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 A banda Matuto Moderno |
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A música caipira experimenta novos ruídos estéticos. No Sudeste brasileiro, especialmente no interior de São Paulo, onde as tradicionais modas de viola passam de pai para filho, o gênero vem ganhando uma roupagem, digamos, amodernada, através de grupos empenhados em revigorar a herança musical. Essa geração garante que continua "vendo da sua janela o luar do sertão" mas, por meio da tela do computador, sintoniza-se com a era globalizada. É dentro dessa cena ou "movimentação" - como designa o músico e produtor Newton Barreto - que as bandas paulistas Caboclada, Dioni Zica, Mercado de Peixe, Matuto Moderno, Fulanos de Tal e Sacicrioulo vêm buscando mídia. O investimento já está no mercado: a coletânea Moda Nova - Caipira Pop (Obi Music).
Violas e guitarras lado a lado. Batidas eletrônicas, efeitos de computador, DJ e todo um aparato tecnológico incorporados ao som regional. No lugar das tradicionais duplas, bandas. É dentro dessa estrutura que, há cerca de dois anos, esses grupos vêm ganhando fôlego, especialmente depois de participarem de festivais como o Groove (em Campinas-SP), realizado no ano passado. Diante da cena que se estabelecia, o antropólogo Hermano Vianna logo identificou o início do movimento pós-caipira. Outros rótulos foram dados à movimentação: agro mod, rock'n roça, caipira groove, caipirage ou, ainda, Moda Nova, como preferem os integrantes das bandas mencionadas acima. São grupos formados por filhos e netos de interioranos ligados à tradição da música paulista.
Reunidas em disco, essas bandas fazem agora uma amostragem "mais pop" do cancioneiro caipira paulista. "Esses artistas apresentam nas suas modas uma ótica atual desse universo. Apesar de diferentes daquelas que seus avôs cantavam, suas músicas não são menos autênticas, verdadeiras, apaixonadas", opina o produtor Newton Barreto, também músico da Fulanos de Tal, que mistura guitarra, teclado e bateria com percussão, inspirando-se na folia de reis, cururu (repente paulista), catira e batuque de umbigada.
A atitude é mesmo ousada: somar instrumentos e ritmos tradicionais - como viola caipira, batida de catira e percussão - com guitarras, bateria, baixo e outros recursos eletrônicos. "A viola misturada à guitarra dá um efeito superlegal", destaca Newton Barreto. No mix da coisa, o resultado sonoro não é música caipira explícita. As informações originais do gênero estão diluídas em um novo olhar à cultura regional, influenciado pela vida moderna, pelo rock, pela internet, pela urbanidade nas próprias cidades do interior. A capa do disco também imprime modernidade e tradição ao estampar a imagem trabalhada do cantor, compositor e violonista Jararaca, um nordestino apaixonado pela cultura caipira do Sudeste que foi buscar nos tipos de Piracicaba (SP) os elementos para compor sua figura artística.
Cada um com seu estilo e influências, as bandas têm em comum o interesse pelas expressões populares como a umbigada, o jongo, o catererê, o samba-lenço, a catira e modinhas de viola, entre outras ligadas às heranças rurais do passado. "Diríamos que nosso principal objetivo é resgatar as manifestações culturais do Sudeste à nossa maneira. A gente bebe dessa fonte, mas temos nossa própria linguagem", frisa Newton. O produtor lembra que a umbigada, adormecida por 40 anos na região, ganhou projeção a partir do trabalho do Moda Nova.
"Conseguimos retomar uma tradição ao colocar no palco o Grupo de Batuque e Umbigada de Piracicaba, Capivari e Tietê, atraindo velhos batuqueiros e seus netos para dançarem. Hoje, reestruturado, o grupo voltou a fazer shows", conta.
Mesmo modernizando os sons de raiz, as bandas pós-caipira bebem da mesma fonte dos violeiros tradicionais. É o caso do Matuto Moderno, que em seu último CD, Festeiro (independente/2002), contou com a participação de nomes como Pena Branca, Pereira da Viola e Ivan Villela. Da mesma forma, o Mercado de Peixe propõe cantar o interior sem estereótipos, misturando batida eletrônica e rock com ritmos regionais. O Sacicrioulo faz a mescla musical combinando batidas brasileiras com elementos do rock, funk, rap e soul music. O som pesado da banda é ouvido em Caipira Pop nas faixas Skaboclinho (com participação do DJ Marcelo) e Sete Baforadas Musicais.
A versão pauleira da música caipira é representada ainda pelo Caboclada, que deixou de lado a tecnologia e mergulhou nas guitarras (sem uso de loops ou samplers). Como os músicos afirmam, a banda faz "música brasileira com atitude rock'n roll". A banda Dioni Zica, por sua vez, reúne em seu trabalho diversos elementos, desde símbolos da mitologia grega até leituras dos fatos da realidade. No final das contas, todas elas procuram cantar sua aldeia para se tornarem universais.
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