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Música
Segunda, 1 de setembro de 2008, 07h40  Atualizada às 07h52
Shows no Rio têm falta de ingresso e excesso de vips
 
Clara Passi, Monique Cardoso, Rachel Almeida e Ricardo Schott
 
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O diretor de teatro Daniel Herz queria, como milhares de outros cariocas, assistir ao (histórico) show de João Gilberto no Teatro Municipal, há uma semana. A namorada de Herz então despachou sua secretária para a fila da bilheteria no dia 14, quando começou (e acabou) a venda de ingressos. As cinco horas gastas pela moça na fila foram em vão. Ao ser, finalmente, atendida: não havia mais entradas.

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O pequeno drama da moça - e de Herz - não foi exceção, tanto no show de João quanto no espetáculo reunindo Roberto Carlos e Caetano Veloso, que integram o projeto Itaú Brasil.

A conta é simples. Quando os organizadores do evento reservaram quase metade (mil dos 2.350 da lotação oficial) dos lugares da casa para convidados - celebridades, artistas, amigos, patrocinadores e jornalistas - quem pagou (ou não pagou) foram os (pobres) espectadores mortais.

A batalha pelos ingressos dos dois imperdíveis concertos materializou de forma extrema uma velha tradição carioca: o privilégio da eterna horda de vips na hora de formar a platéia.

"Acho que quem banca o projeto tem o direito de distribuir quantos convites quiser", diz Herz. "Mas isso deveria ser transparente para o público. Dizer logo que metade é de convidados, senão é enganação."

A fauna dos agraciados com convites (ou as ainda mais disputadas pulseirinhas que davam acesso ao fosso da orquestra do Municipal) era eclética, mas cheia de figurinhas carimbadas.

Muitos atores e atrizes, gente de música, celebridades mais genéricas e "anônimos" ligados ao Banco Itaú (o patrocinador). Produtor de eventos, Bruno Levinson, que não conseguiu comprar seu ingresso, esclarece:

"Se não houve dinheiro público envolvido, não há problema. Se a idéia é restringir o show a um público pequeno, é uma decisão que cabe aos patrocinadores e se isso vai provocar reações positivas ou negativas é um problema deles. Acho legítimo a empresa trabalhar seu marketing assim."

Vips até em festa de cachorro
O ator Guilherme Leme (que ostentava uma das pulseirinhas) define os critérios para a escolha dos tais vips.

"Toda estréia tem formadores de opinião. É bom para quem produz os eventos que apareçam artistas para gerar reportagens, fotos, burburinho. Foi um show comemorativo, não uma temporada para o público."

Ostentando quase 30 anos de vida pelos bastidores de espetáculos grandes e pequenos, a assessora de imprensa Gilda Mattoso pinga gotas de ácido na discussão.

"Hoje até aniversário de cachorro fica cheio de vips", espeta. "Tem até gente que é importante. Mas são sempre os mesmos. O show do João não era aberto para o público; era mais uma festa do Itaú. Seria legal fazer depois um evento popular na praia, ao menos com o Caetano e o Roberto."

O teledramaturgo Gilberto Braga, convidado respectivamente do patrocinador (para o show de Caetano e Roberto) e da Dueto (para o de João), senta na poltrona ao lado de Gilda.

"Acho que as empresas idealizadoras têm o direito de convidar quem quiserem. Mas foi uma pena que aqueles maravilhosos shows não tenham sido apresentados em temporadas longas."

Colega de profissão de Braga, Manoel Carlos mereceu sem discussão o rótulo de vip. Afinal, foi convocado pelo próprio João Gilberto, a quem conhece há 40 anos (mas com quem não se encontra pessoalmente há 35).

"O certo seria promover duas apresentações: uma para convidados e outra para todo mundo que se dispusesse a comprar. Ou então enfrentar um Maracanãzinho, com mais de 20 mil lugares."

Fique, pois, o trombone na boca de quem ficou de fora, caso da publicitária Virginia Vianna - que tentou sem sucesso comprar pelo telefone e pela Internet os ingressos para ver João Gilberto.

"Quase me conformei. Mas ao ler que 45% da capacidade do teatro estariam disponíveis apenas para vips, me senti enganada", diz Virginia. "Se era para ser algo tão exclusivo, o show só deveria chegar ao conhecimento do povo num DVD, para que nós, pobres mortais, pudéssemos ter um gostinho."

No olimpo dos mil convidados, muitos demonstraram certo melindre na hora de comentar o assunto. Integrante da cota do Itaú, o ator Antonio Pitanga (que assistiu ao show de João Gilberto ao lado da filha, Camila), conta a versão dos privilegiados.

"Se sou convidado, não posso ter opinião. Não sinto culpa, não passei na frente de ninguém, não abriria mão do convite. Só depois fiquei sabendo da dificuldade para conseguir ingressos." O produtor artístico Ricardo Chantilly, veterano que já foi presidente da Associação Brasileira de Empresários Artísticos (Abeart), atesta que, especialmente no Rio, é difícil lidar com o assédio sistemático dos famosos. "Uma vez um ator de televisão me pediu quatro ingressos para a área vip de um show. Na hora H, apareceu com 10 pessoas", rememora o empresário.

Consultor de mídia e imagem e integrante da equipe que está trazendo a nova turnê de Madonna ao Brasil, Horácio Brandão lembra que a discussão não é nova. "O Rio é uma praça complicada, porque é a Hollywood brasileira. Em anos trabalhando com espetáculos no Municipal, raramente vi os ditos 'célebres' comparecendo como público pagante. A maioria só aparece quando ganha convite."

Contatada pelo Jornal do Brasil, a Factoria, assessoria de imprensa do evento, não quis se pronunciar, nem colocar a reportagem em contato com a Dueto ou com o Itaú Brasil para debater o assunto.
 

JB Online
 
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