0

"Gosto de me sentir esgotado quando saio do palco", diz Robert Smith

The Cure, banda liderada pelo cantor inglês, se apresenta nesta quinta (4) no Rio de Janeiro e no sábado (6) em São Paulo

4 abr 2013
13h54
atualizado às 16h14
  • separator
  • 0
  • comentários

Quando mais jovem, Robert Smith costumava pensar que se aposentaria aos 55 anos. Há pouco mais de um ano de completar a data limite, o líder do The Cure não parece dar sinais de que a carreira esteja chegando ao fim. De volta ao Brasil após 17 anos - a banda se apresenta nesta quinta-feira (4) na HSBC Arena, no Rio de Janeiro, e no sábado (6) no Anhembi, em São Paulo -, o vocalista deixa claro em entrevista ao Terra que os fãs podem esperar shows longos e recheados de hits. "Fizemos alguns shows em festivais nos últimos cinco anos em que tivemos que tocar por 2 horas ou menos e, quando saímos do palco, estávamos frustrados", analisa ele sobre as apresentações. "Gosto de me sentir esgotado quando saio do palco, de deitar no chão como se eu pudesse dormir ali."

<p>Smith tem tentado ser mais aventureiro com o The Cure, fazendo shows em locais em que nunca havia tocado, como China e Rússia</p>
Smith tem tentado ser mais aventureiro com o The Cure, fazendo shows em locais em que nunca havia tocado, como China e Rússia
Foto: Divulgação

Com mais de 30 anos de carreira - a estreia, Three Imaginary Boys, foi lançada em 1979 -, Smith faz planos para o futuro, mas sem impor prazos ou obrigações. Liberdade é a palavra de ordem. "Com a independência podemos fazer tudo que queremos sem ter que perguntar a ninguém", comenta. Se as amarras não existem, os planos são muitos: lançar finalmente as sobras de 4:13 Dream, álbum de 2008, fazer um filme com os melhores momentos da turnê sulamericana, uma nova série de shows tocando os álbuns da metade dos anos 1980 na íntegra e, quem sabe, até um disco novo de inéditas.

Experiente, Smith se dá ao luxo de tocar menos e se aventurar em lugares novos - o The Cure se apresentou pela primeira vez na China em 2007 e na Rússia em 2012. Do Brasil, lembra da loucura da primeira passagem - "foi a primeira grande sensação de que estávamos nos tornando uma banda gigante" - e de estar doente na segunda vez. 

<p>The Cure volta ao Brasil após 17 anos do show no Hollywood Rock de 1996</p>
The Cure volta ao Brasil após 17 anos do show no Hollywood Rock de 1996
Foto: Divulgação

O vocalista garante que continua compondo muito, mesmo com o passar dos anos. O que mudou, no entanto, foi a autocrítica. "Quando ouço algumas coisas, não consigo não pensar que já fiz aquilo melhor antes. Mas fico feliz que eu tenha a honestidade e integridade de olhar para essas canções e saber que elas não são tão boas quanto as que eu gravei", fala, sem autopiedade. Smith parece ter total noção do tamanho e importância do The Cure e do legado que construiu. "Não é algo que me incomode (parar de compor), porque eu já fiz muito."

Confira a entrevista completa

Terra - Nos últimos anos vocês têm feito shows longos, com mais de 3 horas e 30 músicas. O que leva a fazer apresentações tão grandes?
Robert Smith - Nós gostamos. Para nós é como uma jornada tocar por tanto tempo. Fizemos alguns shows em festivais nos últimos cinco anos em que tivemos que tocar por 2 horas ou menos e, quando saímos do palco, estávamos frustrados. Gosto de me sentir esgotado quando saio do palco, de deitar no chão como se eu pudesse dormir ali. Quando sentamos para definir o setlist, chegamos a 30, 50 canções sem nem pensar direito. Já não fazemos tantos shows, e especialmente quando vamos a lugares que não costumamos, como a América do Sul, tocaríamos até as pessoas saírem, se fosse possível. São muito anos de carreira, então sempre foi mais fácil nos primeiros dez anos pra definir o setlist.

Terra - Foram 17 anos sem vir ao Brasil. Por que tanto tempo longe do País?
RS - 
Não há razão para termos ficado tanto tempo sem ir. Mas, por exemplo, não tínhamos tocado na Rússia até o ano passado, nem na China até 2007. E há lugares que são garantias, como os Estados Unidos. Tocamos em Nova York, Los Angeles, Chicago, conseguimos fazer uma turnê de 25 shows lotados por lá facilmente. Após seis semanas de turnê você está feliz e exausto, e ai você pensa em tocar na Europa e são mais 15 cidades, mais seis semanas. Infelizmente, às vezes você acaba ficando nesse círculo seguro. Em 2007 eu quis dar um novo rumo aos shows, para irmos a lugares que nunca tínhamos ido ou que não voltávamos há muito tempo. De certa forma, meio tarde na carreira, estamos tentando ser mais aventureiros. Me desculpem por ter ficado 17 anos longe. Espero não ficar mais 17.

Terra - Vocês passaram pelo Brasil duas vezes, em 1987 e 1996. O que lembra do País?
RS -
 Da primeira vez, em 1987, foi muito intenso. A turnê no Brasil e na Argentina me fez perceber o quão popular o Cure estava ficando, por que em qualquer lugar que íamos estava lotado de pessoas. Foi a primeira grande sensação de que estávamos nos tornando uma banda gigante. Foi muito divetido, e éramos muito jovens, aproveitamos tudo porque não sabíamos quando iríamos voltar. E voltamos em 1996 para o Hollywood Rock, tocando com o Smashing Pumpkins. Eu estava doente, então quando cheguei no Brasil me lembro de pensar que precisava ficar muito bêbado para melhorar. Passei boa parte da semana doente, então acho que o show foi bom, mas apenas ok. 

Terra - Como escolheram as bandas de abertura para os shows (a paulista Herod Layne toca no Rio e São Paulo, enquanto os gaúchos do Laut Music se apresentam apenas na capital paulista)? Ouviram todas as sugestões enviadas?
RS -
 Sempre gosto de escolher a banda local. Pedi ajuda do pessoal da banda, mas à noite eu colocava os fones de ouvido e ficava curtindo. É bom, porque agora conheço muito mais sobre rock latino do que conhecia há três semanas. É triste que no final eu só pudesse escolher duas bandas, gostei de umas cinco ou seis. Queríamos uma banda que tocasse alto. Ouvi uma chamada Medialunas que também é boa. Fizemos a seleção baseados em dois pontos principais. O primeiro era tentar dar espaço para novas bandas. O segundo é que as bandas criassem uma boa atmosfera para subirmos ao palco. Mesmo nos festivais, estou sempre preocupado com quem toca antes da gente, porque queremos criar uma experiência para o público: a partir do momento em que você entra no local do show, você verá e ouvirá música boa.

Terra - Vocês têm muitas músicas que sobraram do último disco, 4:13 Dream. O que pretendem fazer com elas?
RS - São várias, valem um disco. Vamos lançá-las no verão (do Hemisfério Norte), mas quero achar uma forma diferente de lançar. Porque nao é algo que iremos fazer uma turnê. Para o resto do mundo é um disco do The Cure, mas para mim nao é, até porque gravamos com um guitarrista (Porl Thompson) e agora temos outro na banda (Reeves Gabrels). Para mim é estranho, Reese está super adaptado com a banda, e quando sai um disco novo ele não está nele. Ao mesmo tempo, quanto mais demorar a sair, mais estranho ficará. Então terei que descobrir uma maneira de lançar as músicas, sejam separadas ou em disco. Talvez a gente solte algo para que os fãs ouçam antes, para ver a reação deles. Mas, tendo dito tudo isso, o álbum é muito bom.

Terra - Vocês se mantêm sem contrato com gravadoras?
RS -
 Não temos e não temos vontade de ter. Com a independência podemos fazer tudo que queremos sem ter que perguntar a ninguém. Vamos gravar um filme na turnê da América do Sul, e quando acabar poderemos fazer o que quisermos com ele, seja lançar na internet, nos cinemas, o que for. No atual ponto de nossa carreira, não precisamos de uma gravadora, seria um grande desperdício de tempo. 

Terra - Vocês tocaram seus três primeiros álbuns na íntegra em 2011. Pensam em fazer mais desses shows?
RS -
 Os shows de Sydney foram comemoração, e foram muito bons, então sentimos que havia clima para Londres, Nova York e Los Angeles. Mas não é algo que faríamos uma turnê. Filmamos e ficou bom, mas nunca lançamos, não sei o que aconteceu. Mas também, por que lançar algo que nos remete ao primeiro disco? Se fizéssemos de novo seria com outros albuns, coisas como o Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me e o The Head On The Door, os álbuns do meio dos anos 1980. Talvez façamos no próximo ano.

<p>Vocalista pensava em se aposentar aos 55 anos, mas já começa a rever decisão</p>
Vocalista pensava em se aposentar aos 55 anos, mas já começa a rever decisão
Foto: Divulgação
Terra - E este filme que vocês pretendem gravar na América do Sul, como será?
RS -
 Já estamos gravando várias coisas, como os ensaios. Vamos gravar todos os shows e o filme deve ser baseado no melhor deles. Mas deve ter coisas de todos os shows, um filme sobre a turnê. Vai depender do material que tivermos. Só então vamos pensar em quão ambiciosos seremos com o filme. Adoraria que ele fosse lançado no cinema, que as pessoas assistissem na tela grande. Tomara que seja fantástico assim.

Terra - Após mais de 30 anos de carreira, como é compor hoje?
RS -
 Muito mais difícil, principalmente compor algo que eu ache realmente que é melhor do que tudo que fiz antes. Ainda componho muito, mas quando ouço algumas coisas não consigo não pensar que já fiz aquilo melhor antes. Mas fico feliz que eu tenha a honestidade e integridade de olhar para essas canções e saber que elas não são tão boas quanto as que eu gravei antes. É por isso que não lançamos tanto material. Mas não é algo que me incomode (se eu não compor mais), porque eu já fiz muito. Talvez um dia eu acorde durante uma turnê e tenha uma grande ideia. Mas acredito que, se entrássemos em estudio como as bandas de antigamente, para compor sairia algo bom.

Terra - E vocês cogitam um novo álbum?
RS -
 Provavelmente, mas não quero falar muito, porque não quero decepcionar as pessoas. Quando gravamos os shows dos primeiros discos, todo mundo ficava cobrando. Se fosse antigamente, ninguém saberia nem que gravamos os shows até que eles fossem lançados. Então espero que façamos um novo álbum, mas eu não tenho controle sobre isso. Adoraria que o Cure fizesse outro disco antes de pararmos.

Terra - Você tem uma data para se aposentar?
RS -
 Sempre pensei que ia me aposentar aos 55 anos, então ainda tenho um ano e um mês. Dia 21 de abril de 2014 é minha data oficial de aposentadoria, mas até lá, quem sabe o que pode acontecer?

SERVIÇO
The Cure no Rio de Janeiro
04 de abril - 21h30
HSBC Arena (Av. Embaixador Abelardo Bueno, 3401)
Ingressos: de R$ 200 (nível 3) a R$ 600 (pista premier e camarote)
Venda: Livepass

The Cure em São Paulo
06 de abril - 20h
Arena Anhembi
Ingressos: R$ 275 (pista) - pista premium está esgotada
Venda: Livepass

Fonte: Terra
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade