Mesmo quem não é fã de series de TV já deve ter ouvido falar: volta e meia, uma música vira hit depois de aparecer numa cena pontual de algum episódio.
O que acaba dando visibilidade imediata a novas bandas. Ou não tão novas, mas em novo contexto ganham uma segunda chance.
Foi o que rolou com “Chasing Cars”, do Snow Patrol, que levou todo mundo às lágrimas no capítulo final da segunda temporada de Grey’s Anatomy e rendeu ao disco Eyes Open (o quarto da banda) 1 milhão de cópias vendidas nos EUA.
Ou com o Beirut, que dos iPods e blogs foi parar na abertura da série global Capitu. Escolha inusitada do diretor Luiz Fernando Carvalho, “Elephant Gun” caiu como uma luva na trama de Machado de Assis. Tanto que a banda veio rapidinho tocar no Brasil.
Tudo é uma questão da música certa, na hora certa.
Agora, pensa: o que pode acontecer com uma canção pop francesa dos anos 60 dentro de um seriado de época?
Vai virar hit instantâneo nas redes sociais? Extrapolar a web e ser lançada em single? E ainda, amplamente comentada em sites e jornais? E parar até no programa do Jimmy Fallon, numa vinheta improvisada pela banda The Roots!!!
Por mais improvável que seja, foi o que rolou com depois de num dos episódios da 5ª temporada de Mad Men – exibido em março nos EUA, em abril no Brasil e que eu, como minha pouca pressa, só vi agora.

O motivo de tanto alvoroço: “ZOU BISOU BISOU” – uma tola canção francesa, com mais de 50 anos, daquelas que grudam por dias e você se pega cantando. Mal traduzindo, o titulo seria algo como “Ooo, beijinho, beijinho”.
Na tal cena de Mad Men, a personagem Megan canta “Zou Bisou Bisou” como presente para o marido, Don Draper, na festinha surpresa que ela própria organizou. Um constrangimento geral se instaura. E é onde reside a graça da situação.
A atriz Jessica Pare gravou a música e dublou a si mesma na cena. A interpretação de Pare contribuiu muito para a cena funcionar. Ela fez a linha sexy sem perder a classe.
Mas o grande mérito, afinal, é a escolha da musica: acerto dos produtores da série. Souberam captar o espírito da época, com a sociedade americana seduzida pelo charme francês, explorando o potencial de uma canção pop.
“Zou Bisou Bisou” é tão ingênua quanto maliciosa - como só os franceses são mestres em fazer. O que pode haver de sensual numa letra que fala de bitoquinhas doces? Humm, depende de como ela é cantada.
Curioso é que “Zou Bisou Bisou”, antes de ganhar essa versão em Mad Men, já teve varias gravações, entre elas, uma em inglês (!?!) da atriz italiana Sophia Loren, e a de outra atriz/cantora chamada Gillian Hills. Quem? Pois é.

Gillian Hills, em 1962, no clipe de "Zou bisou bisou"
Foi por causa da (quase) desconhecida Gillian Hills que eu cheguei a “Zou Bisou Bisou”. Eu a vi em Beat Girl, filme B dos anos 60 com trilha de John Barry. Adivinha quem faz a garota rebelde que se diverte a valer com a turma de amigos beatniks?
E se você assistiu a Blow Up, do Antonioni, procure se lembrar da garota que está ao lado de Jane Birkin na “brincadeira a três” com o fotógrafo. É ela, Gillian Hill.
Além de atriz, também era cantora e chegou a gravar com Serge Gainsbourg. Mas foi outro francês que descobriu a moça, quando ela tinha 14 anos. O cineasta Roger Vadim, ex de Brigitte Bardot. Ele viu em Gillian uma “nova Bardot” e resolveu lançá-la como atriz.
E nada mais digno de nota na carreira de Hill, exceto a interpretação de “Zou Bisou Bisou”. Simplesmente porque ela deu à canção o que ela merecia: safadeza & inocência. Detalhe: tinha 16 anos quando gravou a música.
Duvido que os produtores de Mad Men ignorassem todo o passado da canção e da própria Hill quando escolheram “Zou Bisou Bisou” para entrar no seriado. A julgar pelo apuro da série, nada ali é por acaso.