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Música
Terça, 18 de abril de 2006, 14h38  Atualizada às 14h47
Wynton Marsalis critica política de recuperação de Nova Orleans
 
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Wynton Marsalis é um homem impaciente. O trompetista de jazz acha frustrante acompanhar a política de reconstrução de sua cidade devastada.

Nos sete meses e meio de reconstrução, iniciada após a passagem do furacão Katrina, problemas como contratos inchados e implementação falha do pagamento de salário mínimo só vêm intensificando a frustração, disse Marsalis em entrevista concedida na segunda-feira.

"Eu não esperava que a cidade fosse reconstruída em pouco tempo", disse ele. "É um projeto a longo prazo, após um desastre natural de enormes proporções".

"Mas não gosto do tratamento que vem sendo dado às pessoas: elas não recebem informações, não são priorizadas na agenda da reconstrução. Todo esse dinheiro que o país deu aos habitantes de Nova Orleans não está chegando a eles", acrescenta.

Marsalis, o membro mais famoso da família musical de Nova Orleans, conhece bem as maquinações do processo de reconstrução pós-Katrina, já que integrou a Comissão Trazer Nova Orleans de Volta, criada pelo prefeito Ray Nagin.

A comissão fez recomendações de grande alcance para reerguer a cidade, depois de 80 por cento dela ter sido inundada. A preservação da música e da cultura foi uma parte importante do plano para reerguer a economia local e reconstruir os bairros devastados.

Marsalis, 44 anos, está em sua cidade natal para lançar uma série de master classes e apresentações, na condição de diretor artístico do Jazz at Lincoln Center, de Nova York.

No domingo, a orquestra Lincoln Center Jazz vai apresentar em Nova Orleans a estréia de Congo Square, uma homenagem à cidade, composta por Marsalis e Yacub Addy, líder do grupo africano Odadaa!

Marsalis disse estar otimista quanto à recuperação da cidade, mas preocupado pelo fato de as obras de reconstrução do governo estarem sendo terceirizadas diversas vezes, sendo empreendidas por firmas que evitam pagar o salário mínimo a seus empregados.

Outros escândalos
"Para mim esse tipo de coisa é desonesto e permite que as empresas terceirizadas ganhem pilhas de dinheiro a partir do infortúnio da população", disse ele.

"É lamentável que isso tenha se tornado o jeito americano de operar". Marsalis comparou a situação a outros grandes escândalos financeiros que marcaram a história dos EUA, como o recente colapso da empresa Enron.

"É desanimador para o povo", disse Marsalis, que em duas ocasiões já recebeu prêmios Grammy de jazz e música clássica no mesmo ano.

"Mas o que é animador é a resposta que a população teve. É por isso que eu digo que nossos sistemas não refletem quem somos. Nossos sistemas nos estão decepcionando".

Nova Orleans, a cidade onde o jazz nasceu, hoje tem uma população de 200 mil habitantes, menos da metade de antes do furacão. Alguns bairros da cidade continuam inabitáveis.

A cidade vai emergir profundamente transformada, e Marsalis está trabalhando para preservar seu rico legado musical. Congo Square faz uma homenagem ao ponto de encontro em Nova Orleans onde, no início do século 19, os negros podiam se reunir para cantar, batucar e dançar segundo suas tradições africanas. Consta que a praça (Congo Square) teria sido o berço de boa parte da música americana, marcando a fusão da sensibilidade musical européia com a africana.
 

Reuters

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