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Música
Segunda, 14 de julho de 2003, 14h33 
Compay Segundo desfrutou de glória tardia
 
Reuters
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    Compay Segundo, lenda da música cubana que morreu na segunda-feira em Havana aos 95 anos de idade, desfrutou de uma segunda juventude quando, ao se tornar nonagenário, passou a percorrer o mundo seu impecável terno e chapéu, cantando Chan Chan.

    Francisco Repilado, seu verdadeiro nome, nasceu em 1907 na cidade de Siboney, a poucos quilômetros de Santiago de Cuba.

    Até alguns meses antes de sua morte, o cantor se apresentou no exterior, desfrutando de uma glória tardia com a energia e o entusiasmo de quem levou uma vida inteira aguardando uma oportunidade e prometeu não se aposentar jamais - nem da música nem das mulheres.

    Com a verve e o senso de humor peculiares, o artista calculava ter tido em seus braços mais de 50 mulheres e se gabava de estar esperando mais um filho.

    "As flores da vida chegam para todos, temos de estar atentos para não perdê-las. As minhas chegaram depois dos 90", disse em entrevista, segurando um dos charutos cubanos que afirmava fumar desde os 5 anos de idade.

    Mas o cantor não pôde cumprir seu sonho de completar 116 anos, idade em que sua avó faleceu, para então "pedir uma prorrogação". Compay morreu na madrugada de segunda-feira em sua casa de Havana, vítima de insuficiência renal.

    Além de Chan Chan e outras canções, Compay ficou famoso por seu otimismo vital e por sua filosofia de vida.

    "Para chegar à minha idade tem que se fazer tudo com moderação", garantia, afirmando que o segredo da longevidade estava em "fugir do enfastio".

    "Em vez de comer um frango inteiro, peço só um quarto. Assim não me farto." A fama mundial chegou em 1997, com sua participação no disco Buena Vista Social Club, de Ry Cooder, ganhador do Grammy. Mas Compay Segundo havia começado sua carreira oito décadas antes.

    Ele compôs sua primeira música na adolescência e começou a tocar em grupos de Santiago com seu famoso "armónico", um instrumento de sete cordas inventado por ele - uma mistura de guitarra espanhola e tres cubano (violão de apenas três cordas).

    Fez parte do quinteto Cuban Stars, de Nico Saquito, e logo entrou para o conjunto de Miguel Matamoros. Mas foi no dueto Los Compadres, com Lorenzo Hierrezuelo, que começou a ser conhecido como Compay (gíria cubana que significa companheiro) Segundo.

    Macusa, Yo canto en el llano e Los barrios de Santiago se tornaram êxitos de um repertório que dominou as noites cubanas nos anos 1950.

    Mas com a revolução de 1959, que acabou com a vida noturna e com a prostituição controladas pela máfia de Nova York, Compay Segundo caiu no ostracismo e passou a trabalhar em um fábrica de charutos em Havana.

    Na década de 1980 ele voltou a cantar e se apresentar esporadicamente em Cuba, Estados Unidos e Espanha, mas foi Buena Vista Social Club que o lançou ao estrelato, ao lado de músicos como Eliades Ochoa e Ibrahim Ferrer.

    Nos últimos anos, tocou diante de milhares de pessoas nos auditórios mais prestigiados do mundo e gravou nove discos (o último chama-se ``Duets'', com Cesária Evora, Charles Aznavour e Antonio Banderas, entre outros convidados), que converteram a música tradicional cubana em um fenômeno de massa.

    "Se não fosse a música, haveria no mundo uma tristeza bárbara", disse em uma de suas últimas entrevistas.


     

    Reuters

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