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Para tocar tango com paixão, é preciso ser portenho. Ou, pelo menos, é o que diz o acordeonista Nestor Marconi, um dos maiores intérpretes e exportadores do gênero.
"Não sei se foi o tango que cativou Buenos Aires ou o contrário, mas sei que o tango começa e termina em Buenos Aires. Para tocar o tango é preciso ter a umidade do rio da Prata grudada na pele", declarou à Reuters esse portenho de adoção, que nasceu em Rosário há 61 anos.
Marconi foi o encarregado de abrir na quinta-feira o Tim Festival, o maior evento musical do Brasil, que acontece no Rio de Janeiro até este sábado, 1º de novembro.
Vestido inteiramente de negro - contrastando com o branco total de seus cabelos -, o melhor acordeonista argentino da atualidade afirmou em seu camarim, há uma hora de seu show, que o tango "é como um idioma: por mais que você o aprenda, nunca será como se fosse sua língua materna".
"Tenho alunos muito bons na Holanda ou na Alemanha, eles fazem uma imitação ótima, mas lhes falta a pele", explicou.
Sem limites
Entretanto, Marconi não quis dar definições. "O tango não tem limites. Felizmente já evoluímos com relação aos anos 40".
"Graças a (Horácio) Salgán e a Piazzola, as pessoas se convenceram de que existem muitas maneiras e diversos instrumentos com os quais se pode fazer tango."
Marconi cresceu profissionalmente na época em que essa mudança estava acontecendo. Ele nunca hesitou em compor, dirigir e tocar para trios, quartetos, quintetos, octetos, orquestras de câmara, sinfônicas e até mesmo trilhas sonoras de filmes.
Solista do Nuevo Quinteto Real e diretor da Orquestra de Música Argentina Juan de Dios Filiberto, atualmente está compondo Tangos Concertantes, uma obra para acordeão e orquestra sinfônica, e já tem em mente um trabalho para orquestra de câmara, encomendado pela Camarata Bariloche.
Surpreso com o sucesso
Embora não pare de se mexer, Marconi transmite calma, possivelmente decorrente do fato de ter conseguido o que nunca imaginou ganhar: "Às vezes me pergunto como é possível que já tenha tocado com Yo Yo Ma (o grande violoncelista nova-iorquino) ou com a Sinfônica de Montreal."
Elogiado em todo o mundo, Marconi diz que, para ele, o maior presente é o reconhecimento da autoria de suas composições. "Quando me dizem ´ouvi a canção e soube que era tua´, é indescritível", afirmou.
Ao ser perguntado sobre se pretendia produzir algum trabalho com músicas ou em estilo brasileiros, Marconi respondeu: "Não tive a possibilidade de gravar".
Em seguida, pegou o acordeão e tocou a melodia de Insensatez, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
"É muito parecido com o tango Los Mareados. Uma vez, num concerto aqui no Brasil, misturei as duas. Foi minha única incursão na música brasileira. Quem sabe no próximo álbum... É uma boa idéia."
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