Lorena Calabria

Resultado/julho2012


ZÉ DO CAIXÃO – ESTA NOITE ENCARNAREI NA TUA BANDA

30 jul

Publicado às 10h46

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Quando me deparo com Zé do Caixão pela primeira vez, numa sala de cinema em Botafogo, no Rio, estávamos na década de 80. José Mojica Marins e seu alter ego já eram cultuados por uma turma de cinéfilos. Pequena e militante.
 
Um desses cinéfilos, imbuído de todo fervor, foi quem me cooptou. Ele enxergava muito além do tosco e divertido. Através daquele olhar, eu conheci o estranho mundo de Zé do Caixão – um mundo que se avoluma sob muitos véus de arrojo e inventividade.
 
O rapaz com olhos de raio X era André Barcinski, jornalista e fotógrafo, aos vinte e poucos anos. 
 
Mais tarde, André e o colega Ivan Finotti escreveram Maldito, biografia completíssima de Jose Mojica Marins. Que se desdobrou em documentário, premiado pelo júri do Sundance Film Festival, em 2001.
 
A parceria com Mojica continuou. Atualmente, Barcinski dirige e produz o programa O Estranho Mundo de Zé do Caixão, no Canal Brasil. 
 
E mais: vem aí o filme sobre a criação do personagem Zé do Caixão. “Será uma comédia, mostrando o lado heróico de se fazer terror no Brasil”,  conta André, que assina o roteiro com Vitor Mafra, diretor do filme.
 
E quem vai encarnar o Mojica/Zé do Caixão? Matheus Nachtergaele.  
 
Mas afinal, o que o Mojica e o Barcinki tão fazendo aqui, num blog sobre música?
 

 
Desde que os filmes de José Mojica Marins foram lançados no exterior, o personagem Zé do Caixão virou Coffin Joe e tem exercido um fascínio, sem precedentes, em músicos de várias bandas
 
Foi sobre isso que eu conversei com o André Barcinski, o grande “culpado” de tudo.
 
Como os músicos ficaram conhecendo o Mojica e o personagem Zé do Caixão fora do Brasil?
 
ANDRÉ BARCINSKI – Tudo começou quando eu levei os filmes do Mojica para o Michael Vraney, ex-empresário dos Dead Kennedys, entre outros. Esse cara era o dono da Something Weird. No meio dos anos 80, ele ia em drive in, procurava as  distribuidoras e comprava os direitos de filmes B. Daí lançou em VHS e ficou milionário. Eu costumava comprar os filmes da SW e mandei uma carta dizendo que tinha uma coisa pra mostrar pra ele. Levei os filmes do Mojica e ele pirou na hora. Isso foi no início dos 90. E foram lançados 13 filmes.
 
Nossa, 13? Não podia ser mais cabalístico. E como foi a repercussão fora do Brasil? Quem deu o nome Coffin Joe?
 
Começaram a sair várias matérias sobre os filmes. E no Brasil, por causa disso, surgiu um interesse pelo Mojica. Foi o que salvou a carreira dele. Só existia, até então, um filme dele lançado em VHS no mercado e era só sexo explícito. O nome Coffin Joe, eu e o Vraney que demos, pensando em ser mais fiel ao original. E acabou pegando.
 
Os primeiros músicos a piraram com o Mojica e Coffin Joe foram mesmo os Ramones?
 
Sim, foram eles os que demostraram isso primeiro, pelo menos. Quando vieram ao Brasil me pedirem até pra encontrar o Mojica. Eles conheciam a obra dele porque compravam direto os filmes da Something Weird. 
 
E depois, quem mais se interessou?
 
Começaram a aparecer vários fãs entre os músicos. O Rob Zombie, do White Zombie, Glenn Danzig. E o Sepultura, que citou o Zé do Caixão numa música, “Ratamahatta”, no disco Roots.
 
 
E tem alguma história curiosa de algum encontro do Mojica com esses fãs músicos?
 
Em 1992, o Johnny Ramone encontrou o Mojica numa convenção nos EUA. A banda presenteou Mojica com uma jaqueta, que pertencia ao Joey, autografada pelos quatro. Tempos depois, a filha do Mojica pediu para dar um volta com a jaqueta, mostrar para os amigos. Voltou para casa sem a jaqueta. 
 
Que isso? Roubaram a jaqueta original dos Ramones?
 
Foi, sumiu, ninguém sabe onde foi parar.
 
Mas tem algum músico que quis fazer algo pelo Mojica, além de elogiar e dar presente?
 
Sim, o Mike Patton, do Faith No More. Além ser muito fã, ele me procurou porque queria lançar as trilhas dos filmes do Mojica pela gravadora dele, a IPECAC. Mas não deu certo porque as trilhas eram mixadas com os diálogos. Impossível separar.
 
Que pena. E é curioso o Mike Patton se interessar pela trilha dos filmes…
 
Tem outro músico que não só é fã como fez trilha para o Mojica. É o Gary Lucas, guitarrista americano, tocou com Frank Zappa, Captain Beefheart. O projeto é todo dele: compôs uma trilha para Esta Noite Encarnarei no Teu Cada Cadáver e se apresenta tocando a trilha ao vivo durante a projeção do filme.
 

Esse é muito fã mesmo. Lembrei também daquela capa do disco do Zé Ramalho, A Peleja do Diabo, que aparece o Zé do Caixão…
 
Isso, o disco “A Peleja do Diabo Contra o Dono do Céu”. O Mojica está como Zé do Caixão. Isso foi nos anos 70. O Zé Ramalho, anos depois, retribui participando como convidado programa Viva a Noite, do Gugu, quando cortaram as unhas do Mojica, ao vivo. 
 
E tem um cara da banda Horrors que usava Coffin Joe como nome artístico, é isso?
 
É o baterista, Joe Spurgeon. Tentei fazer o encontro dele com o Mojica, quando vieram tocar aqui no Festival Cultura inglesa, mas a produção demorou para responder. Quando entraram em contato, a banda já tinha ido embora.
 
O Mojica tem noção de quem são esses músicos que admiram ele?
 
Sinceramente, para ele tanto faz. Ele não tem a menor ideia. Eu explico quem é, mas ele não vai ouvir o som. Ele conhece mesmo o Sepultura e o Zé Ramalho. 
 
A maioria dos músicos, fãs do Mojica, são de banda de rock, punk ou metal. Você lembra de outros fãs que te surpreenderam justamente por ter outra bagagem musical?
 
O Damon e a Naomi, baterista e baixista da banda Galaxie 500, que fazem um som mais tranquilinho. E tem o Jon Spencer, da Jon Spencer Blues Explosion. Quando ele trouxe para o Brasil o projeto Heavy Trash, convidou o Zé do caixão para participar do show. Eles entraram ao vivo na MTV. 
 
Afinal, por que todos os músicos, roqueiros ou não, admiram tanto o Mojica e o Zé do Caixão?
 
Acho que eles reconhecem o Mojica como um artista singular, seja na blasfêmia dos filmes, na anti-religiosidade, na estética ou no terror mesmo. Eles é considerado um criador radical. Por isso se identificam com o Mojica, como artista. Além da música, ele tem muitos fãs entre o povo das HQs e do cinema. Lembro em Sundance, o ator Forest Whitaker, o diretor Darren Aronofsky, vieram falar que adoravam o Mojica. Tem outros, Viggo Mortensen, Paul Giamatti…
 
E entre as bandas ou músicos, quem você acha que encarna melhor o espírito do personagem Zé do Caixão?
 
Sem dúvida, The Cramps. Os dois, Lux Interior e Poison Ivy, eram muito fãs mesmo. Em 92, tava tudo acertado pro Mojica fazer o clipe deles, mas a turnê no Brasil foi cancelada. Na época em que fui divulgar o documentário em Sundance, pedi ao Lux uma frase sobre o Mojica. E ele mandou: “eu me sinto fraco e impotente em seu reino de violência”. Muito bom, né?
 
*André Barcinski é crítico de cinema da Folha de S. Paulo e autor do blog Uma Confraria de Tolos. 
 
***
 
Há algum tempo, alguns artistas fizeram um projeto chamado a Sociedade da Grã Ordem Mojiquista. E a galera também expressa sua admiração por Coffin Joe através de uma gíria. Pedi para que Tatá Aeroplano e Dudu Tsuda explicassem um pouco melhor essas histórias.
 
TATÁ AEROPLANO, sobre a Sociedade da Grã Ordem Mojiquista: 
 
Ainda muito pequeno no final dos setenta ou começo dos oitenta eu vi na televisão um programa que o Mojica apresentava… Eu era pequeno e fiquei com medo, dai meu pai me disse que o Mojica era o Zé do Caixão e que tinha feito umas filmagens na Mata do Cabuçu, perto de onde meu pai trababalhava. Desde então passei a cultuar o mister Mojica! A Sociedade da Grã Ordem Mojisquista surgiu do convite da Karen Cunha da gente fazer um show a meia noite em frente ao cemitério da Vila Nova Cachoeirinha, bem perto do Centro Cultural da Juventude. Nós criamos a banda especificamente para fazer esse show. A banda foi formada por mim, Peri Pane, Maurício Fleury, Isidoro Cobra e Pedro Falcão. Foi uma das coisas mais legais que eu fiz em conjunto com uma banda. A idéia é no futuro a gente gravar um disco com o repertório desse show e lançar um disco, mas isso é pra 2016! 
 
DUDU TSUDA, sobre a gíria "mojica/mojicagem": 
 
A primeira vez que ouvi esta 'expressão' foi num dos ensaios do Tugudugunê, banda que eu tinha com a Tulipa e Gustavo Ruiz, Anelis Assumpção e Gustavo Souza. Ao que me consta, a 'expressão' foi forjada por alguns amigos mojicas da Anelis. Da minha parte, eu apenas espalhei. Antes de redes sociais e afins, fui contaminando cada pessoa que cruzava pela frente. Mojica tem múltiplos significados. Pode signifcar algo próximo de 'mambembe' no sentido improvisado, quando falamos de um sistema de som por exemplo, ou da estrutura de um festival ou de uma casa noturna. No caso de lugar, pode ser também algo improvisado e agradável por ser improvisado, neste caso, um atributo positivo. Pode significar autêntico / excêntrico, quando falamos de uma guitarra, um tecladinho, ou até uma pessoa. no caso de pessoas, vale ressaltar que uma pessoa mojica é sempre gente boa. É leve, espontânea, informal, espirituosa, autêntica, original. Não é igual 'descolado', veja bem. Descolado é mais um cara da publiça ou do cinema profissional, carro da hora, casaco gringo, óculos Rayban, ipod, ipad, iphone, itudo, um playboy metido a moderno. O Mojica é simples, não tem essa carga 'profissa', ri de si mesmo, é bom de festa, tem humor rápido.
 

INDIEpedia: Juliana R.

27 jul

Publicado às 10h02

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Quando Juliana R saiu de sua Sorocaba natal, levou na bagagem um punhado de canções e veio tentar a sorte em São Paulo.
 
Com um EP, lançado em 2009, e um álbum no ano seguinte, a menina conquistou fãs como Edgard Scandurra e Luiz Thunderbird, que a convidaram para participar de seus projetos Les Provocateurs e Tarântulas e Tarantinos, respectivamente.
 
Suas composições confessionais passeiam, tranquilamente, por reggae, folk, chanson francesa e rock. Juliana agrada pela voz doce e sexy, sem afetação. E também pela forma despretenciosa com que encara a música.
 
Na entrevista abaixo, ela relembra a vinda para a cidade grande e avisa que está pensando no próximo disco.
 
 

(Entrevista por Katia Abreu)
 

Juliana R
 
De onde vem: Sorocaba – SP
 
Quem são: Juliana R (voz, violão e guitarra) acompanhada ao vivo por Dustan Gallas (guitarra), Demétrius Carvalho (baixo) e Felipe Maia (bateria)
 
Onde ouvir: www.julianar.com.br
 
Para quem curte: Lily Allen, François Hardy e Nico
 

A Retomada do SINGLE: do vinil para a internet

26 jul

Publicado às 9h35

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Décadas atrás, antes de um artista liberar um álbum completo, havia os singles. Geralmente, eram duas músicas, uma em cada lado do vinil, mostrando o que viria pela frente.
 
Daí, a indústria mudou, veio o CD, o compartilhamento de arquivos na internet e o hábito de ouvir atentamente a uma faixa se perdeu um pouco na profusão de informação que temos hoje.
 
O projeto virtual Lado A Lado B propõe voltar a essa experiência imersiva de audição, sempre com dois artistas dividindo o compacto, com músicas inéditas.
 

 
O pontapé inicial é dado por Lulina e Bruno Morais. Ela traz “Cargas D’Água” e “Paisagem de Higgs”; ele, “O Mundo Vai Me Convencer” e “ Ela Não Sabe Calar”. Os dois fazem show nesta quinta-feira, 26 de julho, no lançamento do projeto.
 
Mais do que oferecer músicas novas, o Lado A Lado B também convida o público a interagir com os artistas. No site, além de ouvir as músicas, é possível deixar comentários, baixar os arquivos e criar seu próprio remix.
 
A seguir, Missionário José, produtor do projeto ao lado de André Édipo, comenta a mudança na forma de consumo e como voltar o foco para a música.
 
Você acha que a forma como estamos ouvindo musica hoje, com músicas vazando na web, se assemelha ao formado de singles de antigamente?
 
MISSIONÁRIO JOSÉ – De certa forma sim, pois acaba sendo uma forma de acesso mais ao acaso, randômica, pois os canais de distribuição estão bastante fragmentados. Antigamente o consumidor de discos recebia, como hoje, uma influência considerável dos grandes meios de comunicação, mas também contava com outros fatores para ter acesso à música, como as indicações dos lojistas, apresentações dos músicos, etc… Ao longo do tempo esse contato foi se perdendo, mas creio que existem equivalências hoje em dia no mundo do acesso digital.
 
A ideia é propor uma nova forma de ouvir e experimentar música?
 
Eu acho que o que seria essa nova forma na verdade é uma proposta de retomar um hábito antigo, ouvir música sem tantas distrações, mas aproveitando as benesses da internet atualmente – como a facilidade de acesso e a possibilidade de compartilhamento direto. É verdade que, pra uma parcela do público, essa escuta mais atenciosa seja uma novidade.
 

 
No site, vai ter as pistas abertas para remixes? O que mais vai ter no site?
 
No site todos podem baixar as pistas abertas para remixes e outros fins não-comerciais, junto com algumas imagens de cada artista e uma ficha técnica de cada música. Além disso, e da possibilidade de adicionar comentários no player do site, não há muito o que ver. Apostamos em uma configuração com menos possibilidades justamente para que o visitante possa "focar" na música.
 
E os remixes feitos pelo público: vão ficar disponíveis no site também?
 
Estamos pensando em carregá-los no site, e dependendo da demanda articular talvez uma conexão com algum outro servidor.
 
Quais vão ser os próximos artistas? Até quando vai o projeto?
 
Ainda não temos nada confirmado, mas pensamos em fazer alguma coisa com o Trio Eterno – projeto paralelo do Felipe S. do Mombojó do qual eu e André participamos, e outros artistas independentes. A etapa piloto do projeto se encerra em Setembro, que é quando encerramos nosso contrato com a Petrobrás e vamos analisar o acesso e o uso do site pelos visitantes. Mas a idéia é que esse projeto seja contínuo, lançando músicas novas de artistas independentes algumas vezes por ano. É a nossa leitura do que pode ser um "selo virtual" da Jardel, nossa produtora.
 
Nos próximos lançamentos também haverá shows especiais?
 
Esperamos que sim, acho que o show é importante pra abrir ou fechar esse ciclo de interação entre o artista e o público.
 
***
 
Lançamento do projeto “Lado A Lado B”
Shows: Lulina e Bruno Morais
Quinta, 26 de julho de 2012, às 21h
Centro Cultural Rio Verde: Rua Belmiro Braga, 119, Pinheiros – São Paulo/SP
Ingresso: R$ 5
Telefone: (11) 3034-5703
 

DJ PATRICK TOR4 e os sons da periferia, agora em missão olímpica

24 jul

Publicado às 12h06

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O kuduro você já conhece, né? Veio de Angola, passou pela Bahia e chegou a novela. O tecnobrega sempre esteve aqui perto, no Pará, mas também precisou da televisão para sair de casa
 
Os dois vieram da periferia, assim como outros tantos ritmos, espalhados pelo mundo. Nem todos terão a mesma oportunidade. Ou o potencial para serem absorvidos pela massa. 
 
Sons que vão de um gueto para outro. Mas não passaram desapercebidos por PATRICK TOR4, DJ, radialista, produtor, ex-percussionista da banda sergipana Naurêa.
 

 
Brasileiro, nascido no interior Bahia, morou em várias cidades do norte e nordeste. “Adorava ouvir as batucadas desde zabumbeiro de forró, dos frevos, maracatus até os bumbos das bandas marciais dos desfiles de sete de setembro”.
 
E acabou se especializando em batidas tropicais “reconectadas a seus equivalentes pelo mundo”. Do baião nordestino aos balkan beats do leste europeu, do tecnobrega paraense à latina cumbia digital, da guitarrada amazônica ao zouk caribenho e por aí vai.
 
Para mim, o Patrick é mais que um DJ. É uma espécie de consultor para sons da periferia
Ele não só conhece o que está rolando no quintal do vizinho distante. Ele sabe de onde veio, qual passado musical daquele ritmo, contextualiza e sugere o futuro.  
 
Conversei com Patrick antes de sua próxima turnê europeia, que inclui Madri e Bratislava e começa em Londres. A convite do Comitê Olímpico da Rio 2016 vai se apresentar Casa Brasil, nos dias 4 e 6 de agosto. 
 
Quando começou seu interesse por ritmos populares das periferias?
 
PATRICK TOR4 – Por volta de 98/99 eu havia me especializado em drum'n’bass. Soava como o resultado eletrônico das batucadas afrobrasileiras que sempre mexeram comigo. O auge do estilo no Brasil foi o flerte com a bossa nova, acabando com as características mais interessantes da tendência. Fui procurar um outro caminho estético com o mesmo vigor artístico, algo que tivesse a minha cara. Anos depois, uma ex-namorada me mostrou algo que realmente mexeu comigo: um disco de remixes de música cigana, a coletânea Electric Gypsyland, do selo belga Crammed. Nele tinha DJ Dolores, Shantel, Mahala Rai Banda, Gaetano Fabri e Arto Lindsay. Esse disco coroou a abertura de ouvidos que eu vinha vivendo com o contato com Manu Dibango, Fela Kuti e outras batidas interessantes com sotaques locais e com a força dançante cheia de suingue e percussão, que parecia compor o tecido musical brasileiro que até então não tinha ficado claro pra mim. Temos uma tradição acústica muito forte. O Brasil começou a ter sua música eletrônica com o funk carioca e o tecnobrega. Ou seja é destes lugares onde surge sem compromisso o novo a partir do que se tem de mais profundo e arraigado. Depois segue pra influenciar o pop mundial, a minha intenção é pegar o peixe no salto antes dele cair na água outra vez.
 

 

Você rodou muito o norte e nordeste brasileiros e as sonoridades destes lugares aparecem no teu trabalho. Mas e o restante do Brasil? Te 
interessa, por exemplo, a chamada "tchê music"?
 
Honestamente conheço pouco do que forma a musicalidade do sul. Pesquiso a música popular urbana do norte e nordeste pra entender como se aglomeram as informações da cultura pop tecendo as nossas novas tradições populares. Nem tudo é legal, nem tudo é bonito ou precisa ser visto com olhares mais gentis. Mas seguramente são esboços criativos e que podem ser melhor harmonizados. Entendo a tchê music, por exemplo, como uma legítima expressão popular urbana do sul, mas ela ainda não me interessa como elemento de pesquisa. 
 
Dá pra agrupar esses ritmos, mesmo sendo tão diferentes?
 
Dá sim, um pouco pela origem. Os que nascem em metrópoles europeias e americanas, batizado de ghetto tech, onde se encaixam o miami bass e o moonbahton. E tem outro grupo, tropical bass, que abriga ritmos influenciados por batidas afro-latinas, como cumbia digital, raggaton, kuduro. Mas o mundo também pode ser remontado de outra forma: a periferia do terceiro mundo. E a periferia que migra do terceiro mundo para os grandes centros. 
 
Como você se mantém informado de tanta coisa que rola em tanto lugar do mundo? Tem uma rede de colaboradores, DJs de outros lugares, que trocam informações e arquivos de suas cenas locais?
 
Exatamente. Temos uma grande rede de DJs destas tendências de new world music (moombahton, getthotech, tropical bass, kuduro, cumbia digital, balkan beats, arabian grooves etc.). Temos grupos no Facebook pra troca de arquivos, cartazes de shows e etc. Sempre viajamos e nos encontramos e trocamos arquivos. De certa forma temos uma postura de embaixadores: eu mostro tudo que tem de novo do Brasil e eles do mundo pra mim e assim vamos descobrindo.
 
Existe algum lugar do mundo onde ainda exista um ritmo ou gênero ainda puro, que não sofreu misturas ou muitas transformações?
 
Eu, particularmente, não procuro tanto algo assim, acho que é uma pesquisa muito especifica que mistura história e antropologia. Dentro do nosso conceito atual de cultura de massa, "puro mesmo" é um conceito meio ultrapassado. Acredito que existem formas de se tocar e cantar muito tradicionais e que surgiram num lugar e nunca saíram de lá – o que podemos chamar de autóctones. Mas isso não significa que sejam puras. Os ritmos, assim como os povos em suas culturas, são resultados de diversas combinações étnicas. Daí, entramos em outro universo mais antropológico e menos musical.
 
Sua festa, o Baile Tropical, já rodou por várias cidades; e você também já discotecou em muitos lugares do mundo. O setlist muda de acordo com o local em que você está tocando? A recepção do público varia muito de lugar para lugar?
 
Escolher músicas para as pessoas se parece com contar piada: é preciso trabalhar com o consciente coletivo à seu favor. Se não houver isso as pessoas não entendem e ai tudo pode dar errado. Estar em contato com as expectativas das pessoas é peça fundamental pra um set de sucesso. E não me refiro exatamente a tocar hits. Estou mais pra entender os olhares e trabalhar isso no seu repertório, construir a conexão das pessoas entre elas e delas todas com a música. Eu acabo adequando o repertório aos lugares, numa média de até 40% diferente dos outros lugares. Tocar músicas especiais em cada festa, algo que conecta com as pessoas da cidade é lindo.
 

 

Embora sejam bem diferentes entre si, os ritmos da periferia guardam alguma semelhança? Existe algo aí que faz as pessoas dançarem, quase instintivamente, quando ouvem tanto tecnobrega, cumbia digital argentina ou balkan beats do leste europeu. Que elemento comum é esse?
 
Sim, existe um suingue incomum a dance music (house, tecno, trance) a que estamos acostumados – inclusive o afrohouse (house com percussão africana) tem muito molejo. E isso sem dúvidas é o grande barato dessa música periférica. Sua riqueza esta nela ser mestiça. E isso sempre soa com aquele sincopado, aquela melodia diferente.
 
O que contribui para formar uma cena diferente em cada lugar?
 
Essencialmente, é o público. Não pela quantidade de gente. Mas o público qualificado, interessado no novo e que tenha repertório para isso. Que possa corresponder a experimentação do DJ. Recife, onde eu moro no momento, tem isso. Por isso repercute tanto o que se faz aqui. Onde aconteceu primeiro Los Hermanos, o retorno de Tom Zé, Calypso, Gaby Amarantos…
 
Na sua opinião, quais os principais focos produtores de música popular hoje, no mundo? Quais os próximos ritmos ou gêneros que vão tomar as pistas do mundo?
 
Este ciclo de empoderamento das periferias tende a dar a elas um protagonismo que já não é tão inédito, mas deve reorganizar o modus operanti dos mercados tradicionais, fazendo com que os mercados emergentes cada vez mais ditem as tendências. Da América Latina, Colômbia, Brasil e Argentina estão com muita força. E se não fosse nossa tradição acústica tão forte e o preconceito, eu poderia dizer que o Brasil seria o grande e absoluto celeiro deste momento. Da África, principalmente de Angola, vem uma cena muito forte já de uma sonoridade pós-kuduro. Acredito que entramos no ciclo da world music quando as periferias se auto influenciam. Ou seja, o Muleque, produtor de Belém, fazendo tecnobrega com viradas de kuduro, tecladinhos e cumbia colombiana e DJs Romenos colocam as metaleiras dos balkans em cima de bases de funk carioca. São as pontas dialogando com as pontas. Acredito que isso é a próxima tendência. Mas até o final desta década, a tendência é desacelerar o beat e a retomada dos timbres acústicos. E, aí sim, o Brasil volta ao protagonismo até a próxima Olimpíada.
 
***
 
>> Para ouvir as mixtapes de Patrick T4: www.mixcloud.com/patricktor4/

INDIEpedia: Madrid

20 jul

Publicado às 14h56

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Adriano Cintra era do CSS (Cansei de Ser Sexy); Marina Vello, do Bonde do Rolê. Os dois se conheceram e ficaram amigos por conta das turnês de suas ex-bandas. Mas a união deles em nada lembra o clima dançante e “causador” pelo qual ficaram conhecidos internacionalmente.
 
O Madrid nasceu da vontade de compor algo mais orgânico. Eles cansaram das batidas eletrônicas e das festas insanas. A onda agora é mais densa e delicada, baseada em piano e violão. Sai o hedonismo, entra a introspecção.
 
Na entrevista abaixo, Adriano e Marina falam de seu encontro, da gravação do disco homônimo que lançaram agora e de suas aspirações musicais.
 

(Entrevista por Katia Abreu)
 

Madrid 
 
De onde vem: da ponte São Paulo – Londres
 
Quem são: Adriano Cintra (voz, teclados, pianos), Marina Vello (voz e violão) acompanhados ao vivo por Fil (guitarra) e Rodrigo Sanches (bateria)
 
 
Pra quem curte: Mazzy Star, PJ Harvey e Fiona Apple

perfil do autor

Lorena Calabria

Jornalista cultural desde os anos 80, Lorena Calabria foi editora na Revista Bizz e comandou os programas de TV Clip Clip, Metrópolis e Ensaio Geral. Apresenta o Terra Live Music, toda quinta, às 16h.




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