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"Ele não reage bem, mesmo sendo humorista", diz Roger sobre Mazzeo

19 jul 2012
09h33
Rafael Machtura

"O que eu disse para ele foi minha opinião como adulto sobre tudo isso", explicou Roger Rocha Moreira, sem parecer muito incomodado com toda a polêmica em cima da declaração de Bruno Mazzeo sobre o Ultraje a Rigor. Na última sexta-feira (13), dia mundial do rock, o humorista escreveu no Facebook que o grupo está "vivendo um fim de carreira trágico". A resposta do vocalista e guitarrista da banda, que em 2011 completou 30 anos de atividade, foi vista por muitos como uma bela de uma lição. Mas, para Roger, tudo isso não passou de uma imaturidade do ator. "Ele não reage bem, mesmo sendo humorista. Ele deveria rever seus conceitos, agir melhor com as críticas", disse ao Terra, nessa quarta-feira (18).

Como réplica à crítica de Mazzeo, o músico também usou a rede social e disse: "meu nome está escrito de maneira indelével na história da música desse País. O seu, se você tiver sorte, pode um dia ser mais do que uma nota na história de Chico Anysio. Para falar de decadência, você precisaria, no mínimo, ter estado no topo um dia". E Roger já esteve no topo. Sucesso de crítica e público, Ultraje a Rigor é considerada uma das bandas mais inteligentes do rock n' roll nacional, com suas letras que apontam, de uma forma extrovertida, o caos que é ser brasileiro.

E, pela ironia do destino, o Ultraje se encontra atualmente no topo das paradas. Embora há quem considere a participação do quarteto no programa Agora é Tarde, apresentado por Danilo Gentili na Band, fim de carreira, a banda paulistana é a mais vendida na categoria rock na iTunes brasileira, com o disco Ultraje a Rigor vs. Raimundos, lançado neste mês. O álbum, distribuído pela Deck Disc, reúne os dois grupos interpretando os clássicos da outra banda, como Inútil, Nós Vamos Invadir Sua Praia, Puteiro em João Pessoa e Eu Quero Ver o Oco.

No papo com o Terra, Roger conversou sobre o ostracismo do Ultraje nos anos 1990, sobre o seu desejo de se aposentar ("não quero mais essa responsabilidade de compor para o Ultraje") e sobre posar nu para a G Magazine ("tinha até uma música que falava sobre isso, seria hipocrisia dizer não").

Confira a entrevista completa a seguir:

Terra - O que você sentiu quando viu a declaração do Bruno Mazzeo no Twitter?
Roger - Estranhei, porque sabia que ele era meu fã, aí pensei: "ué? Ele me curtia até outro dia e agora fala isso?". O cara tinha uma rixa com o Danilo (Gentili), mas eu não tenho nada a ver com isso só pelo fato de trabalhar lá.

Terra - Você disse também que já tinha cedido músicas do Ultraje para programa e filme dele. Qual era sua relação com o ator?
Roger - Sim, não é de hoje que ele fala que é meu fã. Ele chegou até ter uma banda e sempre vinha conversar comigo sobre música no Twitter, a gente seguia um ao outro. Quando tinha o programa Cilada, o Bruno me pediu para usar duas músicas, Nada a Declarar e Nós Vamos Invadir Sua Praia, e eu cedi.

Terra - E o que você achou sobre ele falar em decadência?
Roger - O que eu acho eu já disse para ele. Ele não reage bem, mesmo sendo humorista. Ele deveria relevar o que as pessoas falam, e o que eu disse foi a minha opinião como adulto sobre tudo isso. Mas o Agora é Tarde está apresentando uma coisa nova ao brasileiro, o que já é meio comum nos Estados Unidos. É essa brincadeira agressiva desses talk-shows, que, por serem mais seguros - o David Letterman, o Jay Leno, o Conan O'Brien -, o cara xinga e na semana seguinte está no programa deles. Parece que o Bruno está tentando angariar simpatia agora. Mas ele deveria rever seus conceitos, agir melhor com as críticas.

Terra - Teve uma época que as gravadoras perderam interesse no Ultraje, ali pelos anos 1990, e vocês tiveram uma fase de ostracismo. O que aconteceu nessa época?
Roger - Não foi só com a gente, mas com rock inteiro. Não sei te dizer o que aconteceu, mas houve uma mudança no estilo predominante nas rádios e TVs. Mas isso não aconteceu com o público, a gente continuou fazendo shows, uns 12/15 por mês. A gente saiu da Warner e continuou nossa carreira. E no fim dos anos 1990, eu gravei um disco ao vivo, banquei tudo sozinho e tentei levar para as gravadoras, mas ninguém quis. Aí, o João Augusto, da Deck, a pedido do Rafael Ramos, pegou a gravação, mixou e lançou. Era para ser a comemoração de 15 anos, mas virou 18 Anos Sem Tirar!. Aí, ele nos contratou para mais um disco, na verdade eu só queria lançar o ao vivo. Depois vieram Os Invisíveis, em 2002, e o Acústico MTV, em 2005, além das coletâneas.

Terra - E como é ser a banda de apoio do Gentili? Quais são as vantagens e desvantagens disso?
Roger - As pessoas se confundem com isso, não é uma banda de apoio, tipo o Sexteto do Jô Soares. É um projeto em parceria, que tem o prestígio do Danilo e do Ultraje a Rigor. A gente compõe vinhetas, escolhe as músicas de entrada e saída, tudo. Temos liberdade total para tocar o que queremos. Tem sido gostoso participar disso, levar nossa música para as pessoas mais novas, via o programa. A molecada interage no Twitter, pergunta qual música a gente tocou. E olha que a gente economiza nas nossas músicas, toca umas coisas que tem a ver com o tema ou com o entrevistado. Mas se quiséssemos tocar só nossas canções, tocaríamos.

E não tem desvantagem nenhuma. O Danilo me convidou para participar do seu novo projeto no final de 2010, no Twitter, depois veio aqui em casa para conversar sobre o assunto. Eu falei para ele que, se não fosse atrapalhar minha carreira, beleza. E eu já estava diminuindo o ritmo, tocando mais perto de São Paulo, quase me aposentando. E eu já era fã desse formato de programa, então, sabia o que tinha que fazer.

Terra - Mas a banda está se aposentando?
Roger - É um projeto meu, se a banda quiser continuar que continue. Foi o que eu falei em Nada a Declarar: "eu não tenho nada pra dizer, também não tenho mais o que fazer". A minha ideia era que o último disco do Ultraje fosse esse ao vivo, mas aí veio o acústico e uma coisa levou a outra. A carreira toda foi uma coisa gostosa, mas eu não quero mais essa responsabilidade de compor para o Ultraje. Não tenho dificuldade de compor, mas preciso de um tema que me interesse, algo pessoal para dizer alguma coisa. Quando me pedem para compor, como me pediram para Maísa, faço numa boa. Não quero falar que acabou, porque posso mudar de ideia, mas já faz um bom tempo que não componho para o Ultraje. A última foi em 2005, a pedido do Rafael para o acústico, Cada um Por Si, e as que foram lançadas na sequência, no Música Esquisita a Troco de Nada.

Terra - E como surgiu a ideia de vocês e o Raimundos gravarem as músicas uns dos outros, no Ultraje a Rigor vs. Raimundos?
Roger - Foi um convite do Rafael, que veio com a ideia das bandas trocarem repertório. Pô, achei genial e foi um projeto fácil de executar, gravamos em três finais de semana, fazendo os arranjos sem ter noção do que o Raimundos estava fazendo com nossas músicas, porque cada banda escolheu o que iria gravar. Só ouvimos o que deu quando já estava tudo pronto.

Terra - E o disco é um dos mais vendidos no iTunes. Como é para você encarar isso depois de tanto tempo fora das paradas?
Roger - É claro que é com muito orgulho, embora não tivesse previsto isso. Desde o começo, eu tinha sempre a preocupação de fazer uma coisa mais durável e vê-las durarem me dá muito orgulho. Modéstia a parte, mas hoje em dia já estou mais acostumado. Cada nova geração que escuta o Ultraje, curte o som. E olha que eu já vi algumas gerações crescerem!(risos). Seja através dos pais, do irmão mais velho ou agora com o programa, a galera curte. É bom ver que fizemos um trabalho durável. Isso é herança de uma geração que curte trabalhos duráveis - Stones, Chuck Berry, Elvis Presley, Beatles. Uma galera que tinha um comprometimento com a arte. Hoje nem se fala mais que a pessoa é artista, hoje se fala "famoso", "celebridade".

Terra - E quem você acha mais engraçado nas composições: você ou o Rodolfo (ex-vocalista do Raimundos)?
Roger - (Risos). O Ultraje não nasceu para ser engraçado, mas sim espirituoso. As do Raimundos, sim, são engraçadas. Principalmente pela cara de pau do Rodolfo em falar aquelas coisas. Sempre gostei de Raimundos, mas nunca tinha analisado as letras profundamente e, quando peguei para cantar aquilo, falei: "cara, como ele teve cara de pau em falar isso?" (risos). Ouvi também o pessoal falar que com as versões do Ultraje finalmente deu para entender as letras.

Terra - Os dois primeiros discos do Raimundos - Raimundos e Lavô Tá Novo - são mais escrachados, mas Lapadas do Povo tem composições mais sérias e não teve um grande sucesso comercial. O Ultraje já sofreu pressão das gravadoras para mudar o estilo das composições?
Roger - Na verdade não, porque nosso primeiro disco foi um puta sucesso e depois - fui saber isso muito tempo depois, imagina, inocente na época - que todo mundo ficou espantado com o sucesso do segundo disco também. Tinha essa coisa das pessoas acharem que depois de um primeiro disco de sucesso o segundo seria um fracasso. Mas isso espantou a gente, não prevíamos tudo isso que aconteceu. Pela Warner lançamos um compacto sem muito sucesso (Liberdade para Marylou, de 1986), mas descobrimos que foi um erro estratégico deles, porque os jovens, que é a galera que ouvia nosso som, não compravam compactos. E aí, com a saída do André Midani no comando da Warner, a gente ficou cozinhando na gravadora. A gente estranhou, porque ficaram empurrando para o ano seguinte para gravarmos. Não lembro quem assumiu, mas mudou para uma direção mais pragmática, voltada para as vendas. Mas o André sempre nos dizia que o som que fazíamos era genial, que era o público que não estava preparado para aquilo.

Terra - E que fim deu a briga com a equipe do Peter Gabriel no SWU de 2011, que primeiro falou que era com o Chris Cornell?
Roger - A história do Chris Cornell foi um erro do público e da mídia. A gente tem um roadie que é parecido com ele e no show o roadie passou pelo palco e eu falei: "olha o Chris Cornell", e a galera se confundiu. Com o pessoal do Peter Gabriel teve duas brigas na verdade. A primeira foi que a produção dele, o empresário, a equipe queriam cortar nosso som por causa do atraso, como se nossa banda fosse um acidente de percurso ali. Entrei no palco sozinho, quando olhei para trás, eles estavam barrando o resto de pessoal. Voltei lá e bati boca com eles - "de maneira nenhuma que não vão nos deixar entrar, se quiserem culpar alguém que culpe São Pedro por causa da chuva" -, e nem era para o público ficar sabendo disso. A outra briga foi quando meu irmão passou por trás do palco, onde estavam todos os equipamentos do Peter Gabriel, deixaram só uma tripinha para gente na frente, e um roadie deles veio tirar satisfação, falando que ele não podia estar ali. Aí, ele deu um soco no meu irmão, que revidou, e foi essa a confusão. Mas depois o Peter Gabriel ligou para mim e pediu desculpa. Está vendo como está virando moda as pessoas virem se desculpar comigo? (risos)

Terra - E por que você posou nu para a G Magazine?
Roger - (Risos). Eu não tinha nada contra aquilo. Era uma coisa que poderia fazer, tinha até uma música que falava sobre isso (Pelado, do disco Sexo!, de 1987), seria hipocrisia dizer não. E eu não tinha nada contra nudez, frequentei na juventude áreas de nudismo. Quando me fizeram a proposta, falei que queria tanto de cachê, sem comissão por vendagem, e na época falaram que foi o maior cachê. Me pagaram, eu fiz.

Terra - E eu vi na revista Bizz que ficaram brincando que você tinha o pênis pequeno.
Roger - Ah, isso é uma brincadeira comum entre os homens, sabia que isso ia acontecer. Tenho o pênis do tamanho padrão, 14/15 cm. Não tem homem que não encana com isso. Mas já estou acostumado com o bullying, isso é comum no Ultraje e passei por isso a vida inteira. Tem que levar na boa.

Terra - E como você analisa a transformação do rock nos anos 1980 para o rock atual?
Roger - O rock depois dos anos 1990 teve coisas bacanas, Raimundos, Sepultura, Charlie Brown Jr., mais recente os Autoramas, Retrofoguetes, mas esses não ficam conhecidos, não vão para rádio. É isso que mudou muito. No nosso tempo não tinha MTV, mas tinha Chacrinha, que era até mais eficiente, mas a coisa virou muito comercial. A MTV nem passa mais clipe. Tanto faz se é música baiana, sertaneja, rock, parece que só muda o arranjo, porque as letras são todas iguais. É tudo mundo vaselina, em cima do muro, eles têm as mesmas opiniões - "o que a pesquisa de mercado diz é o que vou fazer". E foi a arte que sofreu mais. A gente ia nos programas televisivos e convivia com outros estilos: Fagner, Elymar Santos, Roberta Miranda e tudo bem. Hoje todo mundo quer ser a mesma coisa, é horrível. Virou parte do negócio, o jabá - que todo sabe e mundo faz vista grossa - é lugar comum hoje. É que nem política, essa troca de favores, quem paga mais toca mais.

Terra - E qual é a sua relação com o Sérgio Serra (guitarrista do Ultraje de 1987 a 1990 e 2002 a 2009) hoje?
Roger - Ele mora em Teresópolis (RJ), então a gente não se vê muito. É uma relação de amizade. Ele se irritou com alguma coisa e pediu para sair. Ele fez uma escolha, na minha opinião, errada ao sair, para cuidar da carreia do jeito dele. Ficamos um grande tempo sem se falar, ele tentou contemporizar as coisas por um tempo, mas começou a ficar puto e saiu. Na primeira vez que ele saiu, ele não saiu brigado e quando precisei de um guitarrista pedi para voltar. Mas hoje está tudo tranquilo, já me pediu desculpas. Está vendo como está virando moda as pessoas virem se desculpar comigo? (risos)

"Não quero mais essa responsabilidade de compor para o Ultraje", diz Roger sobre possível aposentadoria
"Não quero mais essa responsabilidade de compor para o Ultraje", diz Roger sobre possível aposentadoria
Foto: Edson Lopes Jr. / Terra
Fonte: Terra

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