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Música
Sexta, 29 de agosto de 2003, 12h00 
VMAs ri de si mesmo em festa de 20 anos
 
Guto Barra
 
Reuters
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O Video Music Awards, da MTV americana, chegou aos 20 anos sendo capaz de rir de si mesmo. A premiação mais pop dos Estados Unidos apostou nas auto-referências recheadas de críticas humoradas e corrigiu erros graves, como o caso do Duran Duran, que nunca havia ganhado nenhuma estatueta do canal. O apresentador Chris Rock fez piadas com o fato da emissora ter um prêmio para videoclipes, "enquanto todo mundo sabe que a MTV não passa mais vídeos".

O evento começou com a reprodução da cena que encerrou o primeiro Video Music Awards (e que confirmou a chegada de Madonna ao mainstream), em 1984. Embora os Estados Unidos estejam mais comportados do que nos anos 80, o número foi apimentado com o histórico beijo na boca entre Madonna, Britney Spears e Christina Aguillera. Uma das conclusões mais fortes, no entanto, foi a de que Spears canta pior do que a própria Madonna em início de carreira ¿ um "feito" impressionante.

A MTV pode ter sido exageradamente cautelosa em várias épocas, como a proibição de clipes com cenas de aviões depois de 11 de setembro, mas sempre ajudou a impulsionar a causa gay, por meio de campanhas contra o preconceito, entre outras ações. Além do beijo (programado mais para render notícia do que para servir à agenda homossexual), o VMA também promoveu a sexualidade alternativa ao convidar o quinteto do programa-fenômeno The Queer Eye for the Straight Guy. Os rapazes apareceram em close dançando com Madonna e apresentaram um prêmio ao lado do cobiçado Jimmy Fallon, de Saturday Night Life. Na MTV não são as louras que se divertem mais, são os gays.

O comediante Chris Rock fez seu monólogo de abertura "esculhambando" a MTV. Ele detonou Ashton Kutcher, o namorado de Demi Moore, que apresenta na emissora um programa que "prega peças" em celebridades. "Eu sei quem ele está sacaneando: o Bruce Willis". Não faltaram alfinetadas em P.Diddy (que também apresenta uma série no canal), Christopher Reeve e várias das bandas que se apresentaram na noite.

A premiação surpresa do Duran Duran (o grupo inglês não sabia que iria receber uma homenagem pelo conjunto da carreira) fez justiça à banda que mais abraçou o formato dos videoclipes no início dos anos 80. Clipes como os de Rio e Hungry Like the Wolf fizeram história na MTV, mas nunca chegaram a ser oficialmente reconhecidos. O atual hype da banda, que vem fazendo uma bem sucedida turnê pelos Estados Unidos, chega a causar espanto: bastou acionar a formação original e o Duran Duran passou de um dos maiores micos do pop para "um dos grupos mais influentes da história". Viva o pop.

O VMA é sempre também uma boa chance de se questionar a máquina pop americana. Por exemplo, por que Eminem odeia Moby e qualquer coisa ligada à música eletrônica, mas aplaude Justin Timberlake de pé? Não seria mais coerente o polêmico rapper detestar o cantor do ¿N Sync? O fato de que os roqueiros do Good Charlote levaram o prêmio de escolha da audiência (vencendo Eminem, 50 Cent, Beyoncé e Justin Timberlake) não seria uma dica de que o público do canal é mais exigente do que a própria MTV imagina?

A própria participação de Madonna (dividindo atenções com as concorrentes 20 anos mais jovens) foi um sinal de que a pop star está tentando se reposicionar no mercado. Ela teria sido convencida pela empresária Caresse Henry a aparecer no prêmio para tentar salvar American Life, o pior disco da carreira (em números e qualidade musical). Se a imagem de mãe-de-família-que-pratica-yoga e garota-propaganda da Gap não conseguiu ajudar o álbum, talvez uma volta à atitude polêmica da época do livro Sex resolva um pouco.

No geral, o que fica claro depois de 20 anos de VMAs é o poder do hip hop nos Estados Unidos. Artistas bem sucedidos no mercado black viram franquias inabaláveis, capazes de lançar sub-produtos (50 Cent, uma derivação de Eminem, aproveitou para impulsionar outro clone, Obie Trice) e gerar milhões de dólares. A hegemonia do gênero deve-se à fidelidade do público, mas também à criatividade de determinados artistas, como Missy "Misdemeanor" Elliott, que ganhou o prêmio de vídeo do ano (Work It). Desafiando estereótipos, ela roubou a atenção de rappers obcecados com prostitutas e cafetões e mostra que o hip hop é o gênero que mais funciona no mercado americano.
 

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