
Marcelo Camelo mudou. De casa.
Para um cara que passou os últimos anos dividido entre Rio e São Paulo, isso faz muita diferença.
Marcelo agora trabalha fora. De casa. Ele tem um “escritório” pra isso. “Eu precisava de um canto só para trabalho”. Ele me conta animado, mas já estudando a melhor hora de voltar para casa sem penar no trânsito, como qualquer trabalhador.
Marcelo Camelo está enfim, sozinho. No palco. Sem banda. Só voz e violão. E essa talvez seja, no momento, a maior mudança na vida dele.
Depois da estreia do show acústico em São Paulo, em janeiro no Auditório do Ibirapuera, com ingressos esgotados em poucas horas, o músico programou outras apresentações, acompanhado do rabequeiro Thomas Rohrer. A próxima acontece neste sábado, em Curitiba.
Nossa conversa aconteceu enquanto ele acertava os contratos de aluguel e afinava os detalhes do DVD que está gravando, com direção do californiano Jack Coleman.
A meu pedido, Marcelo enviou alguns retratos que revelam seu lado fotógrafo, cada vez mais exposto. Seu mais recente feito foi o vídeo da canção “Baby I’m Sure”, de sua mulher Mallu Magalhães, filmado e editado por ele.

Série de retratos que Camelo faz de seus amigos
Até que você demorou um pouco para fazer um show voz e violão. Depois da lotação em SP, vieram outros. Estavam nos planos?
MARCELO – Eu queria fazer um apenas, pra ver como era. A carreira solo dá essa possibilidade. De você levar a cabo suas vontades, sem precisar negociar com ninguém. Já tinha vontade de fazer voz e violão há um tempo. Mas não achava que era o momento por causa do repertório.
Peraí. Como assim, o repertório? Música não falta, né?
MARCELO – Não queria fazer tipo barzinho, com as pessoas cantando junto e só. Queria que fizesse sentido esteticamente no violão, queria algo que por si fosse legal.
Sei, você não queria juntar sucessos do Los Hermanos e tocar ao violão. Mas do primeiro disco solo pro segundo já dava, não?
MARCELO – Sim, o primeiro é bem violão e na turnê também era meio assim. Toquei em muito lugar com a platéia sentada. Agora ficou mais antagônico. Ainda assim, nos shows com banda, tem um momento em que fico só, com voz e violão.
Mas agora é diferente; é show inteiro. Como foi encarar esse “monólogo”? O que você imaginava?
MARCELO – Imaginei a coisa mais próxima do estado relaxado, como se fosse eu tocando em casa, pra mim mesmo. Na prática, foi tudo o oposto. Nas primeiras músicas, toquei com a mão tremendo.
O que foi? Nervosismo, ansiedade?
MARCELO – Nem fiquei tão nervoso, mas o pouco se manifesta na ponta dos dedos, a parte do corpo que você mais precisa. Percebi a necessidade de outro preparo que não o técnico, mas o afetivo.
Mudou a sua relação com o violão depois dessa experiência?
MARCELO – É uma relação antiga, intrínseca. O que fiz foi resgatar o violão como meu primeiro instrumento, através do qual me iniciei, e trazer à tona. Minha dificuldade sempre foi encaixar, dentro da dinâmica do concerto de rock, o violão, delicado, silencioso.
Mas você não está totalmente só com o violão no palco. De onde tirou essa rabeca, Marcelo?
MARCELO – Pra trazer uma cor. Como nunca tinha feito, veio o receio de ficar monótono. Chamei o Thomas (Rohrer) porque ele toca de um jeito que se mistura, é da escola do improviso. Sabia que não entraria só uma rabeca e ponto. Cheguei a pensar em clarinetista, trombonista. A ideia era ter uma alternância. Mesmo eu, que gosto de violão, sinto falta. A nossa cabeça desacostumou.
Como montou o repertório? Separou músicas que se encaixavam nesse formato ou escolheu as que queria tocar e foi adaptando?
MARCELO – Meu critério era as que ficavam mais bonitas ao violão. Algumas músicas tem uns trejeitos, uns caminhos. É da natureza da composição: umas vão bem, outras não, ao violão. As que vem mais rock precisam da força coletiva de uma banda de rock, empurrando.
Você aproveitou também pra incluir músicas suas, gravadas por outros e que você não costuma tocar. Por exemplo, a música que o Erasmo gravou, “Para falar de amor”.
MARCELO – Essa eu nunca tinha tocado. Fiz pensando nele. Tem outras tantas que não consegui tocar ao vivo, mas a gente guarda com carinho. Difícil esquecer uma música. Esse show é também um jeito de tocar essas músicas.
E você ainda colocou uma inédita. Já tá pronta?
MARCELO – (silêncio) É bonita essa, hein? (risos)
Sim. E já pegou fácil…”Luzes da cidade”… Perguntei se estava pronta porque lembrei do Marcelo Jeneci, que mostrou só um trecho de um canção nova…
MARCELO – Legal isso, tem a ver com vários aspectos da vida. O ineditismo tem uma função. Pra mim é como a porta do compartimento que só deve se abrir quando está pronto. Que nem o bolo, sabe? Se abrir antes, pode “solar”. (risos)
Tá entendendo de bolo, hein Marcelo? Vamos falar da sua voz. Na banda, tem um peso diferente. Agora, sozinho com o violão, como fica?
MARCELO – Estou adorando cantar neste formato porque sobra espaço para interpretação. É mais gostoso, parece com cantar no chuveiro (risos). Você pode evocar tudo através do canto. E na banda, a voz é quase uma outra guitarra.
Pelo que vi do show “voz e violão”, acabou virando um karaokê coletivo. Isso te atrapalha?
MARCELO – Tenho dúvida pessoal sobre essa relação. Por um lado, a platéia cantando é um terceiro elemento, vai somando. Não chega a atrapalhar. E penso que é proibido proibir as pessoas de se emocionar. Jamais vou fazer esse papel. Minhas músicas são assobiáveis, cantaroláveis. Isso desde os primórdios do Los Hermanos, nos shows do Empório (bar underground da zona sul carioca). Por isso, aceito tudo que vier.
Como você vai fazer para conciliar show voz e violão, a turnê Toque Dela e a turnê com Los Hermanos, a partir de abril?
MARCELO – Queria ter feito mais voz e violão no verão. Se pintar mais convites, a gente faz. Ainda estou voltando a algumas cidades com Toque Dela. E em abril, ensaio direto com Los Hermanos.
Sinto que você está cada vez mais interessado na linguagem visual. Fotos, vídeos e até mesmo o cartaz de divulgação do show voz e violão. Vai assumir esse avatar de uma vez? (risos)
MARCELO – Vou lançar uma grife. (risos) Foi a Mallu (Magalhães) que fez o camelinho. Tudo que cerca a música, visualmente, é uma eterna descoberta. É um hobby brincar com a imagem.
Isso fica evidente com os vários vídeos que saíram do Toque Dela. É um outro modo de voltar ao disco…
MARCELO – Sabe que eu já cheguei a odiar esse disco? Mas aí, outro dia na rua, um amigo tava ouvindo o disco com fone e quando eu botei nos meus ouvidos, soou tão bem ali na rua. Fiquei tão feliz.
Você pegou bode do próprio disco? Não entendi…
MARCELO – É que a dificuldade não é fazer música. Difícil é fazer algo que eu goste.
E de outros músicos, o que você gosta entre os novos?
MARCELO – O Criolo é uma figura que eu acompanho com muito interesse. Conheci na época em que gravei no El Rocha (estúdio de SP)
Você tem colaborado com Marcelo Jeneci, Wado, artistas de outras cidades.
MARCELO – Sim, e tenho ouvido também o Silva (artista capixaba), gostei muito. Tem aquela (começa a cantarolar um trecho de “12 de maio) “quando ela não está se arrastando pelo som da batucada…” E tem o Cícero que abriu meu show.
Bom, vamos falar de Los Hermanos. Alem da turnê, vai ter livro de fotos, documentário… Ainda sai coisa desse baú?
MARCELO – O filme é iniciativa de outra pessoa, da Maria (Ribeiro, atriz/diretora). Ganhou na insistência, há muito tempo. O livro ainda não é realidade. É uma idéia; se ficar legal…
E no que esse encontro difere dos outros?
MARCELO – Cada reencontro é uma incógnita. Tomara que a gente consiga fazer coisa nova. É como um lance de dados. Temos a missão de atravessar nosso repertório com clareza. Além disso, pode vir um sopro de ideia, que seja música nova, ou do Little Joy (banda do Rodrigo Amarante) ou do Bruno (Medina, tecladista) ou um cover. E vai diferente porque boa parte da plateia vai ver a gente pela primeira vez.
E disco novo, você já está planejando? Ou não tem essa de fazer planos?
MARCELO – Planejo totalmente. Minha mudança foi para isso. Tem que planejar tudo, porque leva tempo pra fazer, gravar, preparar show, turnê. É um acender da vontade. Pra mim, o disco já começou com a mudança de casa.
Em que estágio está este terceiro disco?
MARCELO – Bem inicial. Estou compondo sempre, nunca paro. Agora estou vendo a direção do barco, para onde ele vai.
Falando em planos, você e Mallu tem muita afinidade musical. Já pensaram em gravar um disco em dupla, por exemplo?
MARCELO – (risos) A gente compõe pouco juntos. E temos um respeito pelo momento de composição do outro. Quando eu vejo a Mallu compondo, eu pego o gravador e deixo ali. Mas o dia que a gente puder fazer isso, vai ser muito lindo. Acho que afinidade é o termo. Eu produzo o disco dela; ela canta no meu. Dá pra ver a influencia de um no outro.