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Música
Quinta, 16 de outubro de 2003, 19h07 
Festival mistura famosos com boas novidades
 
TIM Festival/Divulgação
O músico alagoano Wado e sua banda
O músico alagoano Wado e sua banda
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Nada melhor do que ir a um festival de música e saber que entre os artistas graúdos, estão lá, timidamente posicionadas, bandas novas ou ainda não descobertas pelo grande público. São nesses espetáculos que os ilustres desconhecidos têm chance de ser alçados à condição de revelação do ano. Revelação para o público e para a mídia. É dentro do princípio de revigorar o cenário musical que o TIM Festival promete desembarcar no Rio, dias 30 e 31 outubro e 1.º de novembro.

Sua seleção agrupa sim pesos pesados, do quilate de Public Enemy, k.d. lang, White Stripes, Coldcut e Nação Zumbi. Mas abre brecha para bandas (sortudas) que ainda estão galgando o próprio espaço.

Nesta última categoria, o Brasil está representado por seis grupos, de origens e sonoridades diversas, escolhidos pela curadoria do evento, formada por Hermano Vianna, Felipe Venâncio, Zuza Homem de Mello, Zé Nogueira e Paulo Albuquerque. Os grupos respondem pelo nome (alguns curiosos) de Sinhô Preto Velho, Tira Poeira, Apavoramento Sound System, Wado, Gerador Zero e ChicoCorrea & ElectronicBand.

Para Hermano Vianna, uma função importante do Tim é a de justamente dar abertura aos artistas. "É mostrar que o mundo da música é rico e variado. A mídia e as grandes gravadoras deveriam estar mais abertas também", defende. Ele, entretanto, faz um adendo e diz que a "idéia de 'desconhecimento' deve ser relativizada".

Vianna recorda-se do último Free Jazz, quando alguns jornalistas apostavam que o show da banda Belle and Sebastian iria ser um fracasso de público. Não foi. "Eu sabia que aquela banda tinha um público imenso no Brasil, fato que era desconhecido por grande parte da imprensa, que ficou surpresa com a reação mais que calorosa da platéia."

A surpresa pode ser trazida à luz das atrações nacionais. Os integrantes dos seis grupos, as "novidades" nacionais do TIM Festival, vêm de diversas partes do País. Alguns de São Paulo, outros do Rio e há quem more no Nordeste. Para eles, ainda é difícil pagar as contas só como instrumentista da banda, por isso se dedicam a projetos paralelos na música ou têm outro emprego. Aguardam com expectativa a chegada do evento, mas são cautelosos em relação à repercussão que seus shows possam obter.

Nesse filão, a banda Tira Poeira vale ser destacada. Encabeçada por cinco instrumentistas, tem uma proposta sonora interessante: toca choro mesclado com outras influências, como o flamenco, a rumba, o jazz. "Os arranjos têm estrutura que dão espaço para o improviso", explica o pandeirista Sérgio Krakowski. Com dois anos de estrada, o Tira Poeira "cresceu" no bairro da Lapa, no Rio, e lançou o primeiro CD, que leva o nome do grupo, pela gravadora Biscoito Fino. Foi convidado por Maria Bethânia para participar de seu novo CD, Brasileirinho.

"Ela nos deu liberdade para fazermos os arranjos com a nossa cara", conta ele. Após a apresentação no TIM Festival, programada para o dia 31, no palco TIM Lab, o grupo espera que novas portas se abram. "Mas não é de um dia para outro que vamos aparecer."

Com parte do cachê que vai receber por seu show, o catarinense Wado, radicado em Alagoas desde criança, pretende pagar um produtor para o próximo disco. Trazendo dois álbuns na discografia, ele subirá também ao palco TIM Lab no dia 30, diante de 2 mil pessoas. Wado não se considera músico.

Tem a influência de experimentadores da música brasileira e começou a carreira reprocessando eletronicamente composições de própria autoria em equipamento caseiro. Agregou instrumentos básicos como guitarra, bateria, baixista. Para o show no Rio, vai usar ainda piano e flauta. Segundo ele, seu trabalho muitas vezes é associado ao rótulo do mangue beat, do qual quer se desvencilhar. "O mangue é a regionalização com caráter universal. A cena aqui em Alagoas não tem uma unidade como a de Pernambuco", conta. "Não entramos em rótulo nenhum, flertamos com eletrônica, MPB."

Se em Alagoas Wado tem dificuldades de encontrar espaço que abrigue seu trabalho, em São Paulo o quadro não é muito diferente. Renato Dias, vocalista e percussionista da banda Sinhô Preto Velho, acredita que a disponibilidade de espaços para shows não corresponde ao crescimento do número de bandas. "Há muita demanda e pouco espaço", avalia Dias.

O percussionista fundou o Sinhô há cinco anos, após passar por um drama pessoal. Com a morte do pai, ele se interessou por temas religiosos. Conheceu a umbanda. A cultura africana se misturou ao hip hop, hard core, samba de roda, entre outros ritmos, desembocando numa sonoridade peculiar calcada na questão antropofágica. A banda tem dois discos lançados e Dias adianta o próximo projeto: produzir um disco em tupi. "Nunca fizeram isso", diz.
 

Tribuna do Norte
 
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