Lorena Calabria

Resultado/batidas tropicais


DJ PATRICK TOR4 e os sons da periferia, agora em missão olímpica

24 jul

Publicado às 12h06

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O kuduro você já conhece, né? Veio de Angola, passou pela Bahia e chegou a novela. O tecnobrega sempre esteve aqui perto, no Pará, mas também precisou da televisão para sair de casa
 
Os dois vieram da periferia, assim como outros tantos ritmos, espalhados pelo mundo. Nem todos terão a mesma oportunidade. Ou o potencial para serem absorvidos pela massa. 
 
Sons que vão de um gueto para outro. Mas não passaram desapercebidos por PATRICK TOR4, DJ, radialista, produtor, ex-percussionista da banda sergipana Naurêa.
 

 
Brasileiro, nascido no interior Bahia, morou em várias cidades do norte e nordeste. “Adorava ouvir as batucadas desde zabumbeiro de forró, dos frevos, maracatus até os bumbos das bandas marciais dos desfiles de sete de setembro”.
 
E acabou se especializando em batidas tropicais “reconectadas a seus equivalentes pelo mundo”. Do baião nordestino aos balkan beats do leste europeu, do tecnobrega paraense à latina cumbia digital, da guitarrada amazônica ao zouk caribenho e por aí vai.
 
Para mim, o Patrick é mais que um DJ. É uma espécie de consultor para sons da periferia
Ele não só conhece o que está rolando no quintal do vizinho distante. Ele sabe de onde veio, qual passado musical daquele ritmo, contextualiza e sugere o futuro.  
 
Conversei com Patrick antes de sua próxima turnê europeia, que inclui Madri e Bratislava e começa em Londres. A convite do Comitê Olímpico da Rio 2016 vai se apresentar Casa Brasil, nos dias 4 e 6 de agosto. 
 
Quando começou seu interesse por ritmos populares das periferias?
 
PATRICK TOR4 – Por volta de 98/99 eu havia me especializado em drum'n’bass. Soava como o resultado eletrônico das batucadas afrobrasileiras que sempre mexeram comigo. O auge do estilo no Brasil foi o flerte com a bossa nova, acabando com as características mais interessantes da tendência. Fui procurar um outro caminho estético com o mesmo vigor artístico, algo que tivesse a minha cara. Anos depois, uma ex-namorada me mostrou algo que realmente mexeu comigo: um disco de remixes de música cigana, a coletânea Electric Gypsyland, do selo belga Crammed. Nele tinha DJ Dolores, Shantel, Mahala Rai Banda, Gaetano Fabri e Arto Lindsay. Esse disco coroou a abertura de ouvidos que eu vinha vivendo com o contato com Manu Dibango, Fela Kuti e outras batidas interessantes com sotaques locais e com a força dançante cheia de suingue e percussão, que parecia compor o tecido musical brasileiro que até então não tinha ficado claro pra mim. Temos uma tradição acústica muito forte. O Brasil começou a ter sua música eletrônica com o funk carioca e o tecnobrega. Ou seja é destes lugares onde surge sem compromisso o novo a partir do que se tem de mais profundo e arraigado. Depois segue pra influenciar o pop mundial, a minha intenção é pegar o peixe no salto antes dele cair na água outra vez.
 

 

Você rodou muito o norte e nordeste brasileiros e as sonoridades destes lugares aparecem no teu trabalho. Mas e o restante do Brasil? Te 
interessa, por exemplo, a chamada "tchê music"?
 
Honestamente conheço pouco do que forma a musicalidade do sul. Pesquiso a música popular urbana do norte e nordeste pra entender como se aglomeram as informações da cultura pop tecendo as nossas novas tradições populares. Nem tudo é legal, nem tudo é bonito ou precisa ser visto com olhares mais gentis. Mas seguramente são esboços criativos e que podem ser melhor harmonizados. Entendo a tchê music, por exemplo, como uma legítima expressão popular urbana do sul, mas ela ainda não me interessa como elemento de pesquisa. 
 
Dá pra agrupar esses ritmos, mesmo sendo tão diferentes?
 
Dá sim, um pouco pela origem. Os que nascem em metrópoles europeias e americanas, batizado de ghetto tech, onde se encaixam o miami bass e o moonbahton. E tem outro grupo, tropical bass, que abriga ritmos influenciados por batidas afro-latinas, como cumbia digital, raggaton, kuduro. Mas o mundo também pode ser remontado de outra forma: a periferia do terceiro mundo. E a periferia que migra do terceiro mundo para os grandes centros. 
 
Como você se mantém informado de tanta coisa que rola em tanto lugar do mundo? Tem uma rede de colaboradores, DJs de outros lugares, que trocam informações e arquivos de suas cenas locais?
 
Exatamente. Temos uma grande rede de DJs destas tendências de new world music (moombahton, getthotech, tropical bass, kuduro, cumbia digital, balkan beats, arabian grooves etc.). Temos grupos no Facebook pra troca de arquivos, cartazes de shows e etc. Sempre viajamos e nos encontramos e trocamos arquivos. De certa forma temos uma postura de embaixadores: eu mostro tudo que tem de novo do Brasil e eles do mundo pra mim e assim vamos descobrindo.
 
Existe algum lugar do mundo onde ainda exista um ritmo ou gênero ainda puro, que não sofreu misturas ou muitas transformações?
 
Eu, particularmente, não procuro tanto algo assim, acho que é uma pesquisa muito especifica que mistura história e antropologia. Dentro do nosso conceito atual de cultura de massa, "puro mesmo" é um conceito meio ultrapassado. Acredito que existem formas de se tocar e cantar muito tradicionais e que surgiram num lugar e nunca saíram de lá – o que podemos chamar de autóctones. Mas isso não significa que sejam puras. Os ritmos, assim como os povos em suas culturas, são resultados de diversas combinações étnicas. Daí, entramos em outro universo mais antropológico e menos musical.
 
Sua festa, o Baile Tropical, já rodou por várias cidades; e você também já discotecou em muitos lugares do mundo. O setlist muda de acordo com o local em que você está tocando? A recepção do público varia muito de lugar para lugar?
 
Escolher músicas para as pessoas se parece com contar piada: é preciso trabalhar com o consciente coletivo à seu favor. Se não houver isso as pessoas não entendem e ai tudo pode dar errado. Estar em contato com as expectativas das pessoas é peça fundamental pra um set de sucesso. E não me refiro exatamente a tocar hits. Estou mais pra entender os olhares e trabalhar isso no seu repertório, construir a conexão das pessoas entre elas e delas todas com a música. Eu acabo adequando o repertório aos lugares, numa média de até 40% diferente dos outros lugares. Tocar músicas especiais em cada festa, algo que conecta com as pessoas da cidade é lindo.
 

 

Embora sejam bem diferentes entre si, os ritmos da periferia guardam alguma semelhança? Existe algo aí que faz as pessoas dançarem, quase instintivamente, quando ouvem tanto tecnobrega, cumbia digital argentina ou balkan beats do leste europeu. Que elemento comum é esse?
 
Sim, existe um suingue incomum a dance music (house, tecno, trance) a que estamos acostumados – inclusive o afrohouse (house com percussão africana) tem muito molejo. E isso sem dúvidas é o grande barato dessa música periférica. Sua riqueza esta nela ser mestiça. E isso sempre soa com aquele sincopado, aquela melodia diferente.
 
O que contribui para formar uma cena diferente em cada lugar?
 
Essencialmente, é o público. Não pela quantidade de gente. Mas o público qualificado, interessado no novo e que tenha repertório para isso. Que possa corresponder a experimentação do DJ. Recife, onde eu moro no momento, tem isso. Por isso repercute tanto o que se faz aqui. Onde aconteceu primeiro Los Hermanos, o retorno de Tom Zé, Calypso, Gaby Amarantos…
 
Na sua opinião, quais os principais focos produtores de música popular hoje, no mundo? Quais os próximos ritmos ou gêneros que vão tomar as pistas do mundo?
 
Este ciclo de empoderamento das periferias tende a dar a elas um protagonismo que já não é tão inédito, mas deve reorganizar o modus operanti dos mercados tradicionais, fazendo com que os mercados emergentes cada vez mais ditem as tendências. Da América Latina, Colômbia, Brasil e Argentina estão com muita força. E se não fosse nossa tradição acústica tão forte e o preconceito, eu poderia dizer que o Brasil seria o grande e absoluto celeiro deste momento. Da África, principalmente de Angola, vem uma cena muito forte já de uma sonoridade pós-kuduro. Acredito que entramos no ciclo da world music quando as periferias se auto influenciam. Ou seja, o Muleque, produtor de Belém, fazendo tecnobrega com viradas de kuduro, tecladinhos e cumbia colombiana e DJs Romenos colocam as metaleiras dos balkans em cima de bases de funk carioca. São as pontas dialogando com as pontas. Acredito que isso é a próxima tendência. Mas até o final desta década, a tendência é desacelerar o beat e a retomada dos timbres acústicos. E, aí sim, o Brasil volta ao protagonismo até a próxima Olimpíada.
 
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>> Para ouvir as mixtapes de Patrick T4: www.mixcloud.com/patricktor4/

perfil do autor

Lorena Calabria

Jornalista cultural desde os anos 80, Lorena Calabria foi editora na Revista Bizz e comandou os programas de TV Clip Clip, Metrópolis e Ensaio Geral. Apresenta o Terra Live Music, toda quinta, às 16h.




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