Quando me deparo com Zé do Caixão pela primeira vez, numa sala de cinema em Botafogo, no Rio, estávamos na década de 80. José Mojica Marins e seu alter ego já eram cultuados por uma turma de cinéfilos. Pequena e militante.
Um desses cinéfilos, imbuído de todo fervor, foi quem me cooptou. Ele enxergava muito além do tosco e divertido. Através daquele olhar, eu conheci o estranho mundo de Zé do Caixão – um mundo que se avoluma sob muitos véus de arrojo e inventividade.
O rapaz com olhos de raio X era André Barcinski, jornalista e fotógrafo, aos vinte e poucos anos.
Mais tarde, André e o colega Ivan Finotti escreveram Maldito, biografia completíssima de Jose Mojica Marins. Que se desdobrou em documentário, premiado pelo júri do Sundance Film Festival, em 2001.
A parceria com Mojica continuou. Atualmente, Barcinski dirige e produz o programa O Estranho Mundo de Zé do Caixão, no Canal Brasil.
E mais: vem aí o filme sobre a criação do personagem Zé do Caixão. “Será uma comédia, mostrando o lado heróico de se fazer terror no Brasil”, conta André, que assina o roteiro com Vitor Mafra, diretor do filme.
E quem vai encarnar o Mojica/Zé do Caixão? Matheus Nachtergaele.
Mas afinal, o que o Mojica e o Barcinki tão fazendo aqui, num blog sobre música?
Desde que os filmes de José Mojica Marins foram lançados no exterior, o personagem Zé do Caixão virou Coffin Joe e tem exercido um fascínio, sem precedentes, em músicos de várias bandas.
Foi sobre isso que eu conversei com o André Barcinski, o grande “culpado” de tudo.
Como os músicos ficaram conhecendo o Mojica e o personagem Zé do Caixão fora do Brasil?
ANDRÉ BARCINSKI – Tudo começou quando eu levei os filmes do Mojica para o Michael Vraney, ex-empresário dos Dead Kennedys, entre outros. Esse cara era o dono da Something Weird. No meio dos anos 80, ele ia em drive in, procurava as distribuidoras e comprava os direitos de filmes B. Daí lançou em VHS e ficou milionário. Eu costumava comprar os filmes da SW e mandei uma carta dizendo que tinha uma coisa pra mostrar pra ele. Levei os filmes do Mojica e ele pirou na hora. Isso foi no início dos 90. E foram lançados 13 filmes.
Nossa, 13? Não podia ser mais cabalístico. E como foi a repercussão fora do Brasil? Quem deu o nome Coffin Joe?
Começaram a sair várias matérias sobre os filmes. E no Brasil, por causa disso, surgiu um interesse pelo Mojica. Foi o que salvou a carreira dele. Só existia, até então, um filme dele lançado em VHS no mercado e era só sexo explícito. O nome Coffin Joe, eu e o Vraney que demos, pensando em ser mais fiel ao original. E acabou pegando.
Os primeiros músicos a piraram com o Mojica e Coffin Joe foram mesmo os Ramones?
Sim, foram eles os que demostraram isso primeiro, pelo menos. Quando vieram ao Brasil me pedirem até pra encontrar o Mojica. Eles conheciam a obra dele porque compravam direto os filmes da Something Weird.
E depois, quem mais se interessou?
Começaram a aparecer vários fãs entre os músicos. O Rob Zombie, do White Zombie, Glenn Danzig. E o Sepultura, que citou o Zé do Caixão numa música, “Ratamahatta”, no disco Roots.
E tem alguma história curiosa de algum encontro do Mojica com esses fãs músicos?
Em 1992, o Johnny Ramone encontrou o Mojica numa convenção nos EUA. A banda presenteou Mojica com uma jaqueta, que pertencia ao Joey, autografada pelos quatro. Tempos depois, a filha do Mojica pediu para dar um volta com a jaqueta, mostrar para os amigos. Voltou para casa sem a jaqueta.
Que isso? Roubaram a jaqueta original dos Ramones?
Foi, sumiu, ninguém sabe onde foi parar.
Mas tem algum músico que quis fazer algo pelo Mojica, além de elogiar e dar presente?
Sim, o Mike Patton, do Faith No More. Além ser muito fã, ele me procurou porque queria lançar as trilhas dos filmes do Mojica pela gravadora dele, a IPECAC. Mas não deu certo porque as trilhas eram mixadas com os diálogos. Impossível separar.
Que pena. E é curioso o Mike Patton se interessar pela trilha dos filmes…
Tem outro músico que não só é fã como fez trilha para o Mojica. É o Gary Lucas, guitarrista americano, tocou com Frank Zappa, Captain Beefheart. O projeto é todo dele: compôs uma trilha para Esta Noite Encarnarei no Teu Cada Cadáver e se apresenta tocando a trilha ao vivo durante a projeção do filme.

Esse é muito fã mesmo. Lembrei também daquela capa do disco do Zé Ramalho, A Peleja do Diabo, que aparece o Zé do Caixão…
Isso, o disco “A Peleja do Diabo Contra o Dono do Céu”. O Mojica está como Zé do Caixão. Isso foi nos anos 70. O Zé Ramalho, anos depois, retribui participando como convidado programa Viva a Noite, do Gugu, quando cortaram as unhas do Mojica, ao vivo.
E tem um cara da banda Horrors que usava Coffin Joe como nome artístico, é isso?
É o baterista, Joe Spurgeon. Tentei fazer o encontro dele com o Mojica, quando vieram tocar aqui no Festival Cultura inglesa, mas a produção demorou para responder. Quando entraram em contato, a banda já tinha ido embora.
O Mojica tem noção de quem são esses músicos que admiram ele?
Sinceramente, para ele tanto faz. Ele não tem a menor ideia. Eu explico quem é, mas ele não vai ouvir o som. Ele conhece mesmo o Sepultura e o Zé Ramalho.
A maioria dos músicos, fãs do Mojica, são de banda de rock, punk ou metal. Você lembra de outros fãs que te surpreenderam justamente por ter outra bagagem musical?
O Damon e a Naomi, baterista e baixista da banda Galaxie 500, que fazem um som mais tranquilinho. E tem o Jon Spencer, da Jon Spencer Blues Explosion. Quando ele trouxe para o Brasil o projeto Heavy Trash, convidou o Zé do caixão para participar do show. Eles entraram ao vivo na MTV.
Afinal, por que todos os músicos, roqueiros ou não, admiram tanto o Mojica e o Zé do Caixão?
Acho que eles reconhecem o Mojica como um artista singular, seja na blasfêmia dos filmes, na anti-religiosidade, na estética ou no terror mesmo. Eles é considerado um criador radical. Por isso se identificam com o Mojica, como artista. Além da música, ele tem muitos fãs entre o povo das HQs e do cinema. Lembro em Sundance, o ator Forest Whitaker, o diretor Darren Aronofsky, vieram falar que adoravam o Mojica. Tem outros, Viggo Mortensen, Paul Giamatti…
E entre as bandas ou músicos, quem você acha que encarna melhor o espírito do personagem Zé do Caixão?
Sem dúvida, The Cramps. Os dois, Lux Interior e Poison Ivy, eram muito fãs mesmo. Em 92, tava tudo acertado pro Mojica fazer o clipe deles, mas a turnê no Brasil foi cancelada. Na época em que fui divulgar o documentário em Sundance, pedi ao Lux uma frase sobre o Mojica. E ele mandou: “eu me sinto fraco e impotente em seu reino de violência”. Muito bom, né?
*André Barcinski é crítico de cinema da Folha de S. Paulo e autor do blog Uma Confraria de Tolos.
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Há algum tempo, alguns artistas fizeram um projeto chamado a Sociedade da Grã Ordem Mojiquista. E a galera também expressa sua admiração por Coffin Joe através de uma gíria. Pedi para que Tatá Aeroplano e Dudu Tsuda explicassem um pouco melhor essas histórias.
TATÁ AEROPLANO, sobre a Sociedade da Grã Ordem Mojiquista:
Ainda muito pequeno no final dos setenta ou começo dos oitenta eu vi na televisão um programa que o Mojica apresentava… Eu era pequeno e fiquei com medo, dai meu pai me disse que o Mojica era o Zé do Caixão e que tinha feito umas filmagens na Mata do Cabuçu, perto de onde meu pai trababalhava. Desde então passei a cultuar o mister Mojica! A Sociedade da Grã Ordem Mojisquista surgiu do convite da Karen Cunha da gente fazer um show a meia noite em frente ao cemitério da Vila Nova Cachoeirinha, bem perto do Centro Cultural da Juventude. Nós criamos a banda especificamente para fazer esse show. A banda foi formada por mim, Peri Pane, Maurício Fleury, Isidoro Cobra e Pedro Falcão. Foi uma das coisas mais legais que eu fiz em conjunto com uma banda. A idéia é no futuro a gente gravar um disco com o repertório desse show e lançar um disco, mas isso é pra 2016!
DUDU TSUDA, sobre a gíria "mojica/mojicagem":
A primeira vez que ouvi esta 'expressão' foi num dos ensaios do Tugudugunê, banda que eu tinha com a Tulipa e Gustavo Ruiz, Anelis Assumpção e Gustavo Souza. Ao que me consta, a 'expressão' foi forjada por alguns amigos mojicas da Anelis. Da minha parte, eu apenas espalhei. Antes de redes sociais e afins, fui contaminando cada pessoa que cruzava pela frente. Mojica tem múltiplos significados. Pode signifcar algo próximo de 'mambembe' no sentido improvisado, quando falamos de um sistema de som por exemplo, ou da estrutura de um festival ou de uma casa noturna. No caso de lugar, pode ser também algo improvisado e agradável por ser improvisado, neste caso, um atributo positivo. Pode significar autêntico / excêntrico, quando falamos de uma guitarra, um tecladinho, ou até uma pessoa. no caso de pessoas, vale ressaltar que uma pessoa mojica é sempre gente boa. É leve, espontânea, informal, espirituosa, autêntica, original. Não é igual 'descolado', veja bem. Descolado é mais um cara da publiça ou do cinema profissional, carro da hora, casaco gringo, óculos Rayban, ipod, ipad, iphone, itudo, um playboy metido a moderno. O Mojica é simples, não tem essa carga 'profissa', ri de si mesmo, é bom de festa, tem humor rápido.