
Quando as duas dançarinas desceram, pela quarta vez, a escadinha no canto direito do palco, ao som da batucada, pensei: agora é carnaval.
Olho a plateia do clube nova-iorquino, com a vã esperança de que o entusiasmo da dupla surtisse efeito. Nada. Quem dançava sacolejando apenas a cabeça – ou seja, a maioria – assim permanece.
O anfitrião, até então impassível, interfere: “espero que vocês estejam curtindo. É a minha primeira vez aqui. E a fulana é americana”, apontando para uma das dançarinas.
Isso talvez explique a falta de sincronia entre elas, mas não alivia a tosquice da coisa. A cena tinha algo do cinema trash de John Waters, das mulatas do Sargentelli e de aula de aeróbica.
Veja bem: não é um espetáculo de samba para americano ver. É o show do Totally Enormous Extinct Dinosaurs. Soando como título de filme B, essa é a identidade artística do inglês Orlando Higginbottom. Daqui pra frente, TEED.
Orlando foi DJ e produtor de hip hop e drum’n’bass. Cansado do carão comum nos clubes noturnos, decidiu abraçar essa persona e a dance music, livre de rótulos. “Quero fazer sentido tanto para quem dança quanto para quem apenas ouve”, disse numa entrevista.
Já fez remixes para Friendly Fires, Kate Perry e Lady Gaga. Desde 2009, vem lançando EPs e singles, e em junho deste ano, enfim, saiu Trouble – o primeiro álbum “cheio”, com 14 músicas. Muitas ecoando os vocais cândidos do próprio Higginbottom.
Trouble reúne vários gêneros da dance music. É simples e também sofisticado. Rico em camadas e atmosferas. E não refuta o instinto básico de se acabar na pista de dança. Algumas músicas ganhariam fácil o carimbo de “irresistível apelo pop”.
Perdi o show do TEED na edição paulista do Sónar, em maio. Quando vi que estaria em Nova Iorque na data, garanti meu ingresso no Music Hall of Williamsburg, que fica no bairro adotado pelos hipsters há alguns verões. Ver um show de dance music num reduto cool seria, no mínimo, curioso.
Se a plateia tinha o corpo travado, ao menos reagia calorosamente à simples introdução de músicas como “Garden”,“Trouble”, “Stronger”e cantava em coro algumas letras.
Essa adesão da audiência deu um caráter mais orgânico a apresentação. Bem, o quanto pode ser orgânico um cara sozinho no palco manipulando sons que vem de picapes, bateria eletrônica, sampler, teclados e sintetizadores.
TEED ao vivo é hipnótico e mais pesado que o registro em estúdio. O som do grave (ah, o grave, minha perdição), absurdamente potente e limpo. E alto, muito alto. Os mais sensíveis podiam recorrer a protetores auriculares, disponíveis a 10 doletas no bar da casa. Sério.
Para quem curte dance music substanciosa (nada a ver com os pavorosos hits de FM que denigrem o gênero), o show era um convite ao prazer. De ouvir e dançar. Meu caso.
Quem não curte dance e nenhuma de suas vertentes, sente falta da energia roqueira. Caso da minha comadre, Mariana, que foi ao show pra me fazer companhia e nem a cabeça mexeu. “Essas bailarinas me lembram as do Flaming Lips, só que piores”.
É mesmo, esqueci das bailarinas. O macacão de lycra com estampa de onça, seios cônicos e um rabo de pelúcia no traseiro contrastavam com a elegância e o recato do Sr. Higginbotton.
Orlando, que pode se vestir de índio ou extraterrestre, esta noite optou por um dinossauro estilizado, bem talhado para seu corpo diminuto. Azul claro dos pés a cabeça, emoldurada por uma gola armada replicando a barbatana que descia pela coluna.
Mesmo com o espalhafato do figurino, Orlando Higginbotton era a personificação do cool. Depois de uma hora de show, se despediu com poucas palavras e deixou o palco. Nem aí para os insistentes pedidos de bis.
Foi-se como um lorde inglês. Balançando sua cauda de dinossauro, é verdade.