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Música
Segunda, 22 de setembro de 2008, 17h41  Atualizada às 17h59
Tio e produtor de Cássia Eller conta segredos da cantora
 
Mario Marques
 
Divulgação
Cássia morreu aos 39 anos, dois dias antes do réveillon de 2001
Cássia morreu aos 39 anos, dois dias antes do réveillon de 2001
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"Oi, tio". Essas duas palavras, puídas em voz arranhada, acompanhadas de um tapinha troncho nas costas do sujeito, no Bar Avenida, em Pinheiros (São Paulo), tiraram a vida dos dois personagens do preto e branco. Na cadeira, sentado, estava Wanderson Clayton (Eller). Em pé, atrás, à espera do abraço, Cássia Eller.

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Em 1987, ele era roadie-produtor do grupo 14 Bis, tio da moça então desconhecida e tinha 29 anos; ela dava pinta em botecos paulistas, colecionava 26 anos e era a sobrinha desgarrada do pai militar.

O esbarrão boêmio mudaria a vida do dois, três anos depois. Até Cássia lançar o primeiro disco, em 1990, Wanderson trabalharia obcecadamente para provar que ela viraria a maior cantora do país.

Desde sua morte, a 29 de dezembro de 2001, o produtor (e tio) se trancou em silêncio em seu apartamento na Barra, Zona Oeste do Rio, com suas 2 mil fotos, 200 horas de gravações inéditas e a (valiosa) história particular com Cássia.

"Fiquei assustado quando a vi cantar, fiquei chocado com o que ouvi. Aí ela falou: 'Poxa, você gostou, tio? Me arruma um emprego num boteco aí!'. E eu: 'Que boteco, garota! Vou transformar você na maior cantora do país', afirma o produtor, emocionado.

Após uma primeira gravação, Wanderson levou uma fita cassete para o diretor artístico Mayrton Bahia, na antiga Polygram. "Eu nem marquei reunião" conta. "Fiquei umas seis horas esperando. Eu o conhecia da EMI, quando o 14 Bis gravou lá. Assim que chegou, disse a ele que Cássia era a maior cantora do Brasil, vi que ele não levou muita fé e fui embora. Quando cheguei na casa do amigo em que estava hospedado, em Santa Teresa, o telefone tocou. Era o Mayrton. Pediu para eu voltar na mesma hora. Quando entrei na sala dele, ele jogou um contrato de três discos na minha frente e pediu para eu ligar para ela. Foi na mesma hora: 'Cássia, vamos gravar pela Polygram. Tô te mandando a passagem para você vir para o Rio'. Ela disse: 'De avião, tio, que é isso?'", relembra.

Na apresentação à imprensa, no extinto Mistura Fina de Ipanema, já em 1989, ainda sem o disco lançado, Wanderson não sabia que roupa Cássia usaria. Ainda não se definia sua identidade. "Ela usava umas calças mamulengas rotas, manchadas, horríveis. Aí entrei na Yes Brasil e comprei um vestido e um sapato alto para ela. Na primeira música do show, a Cássia tacou o sapato longe", lembra.

Wanderson, de certa forma, foi megalômano. Gravou o primeiro clipe de Por enquanto (de Renato Russo, cuja versão acabou sendo a registrada em São Paulo, ao violão) e contratou o diretor Luiz Carlos Lacerda para fazer os 11 clipes do disco. Gastou a verba da gravadora nisso e o resultado não foi aprovado.

"Depois, com a ajuda de um amigo, peguei uma grana e investi num marketing nacional e fiz seis clipes depois de Por enquanto, que estreou no Fantástico e depois entrou na MTV. O disco vendeu 60 mil cópias e fizemos uma turnê nacional muito bem-sucedida", relembra.

"Nunca me senti à vontade para falar dessa minha história com ela. Mas ela precisa ser contada", diz Wanderson.

A do primeiro disco está contada. Quer dizer, parte dela está aqui. Cássia Eller lançou oito. O último, Acústico MTV, vendeu mais de 500 mil cópias. Cássia morreu aos 39 anos, a dois dias do réveillon de 2001.

Teve uma parada cardiorrespiratória, possivelmente decorrente de estresse. Inicialmente veiculava-se a versão de que teria morrido de overdose de drogas. Descartada pelo laudo pericial do Instituto Médico-Legal do Rio, foi apontada então morte por erro médico. O inquérito foi arquivado pelo Ministério Público.
 

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