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Lorena Calabria

VANESSA DA MATA: entre Gonzaga e a Europa

20 jun

Publicado às 14h42

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Vanessa vai cantar Luiz Gonzaga. E isso é muito natural. Vanessa gravou coletânea que revisita Guilherme Arantes. Também não é um choque. 
 
O que parece dissonante é o hiato entre seu ultimo disco, Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias, e o que está por vir. 
 
O intervalo mais longo não se deve a nenhuma crise criativa. Compositora antes de tudo, Vanessa vai burilando a nova leva de canções, sozinha e com novos parceiros. 
 
 

 
Enquanto isso, segue com a turnê de seu disco mais recente aqui e além-mar: ela embarca para a Europa em julho, para uma série de shows. 
 
Encontrei Vanessa no final de uma manhã fria em São Paulo. Era hora do almoço; nós duas confessadamente famintas. Julguei que o apetite encurtaria nossa conversa.  Que nada.  Os dez minutos previstos viraram quarenta. Falar de música sem pressa, para Vanessa, também é muito natural. 
 
 
Quanto tempo você está com a turnê do Bicicletas? É uma das mais longas que você já fez?
 
Quase dois anos. O disco saiu em outubro de 2010. Não. Eu tive turnês mais longas. Acho que vai ser mais ou menos igual. São mais ou menos duzentos shows. 
 
O que determina o final de uma turnê? Quando que você bota ponto final: “agora esse disco já teve seu tempo vou parar e pensar em outro”?
 
São várias coisas. Primeiro a demanda de shows. Depois um cansaço daquele trabalho, uma vontade de fazer outro. Como eu sou também compositora, começam a vir músicas que você quer tornar visível para todo mundo, você quer levar para as pessoas. E essa vontade do novo vai aparecendo, não tem jeito. Porque shows, mesmo se tiver uma demanda menor, se quiser você baixa o cachê e continua trabalhando. Mas pra mim, esse ponto final é quando começa a ter um certo cansaço das músicas e essa vontade de mostrar algo novo emerge. 
 
 

 
Muitas músicas são feitas no quarto de hotel, nas viagens de van durante turnês. Você tem essa prática?
 
Tenho o tempo todo. E quanto mais exausta… é uma sensação de pirraça, sabe? Estou quase dormindo, vem uma música incrível e eu várias vezes já parei e falei: não vou fazer. 
 
Você consegue domar isso? Você resiste a esse impulso?
 
Eu me sinto escrava. Então, quando eu preciso dormir, não gravo. Durmo e a música é esquecida. E é duro. Me sinto culpada, me sinto mal. Hoje em dia, se eu começo a fazer uma música em seguida vem outra e outra e depois outra. Elas montam na minha cabeça de uma maneira que não consigo dormir. Eu já fico bolando como é que vai ser a frase dos metais, a frase da guitarra, o que vai primeiro, o que vai ser o refrão, o verso final. E aí, fico embolada naquilo que não consigo descansar. E no outro dia tenho que dar conta do show, a voz tem que estar boa. 
 
Você compõe no violão?
 
Não. Eu componho no “Lá lá lá”. (risos)
 
Mas você estudou que instrumento?
 
Com 15 anos, fiz sete meses de violão. Piano fiz três aulas. (risos) Mas eu quero voltar a fazer. É que não tem mais tempo. Não tenho essa disponibilidade. E hoje é tão fácil, tão rápido. Outro dia fiz umas músicas com um parceiro antigo meu, o Liminha, e com o Gilberto Gil. O Gil falou que seria bacana se eu soubesse tocar, porque seria mais independente. Mas eu não acho… O Liminha não. Ele adora que eu não toque porque eu vou muito mais rápido do que qualquer pessoa que sabia tocar, porque eu não tenho que parar para fazer harmonias. Eu não percebo que tem uma dificuldade, então vou descer a melodia. Ela sai da forma que eu acho mais natural e que eu acho mais bonita e eu coordeno sem pensar no instrumento. E depois o cara se vira para tirar e eu vou dizendo: “não, não é esse arranjo, não tem sétima aí…”
 
Você falou do Limina, do Gil… você pode adiantar coisas que tem pela frente? O que já tem na sacolinha de músicas novas?
 
Eu sempre fiz música e essas músicas elas dependem muito do núcleo do disco. Então, se eu te falar “ah, vou fazer música com o Liminha no próximo disco” eu vou estar pecando, porque um próximo disco não depende dessas canções. Já tenho músicas na minha cabeça que acho que vai ser a partir delas, músicas minhas. Mas ao mesmo tempo, é uma longa etapa até o disco novo que podem aparecer coisas novas. Eu vou fazer agora um projeto de Luiz Gonzaga, especialmente para o SESC Pinheiros…
 
Antes de falarmos do Gonzaga… Você participou agora do disco A Voz da Mulher na Obra de Guilherme Arantes, como foi?
 
Um disco lindo e muito importante porque ele é um excelente compositor. E a gente tem uma ideia de que se o arranjo for mais popular,a gente não sabe analisar aquelas melodias tão lindas. Ou a letra, se ela é direta, bem feita – as letras são muito bem feitas. Mas o Guilherme estava num lugar da década de 80 que não tinha nada a ver com ele, que passou… E ele não é só isso. A Adriana Calcanhoto começou a tocar em show, eu gravei… ele continuou fazendo muitos shows, mas não aparecia na grande mídia. 
 
 

 
E você que escolheu a canção, “Cuide-se Bem”?
 
Não, o Zé Pedro me mostrou e achei linda. Porque é uma letra que tem a ver com todo mundo: "Cuide-se bem! / Perigos há por toda a parte / E é bem delicado viver / De uma forma ou de outra / É uma arte, como tudo… / Cuide-se bem! / Tem mil surpresas / A espreita / Em cada esquina / Mal iluminada / Em cada rua estreita / Do mundo… / Pra nunca perder / Esse riso largo / E essa simpatia / Estampada no rosto…".  É lindo isso. A gente vive num país perigoso, pobre pra tanta gente e é preciso ter consciência disso… São tantos perigos, tantas decepções amorosas, a gente vai envelhecendo, e a gente tem que cuidar do sorriso, do bom humor, de perceber coisas bonitas na vida, de olhar sempre para algum lugar… A gente tem que saber de tudo que existe e tentar sobreviver da melhor forma. E essa música tem a ver com isso. E de não perder a inocência, buscá-la sempre no bom sentido. 
 
 

 
Você acabou dando um significado novo para a música…
 
Quando eu vi a letra: “Gente, parece que ele está cantando para mim”. Essa coisa da sensibilidade e do talento de quem escreve para muita gente. Você sempre acha que ela está cantando para você porque ela está cantando para você. (risos)
 
E o Gonzaga, como esse projeto chegou até você? Ele é outro artista que está muito presente na memória de todo mundo. 
 
É, exatamente. É um mapa do DNA da expressão brasileira. Antropologicamente, se você pegar qualquer pesquisador, você vai ter aquela figura no imaginário brasileiro: do chapéu, do nordestino guerreiro, do caixeiro viajante, do homem que vendia palavras, da sanfona que vai em todas as cidadezinhas brasileiras… Foi o inventor do baião. Eu ouvia Luiz Gonzaga quando criança no Mato Grosso. A gente saia para dançar forró e ouvir Luiz Gonzaga e todos os outros forrós de duplo sentido, que era divertidíssimo, o barato era descobrir o duplo sentido… O Luiz Gonzaga tinha uma poética esmagadora e uma melodia da fala nordestina… O nordeste tem uma coisa rica, uma coisa feliz, alegre, que é de quem busca a vida. 
 
 

 
E é uma luta diária, né?
 
Sim, uma luta de quem quer viver, de quem gosta de viver. E o Gonzaga é o começo disso. Quando o Brasil inteiro cantou e ele foi para todos os canais de televisão e virou o Rei do baião e traduzia esses assuntos todos de uma maneira maravilhosa. 
 
Então para você esse mergulho na obra dele vinha desde a infância. Mas como é encarar o repertório dele nesse projeto? Qual é a ideia: manter a tradição ou trazer pro teu universo musical? 
 
As duas coisas. A gente está ainda no processo. Mas a sanfona tem que estar presente, a tradição está aí, mas ao mesmo tempo são versões. A gente não tem como fazer igual e nem deve, é trazer isso para a nossa geração. É muito delicado. E eu trago isso com uma liberdade muito boa. Já começa que é uma mulher cantando as músicas de um cara que tinha uma voz tão imponente e isso já me dá uma liberdade enorme. E eu sou compositora também e quando você compõe, automaticamente, você tem uma relação com a estrutura da música, com a composição dele que é diferente da relação que quem é só interprete. Você percebe como ele ligou cada palavra, para traduzir cada imagem e o que cada melodia leva de sentimento na resolução daquela estrutura toda. 
 
 

 
Como foi a seleção do repertório?
 
Ah, tem muita coisa. Eu estou pegando coisas de que eu gosto, que eu ouvia de criança e que eu acho que são recados bons. E tou pegando coisas também que foram importantes para a carreira dele. Mas eu sei que vai faltar algo, porque são muitos discos, muitas coisas que ele fez. Tem coisas que ele fez com o Gonzaguinha depois que eu adoro também. É um bom passeio e é um bom descanso do meu trabalho também.
 
E você se viu cantando num outro registro, você descobriu no repertório do Gonzaga alguma coisa tipo: “opa, eu nunca cantei desse jeito”? 
 
Eu acho que cada repertório é de um jeito… No meu repertório mesmo, eu acho que eu canto menos cantando músicas minhas, porque elas são muito intimas, do que cantando músicas de outras pessoas. 
 
Em que sentido cantar menos?
 
Menos de facilidade mesmo. Elas são difíceis para mim. Sempre foi isso. Quando pego músicas de outros compositores, eu fluo mais como cantora. Nas minhas músicas eu falo muito pelas letras, mas quando é de outro é engraçado porque eu posso brincar mais, eu não tenho relação direta com aquele sentimento. Aquele sentimento é emprestado. Eu fico menos envergonhada, eu posso cantar de várias maneiras. 
 
Não tem aquele sentimento de apego, de “eu estou cantando desse jeito porque eu fiz desse jeito”, né?
 
É, diversas canções que eu fiz entre quatro paredes e quando eu fui abrir, cantar para milhares de pessoas… sei lá, Fortaleza 75 mil pessoas, ai você fala: “gente, você não tem vergonha na cara de cantar isso?” (risos) Quando eu componho eu falo para mim, quando eu canto eu falo para milhares e eles pegam isso para eles… Vai se multiplicando. Mas é bom também, porque a minha timidez é chata, ela me segura. Então isso é um exercício. Não posso me limitar no palco. 
 
***
 
LUA CHEIA DE BAIÃO
Vanessa da Mata canta Luiz Gonzaga
Sexta (22/06) e sábado (23/06), às 21h; domingo (24/06), às 18h
SESC Pinheiros: Rua Paes Leme, 195, Pinheiros – São Paulo, SP
Ingressos: ESGOTADOS!
 

Tags:

Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias, Guilherme Arantes, Luiz Gonzaga, Vanessa da Mata
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perfil do autor

Lorena Calabria

Jornalista cultural desde os anos 80, Lorena Calabria foi editora na Revista Bizz e comandou os programas de TV Clip Clip, Metrópolis e Ensaio Geral. Apresenta o Terra Live Music, toda quinta, às 16h.

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