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Ministro superstar do governo Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Gil será o embaixador da cultura brasileira em Miami na próxima quarta-feira, quando receberá uma homenagem no Grammy Latino, a festa da música hispânica e latina nos Estados Unidos.
O Gil cantor, ganhador de dois Grammys, concorre também a uma terceira estatueta na categoria de melhor disco de música pop contemporânea brasileira com seu 41º álbum, Kaya N´Gan Daya - Ao Vivo, no qual gravou músicas de Bob Marley.
Ícone da música transformado em motor da política, Gil é um entusiasta do peso simbólico que sua atividade pode ter para agitar toda a cultura. "A música popular no mundo e em especial no Brasil é muito representativa da força da alma, da força do espírito e expressão do povo. A música ganhou a estatura de instituição importante para o povo brasileiro", disse Gil à Reuters em entrevista recente, referindo-se à sua nomeação para o ministério.
Oito meses depois de ter aterrissado no cargo, ele adotou os ternos e as longas jornadas de viagens e compromissos oficiais dos políticos. Não abandonou, porém, os pequenos dreadlocks nos cabelos e as referências filosófico-tropicalistas em seus discursos.
Aos 61 anos, o artista-ministro continua atendendo os fãs como antes, parando para conversar com quem o interpela no meio da rua, como aconteceu no começo do mês em Parati, durante a festa literária da cidade. Se a fama já existia, o novo cargo só fez aumentar o assédio. Os fãs do cantor e compositor pediam beijos e fotos, o tocavam, o apertavam e o puxavam. Os do ministro entregavam obras, buscavam conselhos e ajuda para projetos artísticos.
Gil fala pausadamente, atendendo àqueles que o procuram, embutindo um pouco de reflexão a cada uma de suas frases, pescando palavras enquanto pensa. Quando responde a questões mais sérias, porém, é rápido e cortante, principalmente quando indagado sobre sua dupla jornada de ministro e músico, alvo de críticas nos primeiros meses de mandato. "Não tem dupla jornada. É uma só, não tem conciliação", disse. "Outro dia eu vinha com o violão nas costas, passou um senhor por mim e disse: 'olha aí sua caneta para fora, não é com essa que você assina seus documentos mais importantes?"'.
Agulhas no corpo cultural
Na primeira etapa de mandato, Gil investiu energia em começar um "do in antropológico" na área, "espetando agulhas no corpo inteiro da cultura" ao tentar abrir o diálogo com representantes das artes em diferentes pontos do país, buscando valorizar a diversidade regional, tanto nos tipos de manifestação quanto em sua localização geográfica.
Para discutir leis de incentivo, que ainda beneficiam prioritariamente os grandes centros, promoveu um seminário em conjunto com secretarias dos Estados em 15 cidades brasileiras, do qual participaram 5 mil pessoas, resultando em 93 documentos. "Precisa ter o discurso, precisa ter o chamamento à reunião, ao simpósio, à tomada de consciência, à reflexão, às responsabilidades em relação à cultura", afirmou, criticando aqueles que vêem a matéria como fora da realidade cotidiana. "Cultura é ordinária, é igual feijão com arroz, é necessidade básica, tem que estar na mesa, na cesta básica, é um bem essencial a ser dado", continuou, empolgado.
Para alguns especialistas da área cultural, porém, tal missão ainda está na esfera do discurso e ainda não foi revelada num projeto de gestão. Além disso, algumas das mudanças podem ficar limitadas pela ação dos lobistas do setor, principalmente o dos cineastas, que nos últimos anos foram os mais beneficiados por essas leis, baseadas na renúncia fiscal. No âmbito prático, o fato é que o ministério se debate com a falta de verba para investimentos estatais e está em processo de reestruturação.
Gil quer que orçamento da pasta suba de 0,2 para 1% do Produto Interno Bruto (PIB), chegando a cerca de 800 milhões de reais. Para o ano que vem, no entanto, o orçamento prevê um aumento modesto para a pasta, de 129 milhões para 220 milhões de reais. Uma das saídas que ele vê está na criação de uma loteria cultural para financiar projetos e que deve ser implantada no ano que em conjunto com a Caixa Econômica Federal, além da criação de um fundo que garanta a migração para um novo modelo de apoio a iniciativas culturais.
No ministério, Gil enxugou o organograma, buscando evitar a duplicação de funções, extinguindo secretarias temáticas, voltadas para música, artes cênicas, patrimônio, artes plásticas e livro e leitura e manteve três núcleos mais amplos que cuidam dessas manifestações - a Fundação Nacional de Arte (Funarte), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Biblioteca Nacional.
Brasil: missão mundial
Na esfera internacional, Gilberto Gil é visto como um ativo importante para projetar o nome do Brasil, e tem mostrado saber usar do impacto simbólico que seu nome produz. Em viagem recente à Europa, ele formalizou a criação de um grupo de Amigos do Brasil para divulgar o país.
Participam dele o ex-ministro da Cultura francês Jack Lang, o espanhol Jorge Semprum, o português Manuel Carrilho e o italiano, Walter Veltroni, atual prefeito de Roma. Outros intercâmbios foram fechados com Ucrânia, Angola, Marrocos, Peru e Chile, além de Argentina e Uruguai. "O Brasil é um país importante no governo do mundo.(...) Tanto do ponto de vista do governo político quanto do ponto de vista do governo espiritual", disse.
Ele acredita que a complexidade do país, com suas características mestiças, aberto a receber bem outras raças e culturas, deve revelar sua importância para outros povos. "O papel do Brasil é o da fraternidade universal. Nós não viemos aqui para ser potência hegemônica de nada. Nós somos potência solidária, com o potencial de todos, de todas as nações", disse Gil, que também é embaixador da paz pela Unesco.
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