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Grammy Latino 2004
Sexta, 27 de agosto de 2004, 18h52 
"Não sou nacionalista", diz Carlos Santana
 
Reuters
Santana, que será homenageado como Pessoa do Ano da Academia Latina de Artes e Ciências da Gravação
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Ele fez sucesso unindo duas culturas diferentes muito antes desse tipo de fusão virar coisa corrente. E o fez de maneira tão natural, sem esforço, que os fãs nem sequer pensavam duas vezes sobre a cultura da qual ele vinha - estavam fascinados demais por sua música.

O que ficou muito claro desde seu álbum de estréia, em 1969, foi que Carlos Santana tocava um novo estilo de rock de inspiração latina que simplesmente nunca antes tinha sido ouvido.

Trinta e cinco anos e 80 milhões de álbuns vendidos mais tarde, a música de Santana continua a ser uma força definidora para músicos latinos e não latinos. É uma música universalmente reconhecida, ouvida e copiada.

No dia 30 de agosto, Carlos Santana será homenageado como Pessoa do Ano da Academia Latina de Artes e Ciências da Gravação, numa cerimônia repleta de grandes nomes que terá lugar no Century Plaza Hotel, em Los Angeles.

Dois dias depois, vai dividir o palco com o trio texano Los Lonely Boys para apresentar-se na quinta cerimônia anual de entrega dos Grammy Latinos, no Shrine Auditorium.

É claro que Santana é muito mais do que apenas o guitarrista cujo álbum Supernatural já vendeu 25 milhões de cópias em todo o mundo, segundo sua gravadora, e valeu ao artista veterano uma penca de Grammy.

Santana sempre devolveu alguma coisa às comunidades que o receberam de braços abertos. Ele o faz por meio da Fundação Milagros, criada por ele próprio com sua mulher, Deborah, além de outros esforços em todo o mundo.

Recentemente ele conversou com a Billboard desde a Alemanha, onde se apresentou em um concerto que faz parte de uma série que, espera, vai ajudar a despertar a consciência social e política de seus fãs.

Parece que o tipo de atividade altruísta que você pratica está se tornando exceção entre os artistas. Você acha que isso é verdade?
Carlos Santana: Sempre acontece (de artistas trabalharem em prol de causas nobres). Infelizmente, porém, alguém decidiu que boas notícias não vendem jornais. Mas sei que Sting, Stevie Wonder, Prince, Quincy Jones, muita gente, se envolve para ajudar a curar as pessoas vivas no planeta. E isso é bom. Não precisamos anunciar o que fazemos. Como Paul Newman: ele doa 240 mil dólares por ano, e ninguém sabe disso. É um pouco vulgar ficar falando disso.

Nosso novo slogan é que você pode fazer algo partindo do coração, você pode fazer uma diferença no mundo, e ainda assim ganhar dinheiro. É um conceito de situação em que ou se ganha ou se ganha, para as pessoas vivas no planeta.

Você diz "pessoas vivas no planeta" - o quê exatamente quer dizer com isso?
Santana:: Todo o mundo sabe que eu não sou nacionalista, não gosto de bandeiras. Não mesmo. Respeito pessoas assim, mas é uma existência de dinossauro. Para mim, a única bandeira válida é um homem, uma mulher e uma criança. Essa é a única bandeira à qual juro lealdade. Hoje em dia tudo são negócios. Não existe mais bandeira nem país. E, quanto antes a gente se der conta disso, mais rapidamente poderá curar os males da família.

Se eu pudesse fazer uma coisa antes de morrer, seria plantar as sementes da visão de que todo o mundo, no planeta inteiro, terá água, eletricidade, alimento e educação gratuitos.

Em troca, o que queremos é despertar sua consciência para ser uma pessoa melhor. Alguém que tenha mais compaixão, mais sabedoria gentil, mais paciência. Eu sinto o que dizia César Chavez (o sindicalista já falecido): "Si, se puede" ("Sim, podemos"). Essa é a única pauta que merece ser defendida com paixão. O resto geralmente acaba revelando ser algo muito superficial.

Tendo dito tudo isso, em quem você vai votar na próxima eleição presidencial dos EUA?
Santana: Desde que me permitiram vir aos Estados Unidos, sempre votei pelo mal menor, se existe tal coisa. Provavelmente votarei em Kerry (o candidato democrata). O presidente Bush está fazendo os EUA terem uma imagem horrível em todo o mundo. Ele não representa o coração dos EUA. Representa outra parte da anatomia, mas não o coração.

Qual será seu próximo projeto musical?
Santana: Vou completar o próximo álbum Santana com Clive Davis (presidente da BMG América do Norte). No momento estamos juntando as canções. É como fizemos em Supernatural. Criamos canções como sapatinhos de cristal e então partimos à procura das Cinderelas.

As canções precedem os colaboradores?
Santana: Isso mesmo. Estamos na fase de procurar canções. Me sinto grato a todo o mundo, desde Lauryn Hill até Dave Matthews e Plácido Domingo. A maioria das pessoas só trabalha em um nível e fica nele. Tipo "eu faço salsa, eu faço norteño", e fica nisso. Eu apenas faço música. Ponto. E isso me confere um espectro diferente.

Isso é porque você é instrumentista, em oposição a ser cantor?
Santana: Sim, e também por causa de meu coração. Meu coração está aberto para complementar, não para competir.

Existe algum momento único em sua carreira que se destaca como momento definidor?
Santana: Quando tocamos no Fillmore West, em 1970, e Tito Puente e Miles Davis foram assistir ao show três noites seguidas, no balcão, nos aplaudindo. Então eu soube que não era apenas algo passageiro. Quando vi Tito Puentes e Miles Davis ali, nos aplaudindo, foi a confirmação de que estávamos fazendo algo certo.
 

Reuters

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