Lorena Calabria

DICHAVANDO O CLIPE: “Dos Pés”

4 set

Publicado às 10h46

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É um perigo fazer um clipe explorando a sensualidade. Pra coisa desandar pro mau gosto ou forçar uma barra, são dois segundos. Ainda mais quando a música “pede” justamente o contrário. 
 
Esse é o grande êxito de “Dos Pés”: fugir da delicadeza e do bucolismo da canção, mas aproveitar a paisagem onírica do campo e tensionar a sensualidade até o limite.
 
E o limite é aguçar o nosso voyerismo, mostrando muito pouco, de tudo. Quanto menos, maior o efeito. O suficiente para que a sua imaginação complete a saga dos amantes. 
 
Dirigido por Gustavo Guimarães, o vídeo é um exercício de cinema. As imagens em preto e branco e o “enredo” remete a nouvelle vague, além de referências ao cinema italiano e japonês. 
 
Os “atores” são os próprios autores da canção “Dos Pés”, Bárbara Eugênia e Tatá Aeroplano. E ainda tem participações de outros músicos, Dudu Tsuda e Junio Barreto.
 
“Dos Pés” funciona como trailer de um filme imaginário dos anos 50. Se fosse à vera, eu já ia garantir meu ingresso.
 

 
TRÊS EM UM
 
BARBARA: Queria muito fazer um clipe para esta música, mas ainda não tinha tido nenhuma proposta. Então, o Gus veio com essa ideia e a parceria com a Taísa. Foi perfeito. Não li nada do roteiro, mas as ideias estavam muito maduras na cabeça do Gus. 
 
GUSTAVO: Bárbara é muito sofisticada, vai do popular ao sublime em dois tempos. Bebe uma cachacinha e também um vinho. Eu queria fazer algo em cinema, preto e branco, de época, porque amo o cinema do meio do século XX, especialmente o japonês e italiano. Uma outra amiga, a Taísa Hirsch, que desenha jóias, precisava de um vídeo. Foi dai que juntamos as três vontades. O vídeo é uma fantasia visual que funciona como um trailer de um filme imaginário dos anos 50. A música fala de amor e o clipe é uma explosão de amor, mesmo que contraditória. 
 
DA FRANÇA AO JAPÃO
 
GUSTAVO: As referências cinematográficas são bastante explícitas: Clouzot, Fellini e Antonioni entre os mais conhecidos e os diretores da Nuberu Bagu, a Nouvelle Vague Japonesa: Kaneto Shindo, Shohei Imamura, Nagisa Oshima, Masahiro Shinoda. E também um pouco de cinema novo da primeira fase. Nunca tinha dirigido nada em preto e branco ainda. É uma escolha estética que tem a ver com uma "simplificação" da fotografia, como se ele se baseasse apenas em luz e formas mais básicas, sem que isso represente uma redução. É um exercício minimalista de formas e luz.
 
 
AÇÃO ENTRE AMIGOS
 
GUSTAVO: Este trabalho foi feito em equipe e só foi possível porque muita gente se doou para ele. A junção de Tatá Aeroplano, Junio Barreto, Bárbara Eugênia e Dudu Tsuda foi incrível em si. Ninguém é ator ali, a não ser a Iara Furuse. Dirigir não-atores é diferente, mas não exatamente difícil, uma vez que ali eles não dão textos. Foi uma experiência de cinema mudo. E isso foi uma opção também.
 
CENAS SENSUAIS
 
BARBARA: Foi estranho, mas foi bem sussa de fazer. O Gus é um ótimo diretor e explicou bem como tudo devia ser. Acho que por um lado, fazer com amigos traz mais timidez, mas por outro dá mais liberdade. A gente deu foi muita risada!
 

GERALDO FILME – prazer em conhecer

31 ago

Publicado às 20h18

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Pensa rápido: diga um nome de sambista paulista.? Adoniran Barbosa – vai cravar a maioria. Poucos vão lembrar de Geraldo Filme. Geraldo o quê?
 
Não disse? Bem poucos.  Comparado a sua importância, é uma grande injustiça que Geraldo Filme não tenha o reconhecimento, fora do meio do samba.
 
Geraldo teve uma vida com tantos capítulos fascinantes que parece ficção. Ah, mas todo sambista tem uma história de vida curiosa, né? A de Geraldo Filme foge do clichê malandro-cabrochas-bandidagem-confusão. 
 
Acompanhe:
 
Geraldo Filme fez seu primeiro samba aos 10 anos de idade! O motivo: provocar o pai, que só dava bola pro samba carioca. “Pra ser sambista não precisa ser do morro”, decretava em “Eu vou mostrar”. Repito: 10 anos de idade. 
 
A vida de Geraldo e o samba paulista foram se entrelaçando. Sua mãe, doméstica foi acompanhar uma família a Inglaterra. Lá conheceu sindicatos de trabalhadoras. Voltou pro Brasil e fundou uma associação de empregadas domésticas, que depois virou um cordão carnavalesco e mais tarde, a Escola de Samba Paulistano da Glória. 
 
Entregando marmitas que sua mãe preparava, Geraldo ia conhecendo a cidade e dava sempre uma passadinha pelas rodas de samba da Barra Funda. Crescendo com o samba, se tornou compositor e circulava por varias agremiações, mas ficou mais tempo ligado a Vai Vai.
 
Geraldo era um estudioso, tinha curiosidade nata, pesquisava um tema a fundo para compor. Dizia que era universitário pra freqüentar bibliotecas e arquivos de jornal. “Se falasse que era para fazer enredo, não me deixariam entrar”.
 
 
“Felicidade hoje é fantasia/ e o povo canta mesmo sem saber/ que a favela virou poesia/ na boca de quem nunca soube o que é sofrer” (Tristeza do sambista) 
 
Inspirava-se na cidade de São Paulo, atento à sua transformação. Progresso e preconceito. Conhecia bem a formação dos bairros. Cidadãos comuns ou ligados ao samba viravam personagens, em contexto social de viés crítico. Curioso é que, junto com esse lado urbano, ele trouxe o samba rural, pouco valorizado até hoje.
 
Precoce, pioneiro, conhecedor da cidade e pesquisador autodidata. Pena que suas gravações são raras. Mas o bom mesmo é ver a obra de Geraldo Filme, viva, no palco. 
 
Falando assim, parece que eu sempre estive na cola do “Geraldão da Barra Funda”. Que nada! Neófita total. Fui fuçar a vida do cara depois que a bola quicou na minha área duas vezes
 
Primeiro, quando ouvi “Tradição (vai no Bexiga pra ver)” lá no Terra Live Music que reuniu Thobias da Vai Vai e outros bambas. Quem era o autor? Geraldo Filme!
 

 
Dias depois, soube da homenagem ao compositor que vai rolar nesse fim de semana. “É Tradição, e o Samba continua” conta com vários interpretes, entre elas, Germano Mathias, a velha guarda da Camisa Verde e Branco, Andréia Dias e a carioca Teresa Cristina.
 
A direção artística ficou por conta de Rômulo Fróes. A direção musical é de Rodrigo Campos e Kiko Dinucci. Os três integram o Passo Torto e fazem parte da nova geração de compositores paulistas que, sem ser puramente sambistas, abordam o samba em seus trabalhos. 
 
Sobre o espetáculo, eu conversei com o músico Kiko Dinucci. 
 
Como surgiu o convite e como escolheram os convidados?
KIKO DINUCCI – Partiu do SESC, que convidou o Rômulo, que chamou a gente, eu e Rodrigo. Sugerimos alguns cantores e a produção do SESC, outros e chegamos a esse time. Tem desde os mais familiarizados com o trabalho de Geraldo até quem não conhecia como Teresa Cristina, que está encantada com a obra dele. 
 
Como vocês abordaram a musica de Geraldo Filme? Por qual caminho vocês foram?
KIKO – A ideia é mostrar que o Geraldo era mais que um sambista, era um compositor. Porque quando se fala em sambista, tem essa conotação de ser um subgênero. Essa ficha caiu quando começamos  a trabalhar nos arranjos, esticamos os arranjos para outros lugares , fora do segmento tradicional do samba. O trabalho do Geraldo Filme permite essa reinvenção. 
 
Na tradição do samba paulista, onde você insere a obra do Geraldo Filme ?
KIKO – Ele tem essa característica única, de refletir a cidade de São Paulo, a cidade oprimindo o sambista. Adoniran, Vanzolini, fazem parte de um ouro momento: ouviram samba carioca, foram influenciados por ele e faziam samba carioca com sotaque paulista. 
 
E o que Geraldo tinha de mais particular?
KIKO – Ele tem uma veia sertaneja, que o paulistano parece ter vergonha. Esse lado caipira, da tradição de viola, de João Pacífico, vai de Geraldo a Mano Brown.
 
Como assim? Onde está esse lado caipira?
KIKO – No jeito de começar uma música recitando, antes de contar um história, muitas vezes, trágica. Repara. 
 
 
Tradição, e o Samba Continua
Sexta (31/08) e sábado (01/09) às 21h; domingo (02/09) às 18h
Teatro do SESC Vila Mariana: Rua Pelotas, 141, São Paulo – SP 
Ingressos: de R$ 10 a R$ 42,00
 

BOBBY WOMACK: o sobrevivente

30 ago

Publicado às 11h05

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“Quando cheguei ao estúdio, estavam prontos para me receber. Eles acreditavam em mim, mais do que eu mesmo acreditava”. 
 
O depoimento sincero de Bobby Womack, pinçado do making of do seu novo disco The Bravest Man in the Universe, entrega: os produtores Damon Albarn (Blur, Gorillaz) e Richard Russell (dono do XL Recordings) resgataram algo que andava mais em baixa do que os últimos trabalhos do cantor: sua autoestima.
 
 
Bobby Womack está com 68 anos. Não lançava disco de inéditas desde 94. Com este 27º álbum, evidencia que ainda é umas das grandes vozes da musica negra americana
 
Na verdade, nunca foi apenas uma voz: como compositor e guitarrista, trabalhou com Aretha Franklin, Janis Joplin, Ray Charles, Sly &The Family Stone, só pra citar alguns, além de Sam Cooke, seu padrinho musical. 
 
Sam conheceu Bobby quando este integrava com a família o grupo The Valentinos e o convenceu a trocar o gospel pelo pop. Bingo! Logo logo quem assinaria o primeiro hit dos Rolling Stones, “It’s All Over Bow”? Bobby Womack! 
 
Ele viveu a auge da carreira solo nos anos 70, se afundou na cocaína na década seguinte e tentou um retorno nos anos 90 com o álbum Resurrection
 

 
A reerguida veio mesmo com a ajuda de fãs renomados. 
 
O primeiro sopro saiu do cineasta Quentin Tarantino (sempre ele). "Across 110th Street", que Bobby compôs para a trilha do blaxploitation homônimo dos anos 70, foi reciclada por Tarantino na abertura do filme Jackie Brown
 
Em 2010, foi a vez de Damon Albarn tirar o homem da semi-aposentadoria. Bobby Womack não só participou da gravação do disco Plastic Beach, como saiu em turnê com o Gorillaz.
 
No ano passado, quando recebeu o convite de Damon para gravar um disco inteiro, Bobby “The Poet” Womack já “havia perdido a vontade”. Mas alguma fagulha se acendeu e fez com que a fórmula “ícone + sonoridade moderna” – cada vez mais recorrente – funcionasse. 
 
Damon e Russell criaram a base musical adequada, com batidas eletrônicas que passeiam num terreno familiar a Massive Attack e The XX. Ao se posicionarem como coadjuvantes, nada se sobrepôs ao brilho de Bobby Womack.
 
É nos bastidores que se nota: ele está feliz, se diverte e participa de todo o disco. Não apenas “colocou a voz”. 
 
As letras foram escritas no estúdio e falam do passado, em tom confessional, como na faixa “Please Forgive My Heart”: “Eu poderia tentar pedir perdão, mas só isso não seria suficiente”.
 
Não seria mesmo. Bobby Womack pagou pelos excessos. Abusou da cocaína, saiu limpo depois do rehab mas enfrentou diabetes, pneumonia e, recentemente, câncer de colon. O apelido “Survivor” (sobrevivente) não é a toa
 
Quando ele canta “Eu tenho uma história e quero contá-la”, o que sai da garganta vem imbuído de emoção. Voz potente, que se molda ao gospel ou trip hop, com serenidade.
 
Entre as participações, duas vozes femininas: Fatoumata Diawara, cantora do Mali, e a mais-falada-que-ouvida Lana Del Rey. No dueto com Bobby, seu tom sorumbático fica mais tragável, em contraste abissal com a densidade dele.
 
Interessante mesmo são as vozes sampleadas de Gil Scott-Heron e Sam Cooke. Scott-Heron, que foi produzido pelo mesmo Richard Russell em I’m New Here, de 2010, surge na vinheta-interlúdio da faixa “Stupid”, sobre pregadores oportunistas na televisão.
 
Sam Cooke chama atenção por dois motivos: ele fala de envelhecimento e sabedoria aos 32 anos (!), um antes de ser assassinado (!). E outro, por lembrar que Bobby Womack se casou com a viúva de Sam Cooke, três meses depois da sua morte (!!!).
 
Escândalo que atrasou a carreira de Bobby e não parou por aí. Mais tarde, ao encontrá-lo em situação suspeita com a filha de Cooke, a viúva do cantor disparou contra Womack. Ele escapou dessa, mas sofreu outro baque com o suicídio do filho. 
 
“O homem mais corajoso do universo é aquele que perdoou primeiro”, prega Womack na canção que dá nome ao disco. Entre um acerto com o passado e um passo otimista, The Bravest Man in The Universe é marcado pela coragem de Bobby Womack de seguir em frente, perdoando os próprios erros, sem comiseração.
 
E cantando, muito, como nunca cantou na vida. 
 
 
Bobby Womack - The Bravest Man in The Universe
Lançado no Brasil pela LAB 344
 

3 x 4 com NEY MATOGROSSO

28 ago

Publicado às 12h09

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Ney Matogrosso tem sempre uma novidade. Às vezes, duas, três, ao mesmo tempo. Completando 40 anos de carreira, estrelou a continuação do Bandido da Luz Vermelha, teve sua história contada no documentário Olho Nu e prepara novo disco. 
 
 
A última do Ney foi abrir seu armário. Como assim? Literalmente, as roupas do cantor agora estão à mostra. Está em cartaz desde a semana passada, no SENAC Santo Amaro, a mostra Cápsula do Tempo: identidade e ruptura no vestir de Ney Matogrosso
 
 
São mais de 30 figurinos usados por Ney ao longo de seus 40 anos de carreira, expostos em manequins com as mesmas medidas do cantor. Ou seja, sequinho e elegante.
 
O responsável por organizar a exposição foi o carnavalesco Milton Cunha, que escolheu 30 peças entre as 220 doadas por Ney para o Centro Universitário Senac – que irá criar um espaço permanente com este acervo na biblioteca campus Santo Amaro. 
 
Até o dia 14 de dezembro, quem quiser ver de perto as roupas e adereços que tornaram Ney ainda mais exuberante nos palcos pode ir ao Senac Santo Amaro (Av. Engenheiro Eusébio Stevaux, 823. Santo Amaro – Sul – São Paulo), de segunda a sexta das 9h às 21h; e aos sábados das 8h às 17h. A exposição é gratuita. 
 
Quando eu entrevistei o Ney aqui para o blog, gravei com ele um 3X4 – seção que retrata o artista enquanto gente. Ney falou sobre Dalva de Oliveira, juventude, Roma e a aceitação do envelhecimento. 
 

INDIEpedia: Labirinto

24 ago

Publicado às 10h41

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O Labirinto faz aquele tipo para viajar. Sem um vocal conduzindo a história, cabe ao ouvinte traçar seu próprio enredo em meio às texturas sonoras construídas pelo grupo paulistano.
 
Na sinfonia do Labirinto, se encontram a herança do rock progressivo e a vanguarda do post-rock. Com alguns EPs, faixas em diversas coletâneas e um álbum conceitual, Anatema, lançado ano passado, a banda já excursionou pelos EUA e Canadá e colheu elogios de publicações gringas dedicadas a sons experimentais.
 
Nesta entrevista, Muriel Curi fala sobre a história do grupo, o novo EP, Kadjwyhn, e a Dissenso – produtora, selo e estúdio que mantém ao lado do parceiro Erick Cruxen.
 

(Entrevista por Katia Abreu)
 

Labirinto
 
De onde vem: São Paulo – SP
 
Quem são: Erick Cruxen (guitarra, efeitos), Daniel Fanta (guitarra), Muriel Curi (bateria, synths), Thiago Babalu (bateria), Ricardo Pereira (baixo), Hugo Falcão (guitarra), Luiz Meteoro (synths) e músicos convidados (cello e violino)
 
 
Para quem curte: Enio Morricone, Mogwai e Pink Floyd

perfil do autor

Lorena Calabria

Jornalista cultural desde os anos 80, Lorena Calabria foi editora na Revista Bizz e comandou os programas de TV Clip Clip, Metrópolis e Ensaio Geral. Apresenta o Terra Live Music, toda quinta, às 16h.




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