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 Maria Rita, herdeira de Elis Regina |
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Enquanto os homens iam à guerra e a outros lugares tão menos votados quanto, as mulheres tomaram a pauta musical e a interpretaram com a sensibilidade intuitiva tão comum ao sexo. O delas, é claro.
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No Brasil do século retrasado, a maestrina Chiquinha Gonzaga é a síntese dessa mudança de ares. Musicista destacada e militante abolicionista, ela derrubou as barreiras entre a música dos grandes salões da elite branca e as manifestações estéticas do negro escravo. Transitando entre a rua e a erudição, é dela a primeira composição para o carnaval, a marcha Ô Abre Alas. Isso em plenos 1880.
Salto para as décadas de 1940 e 1950, onde as chamadas cantoras do rádio, Carmélia Alves, Ellen de Lima, Nora Ney, Violeta Cavalcanti, Zezé Gonzaga e Rosita Gonzalez reinaram absolutas cantando o Brasil pré-bossa-nova. O rádio era o grande meio de comunicação e dava-se ao direito de eleger suas rainhas. Uma das mais famosas foi Emilinha Borba, que rivalizava com Marlene o posto real. Ambas foram eleitas diversas vezes e, para decepção dos fã-clubes fervorosos, eram amigas.
Angela Maria também é uma estrelas do período e, como muitas das artistas citadas, continua na ativa. Há pouco tempo, inclusive, durante uma entrevista ao Terra, a cantora, que lançou o 114º álbum da carreira, ironizou um de seus maiores sucessos, Babalu. "O Babalu é um cansado", disse ela.
Longe das disputas pelo trono de Rainha do Rádio, mas de grande estatura no cenário, Maysa estabeleceu um paralelo de beleza trágica com uma das cantoras mais importantes do jazz norte-americano, Billie Holiday. Nenhuma cantora foi tão melancólica quanto ela na música popular brasileira. Maysa fazia o que convencionou-se chamar de "fossa". Títulos como Meu Mundo Caiu e Ouça dão algumas pistas da razão.
As décadas de 1960 e 1970 viram surgir nomes como os de Maria Bethânia, Gal Costa, Rita Lee e Nara Leão - que já era musa da bossa-nova dos 1950. Mas a cantora que redefiniu o ofício foi Elis Regina. Dona de performances poderosas e temperamento forte, a intérprete revelou compositores da estirpe de Milton Nascimento, João Bosco e Aldir Blanc. A importância de Elis é tanta que ela é referencial ainda neste começo de século. E a história se repete com sua herdeira Maria Rita, um fenômeno com a muito não se via em terras brasileiras.
Na seara do pop/rock estrangeiro, a lista de heroínas também dá trabalho. Do blues dilacerado de Bessie Smith ao pop mutante de Madonna - que é responsável por toda a fauna de performers femininas que vieram depois dela -, há ramificações onde estão o soul de Aretha Franklin, a "hippie" Janis Joplin, as musas do pós-punk/new wave Debbie Harry e Chrissie Hynde, e uma das mais talentosas compositoras do tal rock alternativo dos anos 1990, PJ Harvey. A lista não pára.
Com todo esse poder e diversidade, só resta aos ouvintes masculinos, ligar os aparelhos de som, ir aos shows, ouvir os álbuns, e, como ensina aquele velho filme de François Truffaut, amar as mulheres. Só amar as mulheres.
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