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 Capa do álbum Abbey Road, dos Beatles, de 1969 |
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Nas últimas semanas, o mundo beatlemaníaco se agitou com o anúncio do lançamento do disco Let It Be... Naked, a versão oficial de Let It Be sem as orquestrações criadas em 1970 pelo produtor Phil Spector, e com os arranjos originais "back to basics" que podem ser conferidos no documentário homônimo e em diversos discos piratas. No entanto, nem mesmo a discussão que este fato causa entre os fãs pode deixar uma data passar batida: no dia 26 de setembro de 2003 completam 34 anos do lançamento de Abbey Road, o canto do cisne de fato do quarteto de Liverpool.
Ambos os discos estão historicamente entrelaçados: Let It Be foi gravado antes, mas lançado depois de Abbey Road, que assim foi efetivamente o último disco da banda. Mas são as diferenças entre as duas obras que chamam mais atenção. Enquanto Let It Be foi concebido como uma crua volta às raízes (o título original era Get Back), Abbey Road acabou sendo talvez o mais bem-acabado disco da banda. A estrutura do primeiro era baseada em canções isoladas; já o segundo foi formado por uma trama que preparava o ouvinte para o irresistível pout-pourri final, o grande momento da carreira de Paul McCartney.
O nascimento do disco
Em meados de 1969, a relação entre os Beatles estava mais do que desgastada. O peso da fama, o dinheiro e as diferenças de personalidade minaram a amizade antiga entre Paul, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr. A experiência de Get Back havia sido decepcionante, a presença constante de Yoko Ono na vida de Lennon gerava mil atritos, e o destino da gravadora Apple prometia mais brigas. Mesmo assim, o grupo fez um último esforço para voltar ao estúdio.
O lendário produtor George Martin, responsável por todos os discos dos Beatles (exceto Let It Be), lembra que Paul o telefonou a fim de convidá-lo para um novo álbum. Martin acreditava que a banda acabaria após o projeto Get Back, então perguntou se todos estavam de acordo com que produzisse, inclusive John - com quem havia tido vários atritos. McCartney garantiu que sim, que todos queriam trabalhar "como antigamente", e então o produtor topou.
A estrutura do disco foi um ponto em que houve discordância entre as "cabeças pensantes" da banda - John Lennon queria um trabalho parecido com o que eventualmente seria Let It Be, com rocks rápidos e descomplicados, enquanto Paul McCartney, com George Martin em sua defesa, defendia um trabalho mais elaborado. Para tornar o clima mais fácil, se chegou a um acordo: o lado A seria como John queria, enquanto o lado B ficaria ao estilo de Paul e Martin.
Os Beatles começaram a gravar o novo disco no dia 16 de abril, no estúdio da EMI na Abbey Road, em Londres. O título original do projeto seria "Everest", nome de uma marca de cigarros existente na época, mas ele acabou sendo abandonado. A idéia de batizar o disco com o nome do estúdio foi de McCartney. As gravações continuaram até meados de agosto. No dia 20 daquele mês, os quatro Beatles estiveram juntos em um estúdio pela última vez, para definir a ordem das músicas no novo disco. Dois dias depois, eles fariam a última sessão de fotos, próximo à nova casa de John.
Versões conflitantes
Há diferentes versões sobre o clima entre os integrantes durante as gravações. Os relatos oficiais - tirados da biografia autorizada de Paul, Many Years from Now, e do livro Anthology - dão conta de um clima "feliz", quebrado por alguns momentos de atrito, causados principalmente pelas tentativas de McCartney em assumir o comando do grupo. Já os livros não-oficiais e sensacionalistas sustentam que a tensão ainda era grande. Anos depois, McCartney lembrou o clima das sessões como de "um peso sério e paranóico".
Como se sabe, o fator "Yoko Ono" foi um importante catalisador dos conflitos entre os Beatles - e de sua eventual separação. A presença constante da mulher de Lennon na rotina da banda causou inúmeros desgastes, até chegar em um ponto quase cômico. No dia 1º de julho, o casal sofreu um acidente de carro na Escócia, em que se envolveram também o filho de John, Julian, e a filha de Yoko, Kyoko. Já recuperado, o marido providenciou que uma cama fosse colocada em Abbey Road para que a mulher pudesse acompanhá-lo. Um microfone chegou a ser colocado sobre o leito, para que ela pudesse dar suas opiniões sobre o trabalho.
A famosa capa do disco, na qual os quatro atravessam a faixa de segurança em frente ao estúdio, foi produzida no dia 8 de agosto. O fotógrafo foi Ian McMillan, que tirou seis fotos em dez minutos, com a ajuda de alguns guardas de trânsito. Em quatro das imagens capturadas, Paul estava sem sapatos, um entre outros fatos que cultivaram uma lenda persistente até hoje.
Paul está morto
Após um acidente de moto sofrido por Paul McCartney em 1966, um DJ norte-americano levantou o rumor de que o beatle havia morrido e sido substituído por um sósia chamado William Campbell. A partir de então, o grupo começou a cultivar "provas" da morte de Paul em seus discos. Em Abbey Road, havia vários deles:
1) Os pés descalços de Paul são uma mensagem tradicional da Máfia, representando um homem morto;
2) Um Fusca localizado à esquerda na foto tem uma placa "28 IF", ou seja, Paul teria 28 anos SE (em inglês, if) não tivesse morrido;
3) À direita, pode ser visto um carro preto que se assemelha muito a um carro fúnebre;
4) Na capa do disco, cada um dos outros três beatles representa um papel: John Lennon vai à frente todo de branco (o médico), seguido por Ringo Starr, todo de preto (o padre), McCartney (o morto) e George Harrison, vestido de jeans da cabeça aos pés, como um operário (o coveiro).
Obviamente, todos os rumores foram negados.
A música de Abbey Road
Musicalmente falando, Abbey Road é um dos discos mais completos e tortuosos dos Beatles. O lado A, como já foi dito, tem mais a cara de John: é formado por canções isoladas e poderosas, cada uma com seu apelo específico. Já o lado B é dominado por um medley de vinhetas e músicas incompletas de John e Paul, unidas de maneira genial a partir de uma idéia deste último, com a ajuda de George Martin. Clique aqui e leia mais sobre as músicas do disco.
Abbey Road foi lançado na Inglaterra em 26 de setembro de 1969. O álbum ficou por 19 semanas na lista dos mais vendidos da revista Melody Maker, onze delas no primeiro lugar. Em 1º de outubro, ocorreu o lançamento nos Estados Unidos. O disco ficou 87 semanas na parada da Billboard, sendo 11 delas na liderança. O primeiro disco de ouro obtido por Abbey Road foi anunciado no dia 27 de outubro. Eventualmente, este se tornaria o disco mais vendido da carreira dos Beatles.
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