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 Caetano Veloso lança 40º álbum aos 64 anos |
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Caetano Veloso já não é nenhum garoto. "Nos últimos anos descobri algumas mudanças em mim, são coisas internas, sutis. Algumas poderiam ser para pior, porque estou envelhecendo. Eu sou velho. É uma constatação", assume. Este senhor de 64 anos, porém, também está repleto de espírito juvenil. "Espiritualmente eu sou um pouco adolescente. E esse é que é o problema. Fico um pouco em descompasso."
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A música cura, ou talvez amenize, o descompasso do compositor. Portanto, depois de seis anos sem lançar um disco inteiramente de músicas inéditas, Caetano está de volta com Cê, 40º disco de sua carreira, provocativamente roqueiro, veículo distorcido para cantar as dores da separação de Paula Lavigne, há dois anos, após 19 de casamento.
"Tem muito, no disco, a idéia de separação. É como se fosse um álbum de separação. Existem discos com esse tema, mesmo de rock. Esse disco é um pouco assim", reconhece.
Não Me Arrependo, a canção de trabalho do disco, é, como o próprio diz, "documental e direta". "Eu não me arrependo de você/ Cê não me devia maldizer assim/ Vi você crescer/ Fiz você crescer/ Vi cê me fazer crescer também", diz a letra sobre o relacionamento com Paula, mãe de dois de seus três filhos: Zeca, 14 anos, e Tom, 9.
O mais velho, Moreno, 32, foi um dos produtores de Cê, ao lado do guitarrista Pedro Sá. Este, por sua vez, recrutou Ricardo Dias Gomes (baixo e piano) e Marcelo Callado (bateria) para formar o 'power trio' que deu forma às 12 músicas do CD.
Como Outro, que abre o disco com bateria em tempo dobrado de Callado e letra forte. "Eu já chorei muito por você/ Também já fiz você chorar/ Agora olhe pra lá porque/ Eu fui-me embora", canta o baiano.
"Algumas coisas que eu fiz com o tema da separação fiz porque combinam com letras de rock", explica. "São um pouco como Tigresa, canções de personagem, ficcionais", diz, citando a canção que fez para Sonia Braga em 1977.
PARADA DE ESNOBISMO
Cê, porém, não é monotemático. Provocar os "puristas do rock" era um dos objetivos de Caetano com o disco. "Hoje em dia, o rock é o topo da parada de esnobismo no ambiente crítico. O pessoal do rock ficou pior do que o do samba", diverte-se.
"Eu acho isso muito engraçado porque sou velho o suficiente para me lembrar de quando o rock apareceu, nos anos 50, e depois de quando reapareceu, no início dos 60. E em toda a primeira fase dos Beatles ainda era tratado como lixo comercial, sem respeitabilidade alguma", recorda, divertindo-se ainda mais.
"Hoje o cara diz: 'isso é rock, é autêntico'. Isso é mais de quem consome do que de quem produz. Quem faz música não liga, faz o que quer. Rock não tem nada a ver com esnobismo".
Tem a ver com provocação e isso o disco tem de sobra, na estrutura das canções, na pouca cerimônia das letras, nas microfonias e distorções de guitarra: "Se for assim, é a minha cara".
O CD, FAIXA A FAIXA
1. OUTRO
Rock simples, aviso da estranheza que vem a seguir.
2. MINHAS LÁGRIMAS
Confessional e ibérica. "Nada serve de chão onde caiam minhas lágrimas."
3. ROCKS
Rock num clima Velô (1984). Dedicada a Zeca por conta da expressão 'você foi mor rata comigo'.
4. DEUSA URBANA
Estranha balada sobre uma musa fictícia. "sexo heterodoxo, lapsos de desejo".
5. WALY SALOMÃO
Homenagem psicodélica ao poeta, morto em 2003.
6. NÃO ME ARREPENDO
Linda, entre Lou Reed e Peninha, Bob Dylan e Raul.
7. MUSA HÍBRIDA
Samba disfarçado para uma heroína miscigenada.
8. ODEIO
Rock experimental, letra idem, cita um certo 'garoto do Arraial do Cabo', fictício, diz Caetano. Repleto de guitarras e refrão para extravasar: "Odeio você!"
9. HOMEM
"Eu sou hooooomem, pêlo grosso no nariz". Caetano visita Rita Lee.
10. POR QUÊ?
Orgasmo lusitano com comentário de piano e o verso "estou-me a vir" repetido sem parar.
11. UM SONHO
Lúbrica, mas caberia bem num CD do Los Hermanos.
12. O HERÓI
Rap com guitarra, fala de democracia racial. Densa e hipnótica.
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