Après é o nome do novo disco de Iggy Pop. Em francês, Après quer dizer depois. Mas quer dizer muito mais. É só você juntar com o álbum anterior, também batizado na língua de Rimbaud: Preliminaires.
Preliminaires significa a mesma coisa em português. Antes e depois ganham assim uma conotação sexual. Safadinho, esse Iggy Pop, não?
Sedutor, Iggy sempre foi. O que mudou foi a forma de seduzir. Atualmente, está disposto a canalizar na voz toda a energia sexual que exibia ao vivo, em performances que beirava a selvageria.
Eu vi Iggy Pop, em 1988, no Rio de Janeiro. E aquele homem que eu vi no palco, contorcendo o corpo como no auge do prazer, não se parece em nada com o senhor que agora canta suavemente, como um crooner, um chansonier.
A explicação para a mudança radical foi dada pelo próprio Iggy Pop, ao lançar o disco Après: “queria levar, através da minha voz, o sentimento que tive quando ouvi esses canções. Muitas são em francês, provavelmente porque a cultura francesa resistiu com maior teimosia aos ataques da máquina musical anglo-americana.”
Pensando bem, Iggy já tinha “sossegado o facho” quando gravou com Kate Pierson (do B-52’s) um embate amoroso, “Candy”, em 1990. O maior sucesso de toda a carreira de Iggy Pop.
O disco Preliminaires ainda flertava com o rock, folk, cabaré, mas trazia também canções francesas, como “Les Feuilles Mortes” e até um Tom Jobim “How Insensitive” (Insensatez).
Iggy foi preparando a cena para Après, o ato consumado. Não são canções românticas, são canções de amor e dor. Um disco elegante, com instrumentação econômica, violão e piano em destaque. Você pode ouvir com sua mãe (quem diria) e ela vai se encantar.
Com seu timbre grave, soturno, Iggy canta em inglês e francês. Um repertório que não quer surpreender. Por que, afinal, por mais batida que seja a canção ela vai soar diferente na voz de Iggy.
“Evebody’s Talkin” é um exemplo. Estrondoso sucesso na voz de Harry Nilsson nos anos 60, agora com Iggy retorna fresca.
Beatles e Cole Porter no mesmo disco? Por que não?
“Michelle” tem sua fofurice esmagada. E “What is this thing called Love” se descobre lânguida.
Mas é em frances que Iggy sensualiza pra valer. Sem fazer esforço algum. Coisa rara na língua. Quem não domina o idioma corre o risco de virar um pastiche. A canção francesa tem um je ne se quoi que exige mais que fazer biquinho e pose de seduteur.
Em Après, Iggy pescou cinco canções francesas. Tira a poeira de “Et si tu n’existais pas”, original de Joe Dassin. E ainda se apossa de “La vie en rose”(Edith Piaf/Guglielmi) e “Le javanaise” (Gainsbourg). Que ousadia mexer com essas verdadeiras instituições!
É aí que entra o passado iconoclasta de Iggy Pop. Munido da desobediência punk, ao invés de canonizar essas canções, encara-as como outras quaisquer.
Afinal, o que aconteceu com o diabo que ele tinha no corpo? Como nosso punk de primeira ordem virou um seresteiro hipster? E esse visual de dandi pós-apocaliptico?
Os mil demônios estão controlados. Já não explodem em danças frementes nem se esgoela. A voz gutural está lá, domada.
Mas não subestime o velho Iggy. Ele vai descer nas profundezas do coração, arrancar sentimentos com unhas e dentes. Com Iggy Pop, arder no inferno do amor pode ser um prazer.