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Música
Sexta, 2 de janeiro de 2004, 14h00 
Maria Rita e Los Hermanos se destacaram em 2003
 
Nelson Gobbi
 
Warner Music/Divulgação
Maria Rita lançou seu primeiro disco e conquistou o público
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O ano marcado pelo crescimento dos selos independentes - para onde migraram estrelas como Maria Bethânia e Gal Costa - será lembrado pelo surgimento de Maria Rita no cenário musical brasileiro. A filha de Elis Regina e César Camargo Mariano foi a grande revelação da MPB em 2003, lançada em meio à grande expectativa de crítica e público, que não cansaram de compará-la, em voz e carisma, com a mãe, falecida em 1982. A cantora de 26 anos já deu assunto até para as colunas de fofoca: está grávida de Marcus Vinicius Baldini, diretor de seu bem-sucedido DVD, que também leva o seu nome. Maria Rita é um fenômeno de vendas, de talento e de mídia.

Sua ascenção chamou a atenção do público para o talento de Marcelo Camelo como compositor: o vocalista do grupo Los Hermanos tem três músicas suas no álbum de estréia da cantora - Veja Bem Meu Bem e as inéditas Cara Valente e Santa Chuva. A banda também se destacou com o lançamento do terceiro álbum, Ventura, o mais autoral de sua carreira e um dos melhores do rock nacional nos últimos anos.

Os bons ventos do pop sopraram também para os lados de Minas Gerais: o Skank lançou Cosmotron, disco que consolida a mudança na sonoridade iniciada com Siderado (1998). Já os também mineiros do Jota Quest venderam 300 mil CDs e 45 mil DVDs de seu MTV ao vivo, embalados por temas de novelas como Só Hoje (de Malhação) e Amor Maior (Mulheres Apaixonadas).

O Charlie Brown Jr. também apostou na parceria com a MTV e gravou um disco eletroacústico produzido pela emissora, com participações de Marcelo D2 e Marcelo Nova. O grupo de Chorão & cia dividiu a preferência do público adolescente com os cariocas do Detonautas Roque Clube, que não saiu das rádios com o hit Quando o Sol se For.

Entre os veteranos do pop-rock nacional, Marina Lima voltou às prateleiras também se valendo da MTV para lançar seu disco ótimo acústico, enquanto os Engenheiros do Hawaii, do incansável Humberto Gessinger, dispejou seu segundo álbum com nova formação, Dançando no Campo Minado.

Já os Titãs - que já haviam perdido Arnaldo Antunes, em 1992, e Marcelo Fromer, morto em 2001 - sofreu nova baixa este ano, coma saída de Nando Reis. O cantor se saiu muito bem com seu primeiro álbum solo fora do conjunto, A letra A - e também os Titãs, que deu a volta por cima com Como Estão Vocês?. Outro expoente do rock dos anos 80, Roberto Frejat, continuou deixando os companheiros de Barão Vermelho "de molho" enquanto lançava mais um disco solo, Sobre Nós Dois e o Resto do Mundo.

Uma tendência entre alguns artistas da MPB foi a opção por selos menores ou independentes. Gal Costa gravou seu novo álbum (Todas as Coisas e Eu) pela Indie Records, para onde também migraram Luiz Melodia e Jorge Aragão. Foi a Indie também a responsável pelos últimos trabalhos de Alceu Valença (Ao Vivo em Todos os Sentidos) e Fagner (Raimundo Fagner e Zeca Baleiro).

Já a precursora Maria Bathânia, no mercado independente desde 2001, na Biscoito Fino, se saiu este ano com o agradável Brasilerinho e aproveitou ainda para lançar seu próprio selo, Quitanda, distribuído pela Biscoito. Toquinho voltou a gravar um álbum de inéditas depois de 11 anos, Só Tenho Tempo Para Ser Feliz, lançado pela Movieplay, enquanto artistas como Ivan Lins (ex-contratado da Abril Music, que fechou suas portas este ano) permanecem sem gravadora, o que só será definido quando precisarem lançar um novo trabalho.

Mas a música brasileira ficou mais pobre, sem alguns dos cantores, músicos e autores que morreram em 2003. Em janeiro o hip hop brasileiro perdeu uma de suas mais promissoras estrelas: Sabotage foi assassinado com quatro tiros. Em decorrência do câncer, Itamar Assumpção morreu em junho, aos 53 anos, sem se ver livre do estigma de "maldito", talvez por jamais ter feito concessões mercadológicas em sua trajetória.

A doença também vitimou Waly Salomão, poeta, letrista, participante informal do Tropicalista e compositor de alguns clássicos da MPB, como Vapor Barato e Anjo Exterminado (em parceria com Jards Macalé). Ele tinha acabado de ser nomeado a secretário nacional do livro e da leitura, pelo amigo Gilberto Gil, que tinha assumido o ministério da Cultura em janeiro. Nora Ney, uma das cantoras mais famosas da Era do Rádio, faleceu em outubro, aos 72 anos, por falência múltipla dos órgãos.

Personalidades ligadas diretamente à música brasileira também deixaram saudades em 2003. Dona Zica, integrante da Velha Guarda da Mangueira, morreu em janeiro, aos 89 anos. Entre as perdas mais chocantes, figura certamente a morte do produtor musical e autor de songbooks Almir Chediak, seqüestrado e morto a tiros em maio.

Apesar disso, e para alegria dos brasileiros, o samba conquistou um lugar de destaque em 2003, chegando inclusive até o público jovem. Zeca Pagodinho se manteve na inabalável posição de maior personalidade do gênero. O cantor confirmou seu papel de mediador cultural entre o samba e a "geração MTV", chegando inclusive a gravar um álbum acústico produzido pela emissora. A tradição do gênero foi traduzida em A Flor e o Espinho, gravado por Guilherme de Brito ao lado do Trio Madeira Brasil, trazendo algumas de suas maiores parcerias com Nelson Cavaquinho. O disco foi produzido por Moacyr Luz, que lançou meses depois um dos melhores discos da temporada, Samba da Cidade, com músicas compostas ao lado de Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Nei Lopes, Luiz Carlos da Vila, entre outros.

Guinga voltou às prateleiras com o sofisticado Noturno Copacabana e Martinho da Vila lançou Conexões, onde canta seus maiores sucessos em português e francês. Paulo César Pinheiro fechou o ano com categoria, lançando o autoral Lamento do Samba, com letras de melodias de sua lavra.

Paulinho da Viola, outro sem gravadora, foi reverenciado na telona, no documentário Paulinho da Viola - Meu Tempo é Hoje, de Izabel Jaguaribe (cuja trilha sonora chegou às lojas recentemente) e pelo grupo instrumental Nó em Pingo D'água, que dedicou um disco a sua obra. Entre outros destaques instrumentais, o grupo de choro Tira Poeira foi a maior revelação, direto dos bares da Lapa para o palco Lab do TIM Festival, e o violonista Zé Paulo Becker deixou momentaneamente os companheiros do Trio Madeira Brasil para lançar seu segundo disco solo, Sob o Redentor.

Promessas, veteranos, rock, pop, samba... Como sempre, não faltou diversidade à música brasileira.

Melhores Discos de 2003

Ventura (Los Hermanos) - O melhor disco de rock nacional de 2003 é também o melhor dos últimos anos. Nele, o grupo dá novo fôlego ao gênero no Brasil - cada vez mais carente de renovação - e reafirma a intenção de realizar um trabalho mais denso, como já havia acenado no CD anterior, Bloco do eu sozinho. Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante se destacaram novamente como compositores e intérpretes, fazendo com que seu público cresça em número e devoção.

Maria Rita (Maria Rita) - Maria é a maior revelação da música brasileira em 2003. Apesar das comparações inúteis com o talento incontestável da mãe, Elis Regina, a cantora provou ser uma intérprete acima da média, capaz de brilhar com luz própria, ajudada por um repertório selecionado com maestria. Recriou Rita Lee, Milton Nascimento e Lenine. E ainda descobriu o talento do compositor Marcelo Camelo, gravando três múscas de sua autoria. Um belo golpe de marketing. E de puro talento.

À Procura da Batida Perfeita (Marcelo D2) - A batida perfeita de Marcelo D2 mescla a contestação do rap com a malandragem do samba, fazendo uma ponte entre os dois ritmos em seu segundo disco solo. Trata-se de um marco na consolidação de uma linguagem própria para o hip-hop verde-e-amerelo, que busca novas alternativas aos modismos e referências norte-americanas.

Malabaristas do Sinal Vermelho (João Bosco) - O último álbum lançado por João Bosco traça um panorama cru da realidade carioca, cantando as belezas da Cidade (ainda) Maravilhosa, sem mascarar suas mazelas. O cantor também intensifica a parceria com o filho Francisco Bosco, que vai tomando aos poucos o posto do velho amigo Aldir Blanc. A poesia de João comporta os meninos de rua citados no título, mas também a esperança: resgata Andar com Fé, de Gilberto Gil, e aponta para dias melhores.

Sincerely Hot (Domenico + 2) - O segundo álbum do trio de nome mutante composto por Moreno Veloso, Domenico Lancellotti e Alexandre Kassin tem um apelo experimental ainda maior que o trabalho anterior, Máquina de Escrever Música. Passando pelas influências pós-bossa nova dos anos 70, coladas a criteriosos elementos eletrônicos, o trio reafirma o (des)compromisso de sua proposta artística contra a mesmice pop. Agora é esperar para conferir o terceiro trabalho do grupo, futuramete re-re-batizado como Kassin + 2.
 

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