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Há alguns meses, um dos críticos da Mojo - prestigiosa revista musical inglesa - arriscou uma definição comparativa: "punks de Pernambuco tocando pré-samba e fazendo o Rage Against The Machine soar como maricas". Por estranho que pareça, tratava-se de um artigo elogioso ao álbum homônimo da Nação Zumbi, uma das atrações do TIM Festival.
"O cara foi bem maldoso com o Rage Against The Machine", diz ao Terra o guitarrista Lúcio Maia. "É a velha necessidade de comparação para explicar o som para quem não conhece a banda. O problema é que dá a impressão de que nós somos, sei lá, heavy metal. Mas de qualquer forma é ótimo ter uma resenha positiva, grande e em topo de página da Mojo. Sei de gravadora que paga US$ 100 mil dólares para colocar artista num espaço como esse", arrisca.
O grupo atravessa sua melhor fase desde a morte prematura de Chico Science em 1997. Eles tocaram em todos os festivais brasileiros relevantes, faturaram o prêmio TIM de Melhor Banda de Rock de 2002, foram indicados para o Grammy Latino e figuraram como finalistas do Video Music Brasil da MTV, com o criativo clipe de Blunt of Judah.
"Estamos viajando pelo Brasil e a recepção tem sido incrível. É emocionante ver o interesse das pessoas", diz ele. "Há um equilíbrio saudável agora. Já estivemos em multinacional que não nos apoiava e quando Chico morreu, a banda quase acabou. Passado o período mais crítico, assinamos com uma gravadora independente que tinha boas intenções, mas não tinha dinheiro. Agora é diferente. Nossa atual gravadora, a Trama, nos dá respaldo e oferece orçamento decente e liberdade de criação", elogia.
A Nação Zumbi prepara-se agora para mais uma turnê internacional. Entre os dias 24 e 28 de outubro, eles tocam na maior feira de música independente do mundo, a espanhola Womex; nos festivais franceses de Fiesta de Suds e New Morning e no Islington Academy, o novo nome da tradicional casa de espetáculos inglesa Marquee. "Vai ser uma passada rápida. Um soprinho para que a gente dê as caras e volte para Europa com força total em 2004", diz o guitarrista, que depois apresenta-se, ao lado sobretudo do Public Enemy, no palco TIM Stage, no MAM, no dia 1º. "Ser pago para tocar com o Public Enemy é uma coisa surreal. Não vejo a hora. Todo mundo a banda é fã. Gostaria muito de assistir ao show do MacCoy Tyner. Quero ver se consigo ver o Coldcut também."
Amarelo Manga
O lançamento da trilha sonora do filme Amarelo Manga(YB Music/Instituto), assinada por Lúcio e pelo vocalista Jorge Du Peixe, é outra razão de comemoração."Essa é mais uma das intervenções do Serviço Ambulante da Afrociberdelia. Somos cinéfilos há muito tempo", conta ele, citando o nome do álbum anterior, Rádio S.AMB.A(YB Music), esta última, a abreviação do tal serviço ambulante.
O belíssimo filme do diretor pernambucano Cláudio Assis é uma produção extrema. Trata de paixão, mas não facilita a vida dos espectadores. Decididamente, o amarelo do título não é o do ouro. Está mais para o dos desejos contrariados e para o embaçamento cotidiano.
"O filme passa até uma falta de ar. Assistimos as cenas, compusemos os temas, gravamos e mixamos em cinco dias. Fizemos uma coisa enxuta mesmo. O álbum que sai agora é resultado de um trabalho feito a partir das músicas do filme. Uma reconstrução mesmo. São dois produtos diferentes."
Ele considera Amarelo Manga a sua primeira trilha original - ainda que tenha participado da concepção de músicas presentes em Baile Perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, e Texas Hotel, do mesmo Chico Assis. "Das outras vezes eu não tive um papel de decisão. Foram participações", despista.
Para o próximo ano, o Serviço Ambulante da Afrociberdelia se dividirá em registros dos projetos paralelos dos integrantes - o grupo Pra Mateus Poder Dançar, as conexões com os produtores do coletivo Instituto, as participações no novo disco de Fernanda Abreu, entre outras - e se reagrupará, sempre, em torno do maracatu que pesa uma tonelada.
Na batida do audiovisual, Lúcio promete também uma série de outros videoclipes conceituais. "Os homens com cabeça de rádio irão retornar em outros videoclipes", conta ele, referindo-se aos personagens que cruzavam as ruas de um Recife felliniano em Blunt of Judah.
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