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Leandro Sapucahy tem um CD prontinho. O problema é que ele não está pronto para lançá-lo. Acha que Cotidiano, seu álbum de estréia como cantor e compositor, de 2006, ainda merecia um ponto final.
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Contra a vontade da gravadora, arquivou o tal disco novo, e investiu do próprio bolso R$ 320 mil na confecção de Favela Brasil (Warner), DVD que chega esta semana às lojas e é uma versão em 3-D do trabalho anterior.
"Não queria ir adiante sem esse registro ao vivo.Chamei meus amigos favelados para coroar este disco. Foram eles que abraçaram minha música", agradece Leandro, em entrevista à base de refrigerante no tradicional restaurante Nova Capela, na Lapa.
Ali perto, porém, o pessoal pegou pesado no dia 8 de maio, data em que gravou o DVD na Fundição Progresso. "A intenção era deixar 'nego' à vontade, como se estivesse numa festa no morro. Resultado: no meio do show tinha 50 pessoas em cima do palco e a cerveja que estavam tomando simplesmente acabou", recorda. Ao seu lado, a irmã Lilian completa. "Tive que correr na rua para comprar mais", diz.
A intenção de Leandro era reproduzir uma favela na Fundição. Mas só no dia do show o inventivo cenário de Zé Carratu ganhou o colorido dos morros cariocas. "Faltava um par de tênis nos fios, jogamos lá. Espalhamos umas pipas, foi ficando legal", conta Leandro.
Convidada para dirigir o show, que incluiu a atuação de atores do grupo Nós do Morro nas lajes de mentirinha, Regina Casé ajudou a dar o toque informal à noite. "Os músicos iam chegando arrumadinhos - era dia de show, né? - e a Regina ficava: 'trata de arrumar um chinelo, uma bermuda, porque assim você não toca!'", ri.
Quando o samba rolou, a descontração não anulou as letras politizadas do artista, seu principal ponto de conexão com o público, ele acredita. "O mercado diz que eu não vou a lugar nenhum, mas minha música de cinco minutos (Numa Cidade Muito Longe Daqui) tocou à beça nas rádios. Como disse o Seu Jorge, 'a gente não quer ter um sucesso, quer fazer uma discografia'", cita.
Mas Leandro sabe que está "na marca do pênalti o tempo todo". Por isso, quando mostrou o DVD pronto para os diretores da Warner, mal podia respirar. "Se eles não gostassem, iam arquivar o DVD e lançar o CD de inéditas. E eu ia perder R$ 320 mil. Mas quando eles viram, ficaram chapados", conta. A irmã quase chora. "Quando lembro disso me arrepio toda", diz, e mostra o braço. Estava mesmo arrepiado.
O Lula continua balançando a pança
Leandro diz que fez Favela Brasil para combater preconceitos e rótulos como o da "cidade partida". "No Rio não tem isso. Quase todos os presos do Rio têm visual igual ao meu, cabelo curto e tatuagem. Mas não dá para rotular ninguém", diz.
Em seu disco, ele aproxima o samba do hip hop e do funk, com as presenças dos MCs Marechal e Marcinho. "O funk e o samba são a diversão do pobre. Por mais que sejam contra, essas duas culturas andam juntas", diz.
Leandro está tão longe do samba que cultua ícones como Noel Rosa quanto do pagode romântico que produziu por anos. "Cansei de me irritar. Achei que ia mudar o mundo, ia ser o Quincy Jones do pagode, mas os moleques e a gravadora só queriam saber da grana", lamenta. Ele também não se vê na noite interpretando Cartola. "Cartola é ótimo, mas você tem que fazer sua história. Quem canta música dos outros faz baile, não dá show. Esses sambistas de apostila, 'autoridades', não sabem dar 'sacode' em Caxias", desafia.
No DVD, Leandro provoca o presidente em Aquele Abraço: "O Lula continua balançando a pança/ E passeando e viajando e comandando a massa", canta. Arlindo Cruz e Leci Brandão cantam com ele no show. Das músicas novas, Fui Bandido e Bicho Solto aprofundam sua verve de denúncia social. "Vou continuar fazendo minha música. Eu canto para quem quer me ouvir".
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