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Música
Sexta, 12 de março de 2010, 18h47  Atualizada às 19h27
Crítica de música: trabalho em equipe vence guerras e óperas
 
Anthony Tommasini
 
Getty Images
Valery Gergiev é o diretor artístico e geral do Teatro Mariinsky
Valery Gergiev é o diretor artístico e geral do Teatro Mariinsky
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    Valery Gergiev é o diretor artístico e geral do Teatro Mariinsky em São Petesburgo há 22 anos. A orquestra de Mariinsky, uma companhia que transmite tradições, identidade artística e até mesmo instrumentos de geração a geração, criou um laço com Gergiev. Quando as coisas vão bem, a orquestra e o maestro despertam o melhor de si.

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    As coisas foram extremamente bem nas noites de terça e quarta-feira no Carnegie Hall, quando Gergiev liderou a orquestra e o coro de Mariinsky numa apresentação urgente, rica em texturas e envolvente da ópera épica de Berlioz, Les Troyens. O canto dos solistas foi variável. Mesmo assim, uma ética impressionante da companhia, cultivada por Gergiev, incentiva todos os artistas de Mariinsky a trabalhar em equipe, como os solistas vocais o fizeram na apresentação. De fato, dispensando o estrado, Gergiev ficou sobre o palco entre seus músicos ao conduzir a ópera.

    Quando apresentada sem cortes, Les Troyens, concluída em 1858, dura pouco mais de três horas e meia. A divisão dessa ópera de cinco atos em duas partes foi uma decisão pragmática tomada por algumas companhias que a consideravam pesada. A ópera e seu libreto, criado por Berlioz a partir da Eneida de Virgílio, são divididos de modo organizado em Parte 1, A Queda de Troia (Atos I e II) e Parte 2, Os Troianos em Cartago. A apresentação que Gergiev incitou em sua trupe tomou uma forma tão inexorável e uma intensidade tão dramática que teria sido mais envolvente ouvir a ópera em uma única noite longa.

    E a intensidade foi sua qualidade definidora, começando pelo coro de abertura exuberante. Os troianos, tendo suportado um cerco de 10 anos dos odiados gregos, acreditam que finalmente terminaram vitoriosos. Nessa cena de tirar o fôlego, o canto dos coristas de Mariinsky como os troianos exultantes foi robusto e contagiantemente vertiginoso, e a orquestra, tocando com ricas texturas, tons rústicos e brio, levou a energia ao limite. O toque de impulsividade na apresentação foi adequado ao momento, já que os gregos, como os troianos descobrem, criaram uma armadilha.

    O clima muda quando Cassandra, a filha do Rei Priam, conta suas premonições de perigo num solilóquio lúgubre. Gergiev transmitiu a majestade grave da música e incitou um canto dolorosamente expressivo de sua Cassandra (Cassandre), a mezzo-soprano de voz sombria Ekaterina Gubanova. Contudo, mesmo nessa cena de emoções internalizadas, a apresentação de Gergiev teve intensidade: as frases recitativas dramáticas evoluíram em explosões e arrancadas; as cordas orquestrais foram pesadas e prolongadas.

    Durante o Ato III, os cartaginenses, em clima de celebração, cantam louvores a Dido, sua rainha, e os sons radiantes e a intensidade brilhante do coro e da orquestra são avassaladores. Mas é no Ato IV que a condução de Gergiev faz mágica com o sublime e sensual septeto com coro, numa calma cena noturna que é uma das apresentações em grupo mais belas de toda a ópera.

    Embora tenha faltado definição ao canto de Gubanova, seu ardor e honestidade foram cativantes. O destaque foi a poderosa e etérea mezzo-soprano Ekaterina Semenchuk, como Dido (Didon). Sua apresentação não foi a mais refinada, mas sua voz formidável e sua impetuosidade fizeram dela uma combinação perfeita para Gergiev.

    O intimidante papel de tenor de Enéas (Enee) não precisava ser cantado com o fervor heróico que Jon Vickers imprimiu de modo tão memorável. Mesmo assim, o tenor Sergei Semishkur, de apenas 31 anos, não teve peso suficiente para a tarefa. Sua voz é agradável e brilhante, com notas altas sibilantes, e ele certamente se lançou ao desafio. Mas talvez Gergiev tenha designado essa tarefa ao cantor para incentivá-lo.

    Houve outras apresentações solo vencedoras: Zlata Bulycheva como Anna, Irina Mataeva como Ascânio e o tenor de voz terna Dmitry Voropaev como o jovem marinheiro frígio Hylas, que canta uma música melancólica sobre sua distante terra natal. A força desse "troianos" veio das contribuições coletivas da companhia de Mariinsky. Gergiev conduz os cantores e os músicos com dureza, mas eles claramente são dedicados a ele.
     

    The New York Times
     
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