Lorena Calabria

Resultado/Racionais MCs


RACIONAIS NO LOLLAPALOOZA: APOSTA CERTA?

9 abr

Publicado às 18h28

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Eu fui ao Lollapalooza ontem.  Fui já sabendo que enfrentaria todos os perrengues que vem no pacote de qualquer megafestival: trânsito, fila pra comer, beber e ir ao banheiro, calor, chuva, som deficiente, blá blá blá… 

Claro que muita coisa mudou desde a minha estreia no Rock in Rio em 85. Mas os requisitos pra você ir a um megafestival continuam os mesmos:
 
  1. ser muito fã de alguma banda/artista, 
  2. farrear com amigos, não importa o que esteja tocando, 
  3. gostar de multidão, 
  4. ter 20 anos de idade, em média.
 
Sim, porque com 20 anos você não vai reclamar dos perrengues, como fazem “os mais velhos”.  Tudo é divertido porque é a primeira vez. E essa foi a média de idade que vi no Lolla, parecendo uma grande festa de universitários.
 
Cheguei ao Jockey Club de São Paulo por volta das 20h30, imbuída do espírito juvenil que ainda me resta. Escolhi um show inteiro pra ver: RACIONAIS MCS. E, se os horários fossem cumpridos, ainda pegaria uma rabeta do Arctic Monkeys em outro palco.
 

Chovia, o que ajudou a aplacar o calorão da tarde e trouxe até um vento fresco para a noite, a segunda e última do Lolla. 

Minha impressão foi a de que o festival teve mais acertos que erros, levando em conta que foi a primeira edição no Brasil.  O local, o Jockey, foi um acerto, por exemplo. Ter palcos abertos e dois deles muito próximos, um erro. 
 
Ainda rolava o show do Jane’s Addiction, pra quem não sabe banda do criador do Lollapalloza, Perry Farrell. Seria inviável começar o show dos Racionais com o som do palco vizinho naquela altura.  
 
Esse foi o motivo apontado para o atraso de uma hora (!!!) do show do Racionais –  único significativo de todo o festival. O grupo não autorizou a transmissão televisiva de sua apresentação. Com o atraso, aumentou ainda mais sua fama de marrento. Hoje, segunda, a produção esclareceu o motivo do atraso. 
 
Eu aproveitei a demora para dar uma espiada no Arctic Monkeys. Depois de 10 minutos de travessia com chuvisco, até que os molecotes ingleses cresceram no palco. Peguei uma das minhas preferidas do álbum mais recente, Suck it and See: “The Hellcat Spangled Shalalala”, roquinho ingênuo que combina com o topete rockabilly do Alex Turner. É pop, é simples e gruda. O que pode ser mais tocante do que “shalalala” no refrão? Ah, eu gosto da banda mas…
 

Olho pra trás e vejo um clarão na tenda eletrônica (?). Sim, é lá que está começando o show dos Racionais MC’s. A plateia, que chegou a vaiar o palco vazio durante a espera, agora é só amor com a turma Mano Brown. Turma mesmo, porque além de Edy Rock Ice Blue e DJ KL Jay, tinha bem mais que uma dúzia no palco. A tripulação fazia coreografias e vocais de apoio.

Som alto, potente, músicas novas como “That’s my way" (gravada em parceria com Seu Jorge, por Edy Rock), clássicos do grupo como “Negro Drama”, “Eu Sou 157”, “Um por amor, dois por dinheiro”. Plateia cantando ao berros, com a mão pro alto. Era a energia rocker com atitude hip hop. E uma das raras vezes em que fui a um show de rap e consigo ouvir com clareza as letras. 

Nem precisava, mas tiraram bom proveito dos telões com imagens gigantes de ícones como Bob Marley e Malcolm X. E Mano Brown, no pouco que falou, foi direto: política, economia, ausência paterna…
 
Essa última foi a deixa para o bis: “Homem na Estrada”, que foi minha porta de entrada para a “cultura Racionais MC’s”, em 93
 
Olhei pra trás e vi o tal “mar de gente” (clichê tão batido quanto “a plateia foi ao delírio”) formar um coro quase religioso. Na hora, pensei: tá, eu prefiro shows em lugares pequenos, mas no caso do Racionais, voltou a minha crença de que música ganha o sentido de comunhão quando você compartilha essa experiência com milhares de pessoas.  É se misturar na massa, onde “cores e valores” se aniquilam.
 
Com esse show, ficou claro que os Racionais:
 
  • continua sendo o grupo mais importante do rap nacional;
  • conquistou um público bem maior, de todas as classes, mesmo a revelia;
  • tem cacife para segurar shows em grandes festivais.
 
Ainda no bis, ia chegando um público vindo do show do Arctic Monkeys, que acabou antes. “Pô, tá no final do Racionais?”, me cutuca um retardatário. “Ah, não acredito, perdi”. 
 
Perdeu, mesmo. Depois de comer muita lama e poeira nos festivais, você aprende: quem quer ver tudo, acaba não vendo nada.
 

perfil do autor

Lorena Calabria

Jornalista cultural desde os anos 80, Lorena Calabria foi editora na Revista Bizz e comandou os programas de TV Clip Clip, Metrópolis e Ensaio Geral. Apresenta o Terra Live Music, toda quinta, às 16h.




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