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Após Rock in Rio, cidade criará decreto com normas para próximos megaeventos

Erros e acertos do festival servirão de base para documento elaborado pela prefeitura.

3 out 2011
15h32
atualizado às 18h39
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Encerrado na madrugada desta segunda-feira depois de levar 700 mil pessoas à Cidade do Rock, o Rock in Rio vai servir de base para a elaboração de um decreto com normas para eventos de grande porte no Rio.

De acordo com a prefeitura, o decreto será baixado até o fim desta semana para regulamentar os próximos megaeventos da agenda do Rio até 2016, com base nos acertos e erros do festival de música.

A experiência servirá para definir ações que devem ser tomadas pelo poder público - como o bloqueio de ruas e a organização do transporte coletivo - e obrigações para os organizadores de futuros eventos.

O setor privado deverá cumprir exigências mínimas de infraestrutura e serviços a oferecer, de acordo com o público esperado - como o número de banheiros e pontos de venda de alimentos e bebidas.

Tido como o evento 'inaugural' da agenda de grandes eventos pré-Olimpíada, o Rock in Rio recebeu durante sete dias shows de nomes tão variados como Stevie Wonder e Shakira, Coldplay e Rihanna, Elton John e System of a Down, Jannele Monáe e Marcelo Camelo.

O festival registrou problemas principalmente no primeiro fim de semana, como alto número de furtos (mais de 400 foram registrados nos três primeiros dias), longas filas nas lanchonetes e nós no trânsito na saída e em alguns dos acessos.

No geral, porém, correu bem e foi um sucesso de público - e de turistas. De acordo com a Riotur, o festival trouxe à cidade 315 mil pessoas, sendo 20% do exterior, sobretudo dos países vizinhos.

Investimentos e retorno

Segundo a Riotur, a prefeitura investiu R$ 54 milhões para viabilizar o festival e arrecadou R$ 800 milhões com a sua realização. A maior parte dos investimentos foi na construção do Parque dos Atletas, que custou R$ 44 milhões e será área de lazer para os atletas em 2016.

O espaço tem piso ora pavimentado, ora forrado de grama artificial, evitando o lamaçal que marcou a primeira e a terceira edições do festival (em 1985 e 2001, respectivamente).

Após o desmonte da estrutura, ele funcionará como área de esportes e lazer para a vizinhança e deve abrigar entre dois e três grandes eventos por ano, segundo a prefeitura.

Além da arrecadação contabilizada, o superintendente geral do Rio Convention & Visitors Bureau, Paulo Senise, ressaltou os ganhos para a imagem da cidade.

"O festival revigora a imagem do Rio como uma cidade com capacidade para sediar um evento desse porte", disse. "A divulgação espontânea que um evento desses traz funciona muito bem na construção da percepção do Rio como uma cidade para todos os públicos."

Porém, Senise afirma que o Rock in Rio reforçou para a necessidade de resolver velhos problemas. "Na nossa lista (de ajustes necessários), o aeroporto está no topo. É no desembarque que ocorre o primeiro contato dos visitantes com a cidade, e eles precisam encontrar um aeroporto mais atualizado e com maior capacidade de operação", afirma, cobrando ainda melhorias no transporte público e na oferta hoteleira, expansões em andamento.

Lacunas no transporte

Para viabilizar a chegada de 100 mil pessoas por dia de evento, a prefeitura montou um esquema de trânsito que custou quase R$ 1 milhão. A operação envolveu a interdição total ou parcial de 15 vias no entorno, a criação de linhas de ônibus especiais e a distribuição de 20 mil adesivos para moradores poderem atravessar os bloqueios com seus carros.

Professor do programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, Ronaldo Balassiano considerou oportunas a restrição a carros particulares e o foco no transporte coletivo, mas avalia que faltaram medidas para o restante da cidade.

"O esquema funcionou bem na chegada (à Cidade do Rock), mas no resto do Rio todos passavam pelos mesmos engarrafamentos de sempre. Não adianta ter um sistema de ônibus especiais se eles não têm prioridade nas vias", disse.

Para Balassiano, em futuros eventos seria aconselhável ter corredores especiais de trânsito nos principais corredores da cidade, para evitar que pessoas levem duas horas para chegar ao local ou que os ônibus especiais fiquem presos no trânsito ao voltar para buscar novos grupos.

"Mau comportamento"

No domingo, último dia do evento, o prefeito Eduardo Paes e o presidente do evento, Roberto Medina, oficializaram o anúncio de que a quinta edição do festival será realizada em 2013 - mesmo ano em que a cidade recebe o Papa Bento 16, na Jornada Mundial da Juventude.

A próxima edição deverá ter o acesso facilitado, já que, até lá, a prefeitura deve inaugurar um dos dois corredores expressos de ônibus (o sistema Bus Rapid Transit, BRT) que chegarão à região - a mesma onde, em 2016, acontecerá a maioria das competições olímpicas.

"Mas o BRT não é solução para tudo", alerta Balassiano. "Temos que trabalhar desde já com uma disciplina para o uso mais racional do carro."

Disciplina foi outro problema apontado no Rock in Rio. Além da grande quantidade de lixo acumulado no chão, houve registros de vandalismo nos banheiros, com mictórios entupidos e homens urinando no chão.

A vice-presidente do festival mostrou surpresa com o "mau comportamento" de parte do público, e lembrou as edições internacionais do festival, em Portugal e Madri. "Na Europa não tem furto e as pessoas não fazem xixi na parede", queixou-se, em um balanço do primeiro fim de semana.

No segundo fim de semana, a segurança foi aumentada em 30% e a entrada de alimentos para o público foi liberada, aliviando as filas nas lanchonetes. Ainda assim, o público estava em alerta contra furtos. Uma jovem abordou a repórter da BBC Brasil exibindo sua bolsa que havia sido cortada por uma navalha.

Próxima edição do festival terá muitas mudanças
Próxima edição do festival terá muitas mudanças
Foto: Ricardo Matsukawa / Terra

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