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Música
Sábado, 26 de fevereiro de 2005, 10h25 
Los Diaños estréia misturando jazz com hardcore
 
Marcelo Costa
 
Divulgação
Os curitibanos do Los Diaños estão lançando seu primeiro álbum,  Deixe o Suícidio Pra Amanhã
Os curitibanos do Los Diaños estão lançando seu primeiro álbum, Deixe o Suícidio Pra Amanhã
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A proliferação de bandas interessantes em Curitiba nos últimos dois anos promete chamar a atenção do País em 2005. Enquanto a turma do OAEOZ abriu o ano com o inspirado Ás Vezes Céu, e o Terminal Guadalupe dá os últimos retoques no novo disco (Vc Vai Perder o Chão), o quarteto Los Diaños chuta a porta do "night club" e se apresenta com Deixe o Suicídio Pra Amanhã, um álbum potente que aposta na mistura sofisticada de jazz e dixieland com punk e hardcore. O resultado surpreende.

Ouça Meu Docinho com o Los Dianõs

"A proposta inicial era liberdade total de criação nos ensaios. É por isso que as composições têm tantas quebras e influências", explica o vocalista e trompetista RHS, em entrevista por e-mail. "A banda surgiu em 2001. Um amigo de infância me viu na tv tocando em uma banda de surf music instrumental. Ele me ligou e, coincidentemente, eu tinha acabado de sair da banda por problemas de incompatibilidade criativa. Então juntamos mais dois amigos dele e montamos o Los Diaños", relembra.

Segundo RHS, o processo de composição na banda não tem regras nem restrições. As influências vão dos reis do underground americano Reverend Horton Heat aos cariocas do Los Hermanos. "E Squirrel Nut Zippers, Dead Kennedys, Wynton Marsalis, Gene Krupa, Andrew Bird, Catalépticos, NekRomantix, Mike Ness, Frank Zappa, Spike Jones, Social Distortion, entre outras", enumera o vocalista.

A mistura de jazz, bluegrass, mambo, soul ou hillbilly com rock, punk, psychobilly e hardcore ganha um charme a mais com as letras sarcásticas, carregadas de espírito nonsense e de cinismo. O vocal de RHS, beirando o caricato, transforma cada canção em trilha sonora de desenho animado. Doutor Terror tem introdução jazzística, com baixo e bateria fazendo a cama para o trompete. A melodia acelera aos poucos até encontrar o vocal insano de RHS - sobre uma base hardcore - contando a história de um demente que molesta mocinhas inocentes, mas que na verdade só queria um pouco de carinho.

Meu Docinho poderia se encaixar na classe das anticanções de amor rock and roll. Introdução de trompete, passagem porrada até o refrão conquistador: "Vou juntinho de você aonde você for", diz a letra. "Ela mostra bem a cara da banda", acredita o trompetista. "O instrumental tem jazz, rock, quebras, nossas principais características. A letra ironiza a ingenuidade fake de certas músicas 'românticas'. E ironia é outra marca registrada em nossas letras", analisa.

Laurem inicia em clima de faroeste, vira um country rock acelerado e acaba beirando o psychobilly para pregar que "os palhaços camuflados não tem dó". Mínima de Cinco é uma das canções mais empolgantes do disco. Introdução inspirada e explosiva que desemboca em um vocal melodioso enquanto Carne Tatuada tem letra totalmente hardcore e uma passagem de mambo em meio à punkadaria.

O disco vai ficando mais pesado conforme o laser vai "riscando" o CD. O Sétimo Hula-Hula tem algo de apocalíptico na excelente letra enquanto a ironia marca presença nos títulos seguintes, como O Ataque das Mulheres Topeira e Céticos Graças a Deus. Já Toxi tem introdução de narcóticos à la Fell Good Hit Of The Summer, do Queens on The Stone Age, e conclui, no refrão: "A garota que chamo de meu bem é uma toxicomaníaca". A porrada come solta em Atentado Violento ao Pudor e o disco fecha com uma balada (?), ou melhor, A Valsa dos Bêbados Mortos, que acelera no hardcore logo após a introdução tristonha.

Não apenas a qualidade sonora surpreende. O trabalho gráfico do encarte é acachapante e funciona em perfeita sintonia com o som e a proposta do quarteto. Com boa produção assinada por Rodolfo Engelber, que antes trabalhava com jingles, e lançado pela Funeral Music - uma divisão do selo independente de punk rock Barulho Records destinado especialmente ao psychobilly - Deixe o Suicídio Pra Amanhã credencia o quarteto curitibano em sua estréia, principalmente para festivais que tem como base o jazz, como o Tim Festival. "Eu acho a idéia perfeita. Se surgisse o convite, aceitaríamos com certeza. Se você conhecer alguém da organização e quiser dar essa sugestão...", vende o peixe RHS.

Em Curitiba, RHS garante que a turma não sente a ausência de bons shows, mas reclama da falta de profissionalização da cena local. "Há bons shows toda semana, pequenos festivais com boa organização, mas tudo passa bem longe de transformar música própria em profissão. Não há nenhum selo ou festival que revele bandas para o resto do País", lamenta. O Curitiba Pop Festival deve se solidificar neste ano, em sua terceira edição, como um dos grandes festivais do País, e sempre privilegiando a "prata da casa". No entanto, ainda parece que a cidade está longe demais das capitais, como cantavam os gaúchos dos Engenheiros do Hawaii nos anos 80.

O rock potente da Relespública (que está em estúdio gravando o sucessor do badalado As Histórias São Iguais), o pop inteligente da Poléxia, o punk pop do Pelebrói Não Sei, o rockanalha dos Faichecleres, a mistura de Smiths com viola caipira do Charme Chulo, além de OAEOZ, Terminal Guadalupe e Wandula mostram o quão prolífica e variada é a cena musical curitibana, que merece maior destaque no cenário nacional. O Los Diaños estréia já figurando entre os principais nomes da cidade. A porção punk rock hardcore pode até assustar os desavisados, mas o apuro musical se sobressai em um bom disco que parte da mistura do jazz antigo com o hardcore para surpreender, fazer dançar e pogar.
 

Redação Terra
 
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