no século XXI. Acho que a música também não fica melhor ou pior. Eu amo Lady Gaga e amo Florence and the Machine, mas na minha adolescência, tive muita sorte de ver que a música e arte aconteciam com tanta frequência ao nosso redor. De um lado tínhamos Duran Duran estavam gravando clipes que custavam milhões de libras e na outra ponta bandas indie lançando trezentas cópias de um EP. Era muita coisa acontecendo. A coisa trágica, aqui no Reino Unido, é que a música sempre foi o foco da cultura. Não tinha outras coisas para se fazer. Você não podia ser um artista ou um chef. Todo mundo queria ser músico. Ou jogador de futebol. Música não é o foco mais. Isso me chateia.

Fonte: Terra
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