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Música
Sexta, 21 de novembro de 2008, 13h39  Atualizada às 13h48
"Tudo que tenho de sobra é tempo", canta Axl Rose em nova música
 
Jon Pareles
 
EFE
Axl Rose lança novo álbum
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"Tudo que tenho de sobra é tempo", canta Axl Rose na faixa-título de Chinese Democracy, e ele deve saber o que as pessoas pensam sobre o verso, a essa altura.

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Rose, 46 anos, o único membro remanescente da formação original do Guns N'Roses, precisou de 17 anos, mais de US$ 13 milhões (em valores de 2005) e de um batalhão de músicos, produtores e consultores para realizar Chinese Democracy, o primeiro álbum com canções inéditas do Guns N'Roses desde 1991.

O disco sai oficialmente no domingo e estará à venda apenas nas lojas da rede Best Buy. (Mas, em outro sinal de acomodação com o século 21, a melhor canção do novo álbum, Shackler's Revenge, foi lançada inicialmente em um videogame Rock Star 2.)

Chinese Democracy é o Titanic dos álbuns de rock - e estou falando do navio, e não do filme, se bem que, como o filme, ele represente uma monumental produção de estúdio. É descomunal, grandioso, obsessivo, avançado tecnologicamente e, de forma muito evidente, representa o final de uma era.

Em suas 14 faixas há vislumbres de ferocidade e desespero sinceros, bem como momentos de talento musical notável. Mas eles ficam submersos sob inumeráveis camadas de interferência de estúdio e por um tom de autopiedade acumulada. O disco termina com uma sucessão de cinco baladas bombásticas.

Chinese Democracy parece ser o ruidoso último suspiro do reino em que todas as vontades dos astros pop eram atendidas, do tipo de músico cujo estrondoso sucesso inicial valia audiências leais, royalties generosos, ambições desmesuradas e prazos perigosamente flexíveis. A indústria fonográfica do século 21 é mais enxuta e vulnerável, e a probabilidade de que nutra perfeccionistas erráticos é muito menor. (Rose pelo menos foi mais rápido que Kevin Shields, do My Bloody Valentine, que voltou a excursionar este ano mas ainda não conseguiu lançar um álbum para suceder Loveless, de 1991).

O novo paradigma do rock, que recua aos anos 50 e ao começo dos anos 60, é gravar mais rápido, a menor custo e com mais freqüência, e depois sair em turnê antes que a nova sensação descoberta no YouTube distraia a atenção dos fãs potenciais.

Chinese Democracy é um evento antigo a ponto de tornar impossível que qualquer que fosse o disco lançado sob esse título cumprisse as expectativas e o satisfizesse o fascínio acumulado durante duas décadas.

Appetite for Destruction, o disco de estréia do Guns N'Roses, lançado em 1987, vendeu 18 milhões de cópias nos Estados Unidos. A banda original, especialmente o duo de guitarristas com Slash nos solos e Izzy Stradlin na base, colaborou para criar uma combinação básica de glam, punk e metal por trás da voz feroz e abrasiva de Rose, que podia salvar de um grunhido em barítono a um grito agudo e feroz.

Cantando sobre sexo, drogas, bebidas e estrelato, Rose foi uma história de sucesso, da pobreza à MTV, que marcou os anos 80 - um astro que se descreveu como vítima de abusos quando criança, nascido no coração dos Estados Unidos, que saiu de Indiana e se reinventou como um dos maiores astros do rock em Hollywood, carismático e instável, e sempre declaradamente incontrolável.

Em meio a turnês, aos problemas dos membros da banda com drogas e a relacionamentos de Rose com modelos, o Guns N'Roses lançou um EP e depois os multimilionários álbuns Use Your Illusion, volumes 1 e 2. Esses discos foram seguidos por uma coletânea desanimada de covers punk, The Spaghetti Incident?, de 1993, antes que a banda se dissolvesse, deixando Rose no controle da marca Guns N'Roses. Era evidente que a nova versão da banda seria muito diferente, mas Rose ainda parecia ter muito a dizer.

Ele vem anunciando o lançamento iminente de Chinese Democracy desde pelo menos 199, e tem cantado boa parte das canções do disco em turnê desde 2001. Gravações piratas ao vivo e versões de estúdio inacabadas circulam online e destruíram parte da surpresa quanto apo novo disco. Mas Rose continuou trabalhando, regravando e alterando canções ano após ano. A lista de créditos do disco menciona 14 estúdios.

Rose vem há anos sendo definido como uma espécie de Howard Hughes do rock - uma queixa que o seu então agente já fazia desde 1991. Mas isso não é necessariamente prejudicial, já que isolamento e obsessão deram origem a canções excelentes. No entanto, embora Chinese Democracy seja um produto notável da indústria do excesso, os resultados deixam a desejar. A versão de Rose para o Guns N'Roses, formada por acompanhantes que ele pode contratar e demitir, e não por verdadeiros parceiros, deixa descontrolados os piores impulsos do líder.

O Guns N'Roses continua a ser uma empreitada colaborativa; as faixas do novo álbum são creditadas a Rose e a diversos dos músicos que passaram pela banda desde a metade dos anos 90. Os guitarristas Buckethead e Robin Finck, o baixista Tommy Stinson e os bateristas Josh Freese e Brain conduziam Rose no caminho do rock, e outros instrumentistas facilitavam seu trabalho em baladas.

Se comparadas ao repertório do antigo Guns N'Roses, as composições atuais de Rose se inclinam mais à pompa de November Rain do que à força rítmica de Welcome to the Jungle ou às linhas de guitarra inovadoras de Sweet Child o' Mine. A única canção de Chinese Democracy composta apenas por Rose, This is My Love, é de longe a faixa mais sentimental do disco, com uma homenagem, no vocal em vibrato, a Freddie Mercury, o vocalista do Queen.

Enquanto Rose lastima o amor perdido ou promete que enfrentará a vida em seus termos, sem aceitar compromissos, a música de Chinese Democracy flui ruidosamente em torno dele, frenética e quase desprovida de espaço para respirar. É difícil conceber o autor da maneira que as canções parecem propor ¿um anti-herói lutando sozinho contra o mundo- quando ele parece estar dividindo a trincheira com um elenco de milhares de colaboradores.

Tradução: Paulo Migliacci
 

The New York Times
 
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