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 Buika, na capa de seu disco anterior |
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Altamente elegante mesmo à distância, em seu latinismo que atravessa geração, fronteiras nacionais e estilos, El Ultimo Trago é um álbum conceitual que transcende o seu conceito. A cantora Concha Buika, que está perto dos 40 anos, cresceu em Maiorca, mas tem origens na Guiné; Chucho Valdes, que está perto dos 70 anos, é um conhecido pianista cubano. E no disco os dois lidam com um repertório que tem mais de meio século de idade: canções associadas a Chavela Vargas, uma cantora mexicana que ganhou fama com o estilo ranchero.
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Buika está no mercado há muito tempo; gravou vocais para faixas de house music e foi imitadora de Tina Turner em Las Vegas. Mas os três discos experimentais de flamenco que gravou com o produtor e músico espanhol Javier Limon, de 2006 para cá, parecem tê-la firmado. Ela usa o estilo jondo de flamenco ¿ dinâmico, microtonal, altamente emotivo- e acrescenta elementos pessoais. Sua voz é rouca, imperiosa e sutil, e lembra um pouco a de Nina Simone, mas com maior domínio técnico.
Vargas, que ainda está viva, foi uma heroína cultural nos anos 50 e 60, devido ao seu estilo vocal cáustico e volátil e à sua franqueza sexual. Ela transformou as implicações das canções rancheras, que foram compostas para serem interpretadas por homens, e Buika e Valdes as transformam ainda mais, acrescentando elementos cubanos e espanhóis de rumba, cha-cha-cha e flamenco. A sessão de gravação, em Havana, aparentemente levou apenas dois dias. É difícil acreditar, se considerarmos como é grande a mudança nessas músicas.
Valdes toca um piano limpo e poderoso, com acompanhamento de uma banda básica formada por um baixista e dois percussionistas, e mais a ajuda ocasional de um trompete e de um violão flamenco. Ele dita a atmosfera harmônica da canção e faz solos floridos mas curtos. Já Buika é admirável em cada verso. As primeiras três palavras que canta em El Andariego o irrequieto, uma canção de amor perdido e arrependimento, Yo que fui (eu que parti) estabelecem de imediato o impacto emocional e o ritmo balançado. Em certos momentos, ela estende sua poderosa voz até quase o limite de ruptura, como no refrão de "Se Me Hizo Facil".
Há momentos explosivos como esse em diversas faixas de El Ultimo Trago, entre os quais a faixa título, gravada apenas com voz e piano. O canto de Buika pode se tornar tão intenso que, apesar de sua qualidade, o ouvinte ocasionalmente se sente sentado a fazer uma pausa para tomar fôlego. Mas até isso representa fidelidade à fonte, porque o mesmo se aplica aos vocais de Vargas.
O que distingue Buika é sua disciplina, sua capacidade de chegar bem perto do exagero emotivo sem tropeçar. E sempre que as canções parecem caminhar para um derrame emocional, os arranjos de Valdes servem como um sutil anteparo. Não se preocupa: você vai conseguir chegar ao fim. E valerá a pena.
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