| Divulgação |
 A banda OAEOZ |
|
|
 |
Busca |
|
Busque outras notícias no Terra:
|
 |
|
Ivan Santos é jornalista, músico e agitador cultural em Curitiba. Trabalha no Jornal do Estado, dividindo seu tempo entre a banda OAEOZ e seu selo independente, De Inverno Records. O De Inverno já lançou alguns dos bons discos da nova safra de bandas de Curitiba, além de reunir grupos da cidade ao lado de nomes de importância de outros estados em um festival homônimo. Nesta entrevista, Ivan faz suas apostas pessoais, fala de sua banda, analisa as rádios e os espaços para show em Curitiba, e declara: "Eu diria que santo de casa em Curitiba tem que fazer sim, muitos milagres, mas por si mesmo".
Ouça a música Frente Fria com a banda OAEOZ 
Especial Rock de Curitiba
P - Ficou muito famoso nos anos 80 o título do primeiro álbum dos Engenheiros do Hawaii, que dizia Longe Demais Das Capitais. Vocês se sentem assim, sendo de Curitiba?
R - Eu diria que em certo sentido, a gente está é perto demais, o que dificulta o desenvolvimento de uma identidade cultural própria. O curitibano, em geral, não dá bola para a produção cultural da cidade, preferindo consumir o que vem de fora.
P - Quer dizer que as rádios de Curitiba são como as de SP/RJ?
R - Via de regra, a programação das rádios de Curitiba é uma simples mimetização das do eixo Rio-SP. Entretanto, alguns espaços específicos se abriram em três emissoras: a rádio Educativa FM (do Estado); a 96 FM (rádio rock) e a Transamérica. A rádio Educativa tem aberto muito espaço para artistas locais (não só de rock, mas também de mpb, jazz, instrumental, etc). Também a 96 FM (a autodenominada rádio rock) dirigida pelo Helinho Pimentel (ex-Estação Primeira) criou um projeto chamado Geração Pedreira, que passou a abrir espaço sistemático na programação da rádio para as bandas locais, divulgando shows, tocando as músicas, etc. Na Transamérica, quem abriu espaço foi o Mauro Mueller, locutor, produtor e também músico que tem tocado som de bandas locais independentes em seus horários. Fora isso, o que rola mesmo é o que você escuta nas rádios de qualquer capital brasileira.
P - Como é ter uma banda em Curitiba? O que a cidade influi na musicalidade?
R - Depende muito do tipo de banda a que você se refere. Wandula e Djambi são duas bandas da cidade, mas uma não tem nada a ver com a outra. Sempre digo que Curitiba não tem uma cena, mas várias cenas paralelas, que convivem (ou não) de forma estanque, em geral sem intercomunicação. Isso tem mudado um pouco nos últimos tempos, mas ainda é a regra. Exemplo - as bandas de reggae (caso do Djambi) e hardcore têm grande público cativo e mercado garantido. Eles até podem sobreviver de seu trabalho musical. Já os grupos mais difíceis de se classificarem ou encaixarem num determinado segmento, penam e dependem de esforço próprio para conquistar espaço.
P - Santo de casa realmente não faz milagre? Mas há, podemos dizer, uma cena na cidade, certo?
R - Eu diria que santo de casa em Curitiba tem que fazer sim, muitos milagres, mas por si mesmo (risos). A cena existe sim e não é de hoje. O problema é que não faz parte dos hábitos das pessoas valorizar o que é produzido aqui. Mas isso paulatinamente vem mudando graças à insistência/persistência das pessoas que produzem, dos músicos, das próprias bandas e de uma abertura maior de espaços na mídia local.
P - A cena curitibana sempre foi muito underground. Por quê? Ou vocês andam fabricando bandas legais que o grande público desconhece?
R - Eu acho que sucesso é um termo subjetivo e uma situação circunstancial. Realmente, não houve nenhuma banda daqui que tenha conseguido sucesso de público em âmbito nacional. Mas isso diz muito mais sobre o subdesenvolvimento da própria indústria cultural do País do que sobre uma incapacidade da cidade em produzir bandas com potencial pop. Muitas das bandas daqui de outros tempos e de hoje poderiam perfeitamente estar tocando no rádio e atingindo o grande público. Só que é de conhecimento geral, as rádios e a indústria fonográfica estão fechadas para coisas novas.
P - E esses grupos de reggae sobrevivem tocando material original ou é necessário fazer cover?
R - Olha, não é um meio que eu conheça pessoalmente, mas pelo que sei já existe, sim, uma série de grupos que estão tocando material próprio, apesar de continuarem também, principalmente ao vivo, tocando versões de standarts do gênero.
P - Como estão os espaços de shows na cidade?
R - São muito variáveis e há uma grande instabilidade. Há alguns espaços já consolidados, cujo exemplo mais simbólico é o 92 graus, tocado há mais de dez anos pelo JR Ferreira, e nascedouro da cena que surgiu no início dos anos 90. Lá até hoje tem shows vários dias por semana, o ano inteiro. O problema é que muitas vezes falta divulgação e o equipamento de som é precário. Atualmente existem vários outros espaços, em geral em bares, com estruturas e condições bastante variáveis. De uma forma geral, eu diria que atualmente não faltam lugares para tocar, mas as condições são bem variáveis e na maioria dos casos os grupos arcam com a maior parte das necessidades da produção - divulgação, equipamento, etc.
P - Quando surgiu a De Inverno?
R - O selo De Inverno Records nasceu como conseqüência natural do festival Rock de Inverno, criado por mim (Ivan, da banda OAEOZ) e minha garota, Adriane Perin (que é jornalista). Quando começamos com o OAEOZ, em outubro de 1997, o que dominava o rock brasileiro eram os pastiches de rock regional ou funk hardcore metal de um lado e o pop vazio de outro. No underground, a cultura do indie-guitar, ou do psicobilly/hardcore. Não nos encaixávamos em nenhuma dessas categorias e inicialmente nos sentíamos meio sozinhos, espécie de "patinhos feios" da cena. Com o tempo, fomos conhecendo outros grupos surgidos na mesma época com o qual nos identificávamos e tínhamos afinidade. Daí a idéia do festival, que teve a primeira edição entre os dias 8 e 10 de junho, na extinta casa Circus. Já no primeiro, editamos uma coletânea com uma música de cada banda, para ser distribuída junto com o press-kit. Após a segunda edição, quando já tínhamos lançado também o disco Dias do OAEOZ, veio a idéia de "oficializar" essa produção fonográfica através da criação do selo.
P - Quantas bandas a De Inverno já lançou? E como tem sido a receptividade do público?
R - Ao todo temos onze títulos lançados, sendo 9 CDs e 2 vídeos. Além disso, distribuímos os cds lançados antes da criação do selo, como o Dias, do OAEOZ, e as coletâneas Rock de Inverno e Rock de Inverno 2, além do vídeo com as gravações ao vivo do Rock de Inverno (1ª edição). Pode se dizer que as bandas que são parte do catálogo do selo, por enquanto, são o OAEOZ, o Cores D Flores e o Sofia. Em geral, a receptividade tem sido muito boa. As três edições do festival tiveram casa cheia, e os shows que produzimos, na maioria das vezes, também tem tido bom público. Quando as pessoas têm a oportunidade de conhecer, ouvem e gostam.
P - Você tem uma banda, OAEOZ. A influência é Mutantes mesmo? Quanto tempo tem a banda?
R - Não. Na verdade o nome foi escolhido assim. Eu, o Igor e o Camarão, junto com o Eduardo (violino) já ensaiávamos há alguns meses quando pintou o primeiro show e não tínhamos um nome. Eu e o Igor fizemos uma lista, fomos riscando, sobrou esse e mais outro que foi descartado. Ficou OAEOZ, mas a idéia era muito mais uma homenagem ao Arnaldo Baptista do que propriamente aos Mutantes. Gosto de Mutantes, mas particularmente me marcou mais os trabalhos solos do Arnaldo (Lóki, Sing Alone), e os discos dele com a Patrulha do Espaço. Mas não somos uma banda retro-setentista. Pelo contrário, as principais influências do OAEOZ inicialmente foram bandas dos anos 90, como Mercury Rev, Morphine, Tindersticks, além de Fellini, jazz (Chet Baker, Coltrane) e por aí vai. A banda começou oficialmente em outubro de 1997, mas eu já vinha compondo com o Igor desde pelo menos 1994/95. Chegamos a ter antes um projeto chamado Dusty, do qual participava ainda o Rubens K, e que só fez duas apresentações ao vivo.
P - Mercury Rev, Morphine, Tindersticks são bandas de som bastante denso e que se pode perceber influenciando também o trabalho da Edith no Wandula e o Svetlana. Não sei, posso até estar errado, mas o frio curitibano aproxima vocês desse tipo de sonoridade?
R - De certa forma sim, mas isso não pode ser aplicado como regra geral. Realmente existe determinado "segmento" da cena curitibana cujo som tem características mais "intimistas/introspectivas" tanto na forma quanto no conteúdo, como é o caso das bandas que você citou. Se bem que em relação ao OAEOZ, essas influências citadas foram uma referência inicial, que com o tempo se desdobraram em muita coisa diferente. Além disso, apesar de termos influências "estrangeiras", também temos uma porção bem "brasileira", sem que isso signifique folclore ou antropologia. É bom destacar ainda que no OAEOZ, as referências de cada integrante são bastante distintas. Eu, por exemplo, gosto muito do rock brasileiro independente da segunda metade dos anos 80, como Fellini, Mercenárias, Vzadoq Moe, Sexo Explícito, 3 Hombres, etc. O Camarão (baterista) já é mais ligado em MPB e jazz. O Rodrigo tem um background mais voltado para o punk rock e o André Ramiro é o lado mais "indie". Voltando à questão principal, Curitiba tem sim bandas com um som que poderia ser classificado de "invernal" ou "outonal" o que é compreensível quando se pensa no clima e na própria natureza étnica da colonização da cidade. Afinal, como diz um ditado brincalhão, Curitiba é o melhor lugar do mundo para se esconder no carnaval. Mas não dá para colocar isso como regra, pois a cidade tem também muitos grupos que fazem música totalmente for fun, como Pelebrói não sei ou aaaaaamalencarada, e até grupos mais ligados ao samba mpb que são exatamente o oposto disso.
P - Você, trabalhando com um selo e armando festivais, deve conhecer bem a cena da cidade. Então, diga para nós quais as bandas que mais se destacam?Quais as suas preferidas e quais aquelas nas quais você apostaria?
R - Das mais recentes, gosto muito do Criaturas. Eles fazem um som calcado em sonoridades sessentistas, mas sem aquela ranço retrô-regressivo comum a grupos do gênero. O Poléxia também me agrada muito com um som que une pop, indie rock e romantismo em doses certas, riffs ganchudos e canções perfeitas. Tem também o setor dos "minimalistas" - Wandula, Poli e Svetlana. Os dois primeiros lembram trilha sonora de filme europeu. Sem falar na Edith, vocalista do Wandula e do Svetlana, que acaba de lançar seu segundo cd solo, tão maravilhoso quanto o primeiro. E é claro, gosto muito do Sofia e do Cores D Flores. Tem ainda o Loxoscelle, que reúne um time de supermúsicos. É um som que une violões de doze cordas e riffs de guitarras, numa praia mezzo Alice in Chains/Soundgarden, sem cair no pastiche. O Zigurate é mais na praia do gótico/art rock. Tem o Trio Quintina. O ESS - eletrônico indie rock. Tem o que faz um som bem jazzy/groove, com letras de inspiração beat. Enfim, tem pra todos os gostos. Acho que uma das grandes qualidades da cena de Curitiba hoje é justamente essa diversidade.
|