Pensa rápido: diga um nome de sambista paulista.? Adoniran Barbosa – vai cravar a maioria. Poucos vão lembrar de Geraldo Filme. Geraldo o quê?
Não disse? Bem poucos. Comparado a sua importância, é uma grande injustiça que Geraldo Filme não tenha o reconhecimento, fora do meio do samba.
Geraldo teve uma vida com tantos capítulos fascinantes que parece ficção. Ah, mas todo sambista tem uma história de vida curiosa, né? A de Geraldo Filme foge do clichê malandro-cabrochas-bandidagem-confusão.
Acompanhe:
Geraldo Filme fez seu primeiro samba aos 10 anos de idade! O motivo: provocar o pai, que só dava bola pro samba carioca. “Pra ser sambista não precisa ser do morro”, decretava em “Eu vou mostrar”. Repito: 10 anos de idade.
A vida de Geraldo e o samba paulista foram se entrelaçando. Sua mãe, doméstica foi acompanhar uma família a Inglaterra. Lá conheceu sindicatos de trabalhadoras. Voltou pro Brasil e fundou uma associação de empregadas domésticas, que depois virou um cordão carnavalesco e mais tarde, a Escola de Samba Paulistano da Glória.
Entregando marmitas que sua mãe preparava, Geraldo ia conhecendo a cidade e dava sempre uma passadinha pelas rodas de samba da Barra Funda. Crescendo com o samba, se tornou compositor e circulava por varias agremiações, mas ficou mais tempo ligado a Vai Vai.
Geraldo era um estudioso, tinha curiosidade nata, pesquisava um tema a fundo para compor. Dizia que era universitário pra freqüentar bibliotecas e arquivos de jornal. “Se falasse que era para fazer enredo, não me deixariam entrar”.
“Felicidade hoje é fantasia/ e o povo canta mesmo sem saber/ que a favela virou poesia/ na boca de quem nunca soube o que é sofrer” (Tristeza do sambista)
Inspirava-se na cidade de São Paulo, atento à sua transformação. Progresso e preconceito. Conhecia bem a formação dos bairros. Cidadãos comuns ou ligados ao samba viravam personagens, em contexto social de viés crítico. Curioso é que, junto com esse lado urbano, ele trouxe o samba rural, pouco valorizado até hoje.
Precoce, pioneiro, conhecedor da cidade e pesquisador autodidata. Pena que suas gravações são raras. Mas o bom mesmo é ver a obra de Geraldo Filme, viva, no palco.
Falando assim, parece que eu sempre estive na cola do “Geraldão da Barra Funda”. Que nada! Neófita total. Fui fuçar a vida do cara depois que a bola quicou na minha área duas vezes.
Primeiro, quando ouvi “Tradição (vai no Bexiga pra ver)” lá no Terra Live Music que reuniu Thobias da Vai Vai e outros bambas. Quem era o autor? Geraldo Filme!
Dias depois, soube da homenagem ao compositor que vai rolar nesse fim de semana. “É Tradição, e o Samba continua” conta com vários interpretes, entre elas, Germano Mathias, a velha guarda da Camisa Verde e Branco, Andréia Dias e a carioca Teresa Cristina.
A direção artística ficou por conta de Rômulo Fróes. A direção musical é de Rodrigo Campos e Kiko Dinucci. Os três integram o Passo Torto e fazem parte da nova geração de compositores paulistas que, sem ser puramente sambistas, abordam o samba em seus trabalhos.
Sobre o espetáculo, eu conversei com o músico Kiko Dinucci.
Como surgiu o convite e como escolheram os convidados?
KIKO DINUCCI – Partiu do SESC, que convidou o Rômulo, que chamou a gente, eu e Rodrigo. Sugerimos alguns cantores e a produção do SESC, outros e chegamos a esse time. Tem desde os mais familiarizados com o trabalho de Geraldo até quem não conhecia como Teresa Cristina, que está encantada com a obra dele.
Como vocês abordaram a musica de Geraldo Filme? Por qual caminho vocês foram?
KIKO – A ideia é mostrar que o Geraldo era mais que um sambista, era um compositor. Porque quando se fala em sambista, tem essa conotação de ser um subgênero. Essa ficha caiu quando começamos a trabalhar nos arranjos, esticamos os arranjos para outros lugares , fora do segmento tradicional do samba. O trabalho do Geraldo Filme permite essa reinvenção.
Na tradição do samba paulista, onde você insere a obra do Geraldo Filme ?
KIKO – Ele tem essa característica única, de refletir a cidade de São Paulo, a cidade oprimindo o sambista. Adoniran, Vanzolini, fazem parte de um ouro momento: ouviram samba carioca, foram influenciados por ele e faziam samba carioca com sotaque paulista.
E o que Geraldo tinha de mais particular?
KIKO – Ele tem uma veia sertaneja, que o paulistano parece ter vergonha. Esse lado caipira, da tradição de viola, de João Pacífico, vai de Geraldo a Mano Brown.
Como assim? Onde está esse lado caipira?
KIKO – No jeito de começar uma música recitando, antes de contar um história, muitas vezes, trágica. Repara.
Tradição, e o Samba Continua
Sexta (31/08) e sábado (01/09) às 21h; domingo (02/09) às 18h
Teatro do SESC Vila Mariana: Rua Pelotas, 141, São Paulo – SP
Ingressos: de R$ 10 a R$ 42,00