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Música
Terça, 31 de agosto de 2004, 06h58 
Picassos Falsos retorna após 16 anos de silêncio
 
Ruí Mendes/Divulgação
A banda Picassos Falsos retorna após 16 anos com o álbum  Novo Mundo
A banda Picassos Falsos retorna após 16 anos com o álbum Novo Mundo
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Após 16 anos de silêncio, os cariocas do Picassos Falsos retomam a banda. Existem, grosso modo, duas maneiras de uma banda que teve um passado glorioso retornar as atividades. A primeira é a mais comum: a banda grava um disco ao vivo, requentando sucessos do início da carreira para disfarçar a falta de criatividade. A segunda é bem mais rara: a banda se reencontra, vê que ainda existe algo a ser dito, que existe sintonia, entra em estúdio e lança um grande álbum de inéditas após anos e anos separados. Para felicidade geral, o Picassos pertence ao segundo grupo.

Ouça três músicas do novo disco do Picassos Falsos

Novo Mundo, terceiro disco do quarteto, reescreve por sambas tortos a trajetória de uma das principais bandas cariocas da segunda metade dos anos 80. Entre o disco novo e o clássico Supercarioca se vão 16 anos, mas o famoso coquetel de samba, rock e soul volta fervilhando. Porém, o que era rock nos anos 80 (ou "explosão", como definiu Humberto Effe em conversa por telefone), virou calmaria no novo século ("maturidade", nas palavras do vocalista). "As canções estão melhores agora", acredita Humberto.

A banda estava cogitando o retorno já há alguns anos. "Eu e o Gustavo (guitarra) sempre nos encontramos aqui e ali, tocávamos juntos, mas quem tomou a iniciativa de reunir o grupo foi o Abílio (bateria)", explica o vocalista, contando que a banda teve a calma para esperar o momento certo do retorno. "No final dos anos 90 teve um revival dos anos 80 e achamos que não seria o momento ideal", acredita. Um dos motivos para o retorno foi a constante menção a Supercarioca em reportagens sobre bandas que usaram as influências e as tradições com rara inteligência. "Nós fizemos coisas que não se faziam na época. Ninguém tocava samba. O rock queria se afirmar e samba era fora de moda, e nós aparecemos citando Ismael Silva e Noel Rosa", relembra.

Não à toa, o pessoal do mangue-beat sofreu grande influência dos cariocas. A brasilidade (ou a "tradição", como gosta de frisar Humberto) era uma barreira para as bandas dos anos 80 e o Picassos enfrentou esse obstáculo com muita personalidade: letras carnavalescas embaladas pela batida do pandeiro, riffs de guitarra e citações de Noel Rosa (O Último Desejo em Marlene), Led Zeppelin (Whole Lotta Love em Sangue) e Jimi Hendrix (Third Stone From The Sun em Bolero). Após Supercarioca, misturar samba com rock deixou de ser algo tão alienígena quanto imaginava o pessoal da época. Tempos modernos: de Otto a Mombojó, passando por Mundo Livre S/A, Wado e chegando ao Los Hermanos, todos carregam um pouco do brilho de Supercarioca.

Das 12 novas faixas, Humberto assina quatro em parceria com o ex-Barão Vermelho Dé Palmeira. "São canções mais antigas, que a gente compôs não pensando em gravar. Eu não esperava gravar essas músicas em um disco meu e elas deram uma cara particular ao trabalho. Elas não surgiram para estar ali, mas se encaixaram perfeitamente", diz o letrista que assinou trabalhos com Frejat, Skank e um trilha sonora com Dado Villa-Lobos durante o tempo de 'descanso'. Uma cover das antigas também marca presença no disco: Me Diga Seu Nome, samba de Ismael Silva, Nilton Bastos e Francisco Alves, datado de 1931. Se ninguém dissesse que era um cover, passaria desapercebido. "É que ficou a nossa cara. Daria para se fazer um disco inteiro com músicas dos outros, mas com a nossa cara", acredita.

Você Não Consegue Entender abre o disco com a voz à capela para desembocar em um samba funk de primeira, com um solo pesado de guitarra marcando presença. "Os meus olhos ficam procurando / O que no mundo todo mundo quis olhar", diz a boa letra. Porta-Bandeira é, claro, um samba, e remete diretamente ao mundo de Supercarioca. Presidente Vargas, uma das grandes canções do disco, lembra moda de viola na abertura ("Sertanejo?", pergunta Humberto Effe tentando entender a conexão viajandona do jornalista) e se transforma em um xaxado. O refrão, pop com guitarras, diz: "Não há luar como esse do sertão / Nem sol que arde como em Itapuã".

"Rua dos Desequilíbrio é um samba tradicional", observa Humberto. O bandolim dá um brilho especial à canção que cita o chorinho Flamenguista, de Pepel Gomes. Zig Zag 2 é um dos melhores momentos do letrista Humberto Effe no disco. "Como pode haver razão na cabeça de quem vende munição", canta o vocalista sobre uma base que namora o jazz. O Filme é co-irmã da anterior enquanto a faixa título é uma bela balada ao violão. Até Onde For Seguir é um rock balada suave e o samba volta a marcar presença na ótima Pra Deixar de Ficar Só, com refrão irresistível. "Devo parar de procurar outra pessoa / Pra deixar de ficar só... à toa". A versão para Me Diga Seu Nome só foi finalizada com o sampler. "Eu levei a música em um ensaio. Toquei no violão, mas não conseguimos encontrar um bom arranjo. O Gustavo montou tudo no sampler e ficou ótima", explica Humberto.

Para o final, a única música realmente rock and roll do álbum, Eletricidade. Comento com o vocalista que, em comparação com a 'explosão' de Supercarioca, achei Novo Mundo um disco bem mais calmo. "Acho que isso é fase, é momento", responde o músico. "Daqui a pouco eu enlouqueço e o som vai ser outro", brinca. Nos shows, repertório antigo e novo se funde. "Tem show em que o público canta todas as antigas e, em outro, presta muito mais atenção nas novas", conta o cantor.

Novo Mundo está sendo lançado pela gravadora independente Psicotrônica, que deve colocar no mercado os segundos discos de Cris Braun (ex-Sex Beatles) e Tony Platão (ex-Hojerizah). Aproveito e pergunto se Humberto aprovou as versões que Marina e Tony fizeram para Carne e Osso, do primeiro disco do Picassos Falsos. "Eu adorei a cara que eles deram para a música. Disse isso a eles. Seria difícil tentar repetir o clima que conseguimos e eles optaram por outra coisa", analisa Humberto sobre uma de suas melhores canções, quiçá uma das dez melhores músicas do rock nacional dos anos 80.

Para o final, a pergunta inevitável: vocês não cogitaram voltar com um disco ao vivo? "Não, de maneira alguma. Seria falso. A gente não toca junto há tanto tempo, se encontra e lança um disco com músicas antigas? Não ia dar. São músicas nossas, mas é um outro contexto. Temos completa liberdade, construímos isso. Até podemos lançar um disco ao vivo no futuro, se ele se encaixar no momento da banda. Esse não era o caso agora", encerra.
 

Redação Terra
 
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